Espetáculo de absoluta amoralidade
03 janeiro 2026 às 21h00

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Se quer conhecer um homem, dê-lhe poder. Poucas máximas resistem tão bem ao teste do tempo quanto esta. Embora raras sejam as verdades absolutas sobre o comportamento humano, o exercício do poder continua sendo um revelador implacável do caráter.
Desde os primórdios da civilização, o homem pouco mudou em sua estrutura psicológica. As transformações mais visíveis foram físicas: perdeu pelos, modificou a conformação do crânio, adaptou-se ao ambiente. Internamente, porém, permanece movido pelos mesmos impulsos fundamentais — ambição, medo, desejo de dominação.
Na escala das espécies, o ser humano se distingue como o mais perigoso dos predadores. Não apenas mata para sobreviver, como fazem os demais animais, mas também por prazer, ideologia ou conveniência. Nenhuma outra espécie se mostra tão criativa na crueldade.
A disputa pelo poder é, em essência, um jogo. Animais defendem territórios; homens defendem feudos políticos. A diferença é que, ao contrário dos irracionais, os humanos frequentemente desconhecem limites. É nas guerras e nas lutas políticas que se escancaram os piores instintos: traição, corrupção, violência e desprezo pela vida.
O que separa a civilização da barbárie é o escrúpulo — esse freio interno que submete a ação humana a critérios morais e éticos. O inescrupuloso age sem esse limite. Para ele, não importa a justiça do meio nem a dignidade do resultado. Vale o que favorece seus objetivos. Ideais dão lugar às conveniências.
A história oferece exemplos abundantes. Júlio César foi assassinado por Brutus, seu filho adotivo. O papa Alexandre VI cercou-se de assassinos e transformou a própria família em instrumento de poder. Em tempos modernos, impérios seguem invadindo vizinhos em nome de interesses estratégicos, sem constrangimento moral.
A política é o campo de prova definitivo do caráter. Para os inescrupulosos, a reação à derrota costuma revelar mais do que a vitória. O jogo político — o mais violento de todos — leva muitos a abdicar de qualquer valor para preservar o poder.
Diz-se, com razão, que no jogo e na bebida o homem mostra quem realmente é: no jogo, pela obsessão em vencer; na bebida, pela queda das inibições. Na política, ocorre o mesmo. Em disputas eleitorais brutais, os escrúpulos costumam ser descartados como obstáculos inconvenientes.
O cidadão comum, porém, frequentemente se ilude. Acredita no idealismo de líderes que já deram provas reiteradas de traição, irresponsabilidade e desvio ético. Narrativas vazias prosperam quando falta atenção aos fatos. Assim os políticos inescrupulosos vencem eleições.
Ninguém é menos confiável do que o inescrupuloso. A ausência de freios internos lhe concede liberdade absoluta — e nenhuma lei é suficiente para contê-lo. Nem mesmo os aliados estão a salvo: juramentos são feitos e desfeitos sem remorso, pois, entre iguais, a falta de escrúpulos é regra aceita do jogo.
Quem quiser entretenimento não precisa buscar ficção. Basta acompanhar a política nacional para assistir, em tempo real, a um espetáculo contínuo e emocionante de absoluta amoralidade.
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