O Estado esvaziou o sentido moral da caridade
21 fevereiro 2026 às 21h00

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Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria, mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las varie de pessoa para pessoa.
Uma vida longa atravessa transformações profundas — não apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se vigor, mas ganha-se visão histórica.
Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”, como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende, assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados ao chamado envelhecimento saudável.
A medicina atribui à genética um papel relevante na longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene, alimentação equilibrada, atividade física e estímulo intelectual não apenas prolongam a existência, mas qualificam a vida. A biologia ensina que a função preserva o órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar é cair.
Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais — cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade. O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.
Mas o declínio humano não é apenas biológico. É preocupante se for também cultural. O indivíduo pode preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir, escolher e responder.
O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe depende da água, nós dependemos da cultura em que estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores, percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos respiramos.
Edmund Burke já advertia que os costumes são mais importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente; aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que percebamos.
Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado paternalista. Parte da responsabilidade social, antes sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi transferida ao poder público. A caridade, outrora prática cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi estatizada.
Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se função administrativa.
No cume da montanha, após quase um século de ascensão, a paisagem é clara. Ao estatizar a caridade, o Estado paternalista não apenas organizou a ajuda: ele a esvaziou de sentido moral. Onde antes havia virtude, surgiu procedimento; onde havia responsabilidade, instalou-se tutela. O cidadão deixou de agir por dever e passou a aguardar por direito.
Não foi por sabedoria, mas por ter vivido o suficiente para testemunhar essa revolução silenciosa, que se percebe o custo oculto do Estado protetor. Ao prometer amparo permanente, ele enfraqueceu a solidariedade espontânea, corroeu a responsabilidade individual e reduziu a liberdade a conforto administrado. A servidão moderna já não se impõe pela força — ela se oferece como proteção.

