Wilder sobra no tabuleiro de 2026 e arma palanque para si mesmo
24 janeiro 2026 às 21h00

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O que antes era tido como uma hipótese altamente improvável, quase impossível de se concretizar, agora é visto como um cenário prestes a ser oficializado. Costurada em pequenos pontos e movimentos, quase como um tricô delicado e imaginário que exige sutileza, parcimônia e fria análise, a aliança entre Daniel Vilela e o PL em Goiás pode já estar nos ajustes finais para entrar em vigor.
O primeiro ensaio de acordo entre governistas e o PL nasceu nos bastidores ainda em 2024. A intenção inicial, como se sabe, era que o hoje prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, então candidato apoiado pelo governador Ronaldo Caiado, fechasse uma aliança com o PL, tendo um representante bolsonarista na vice.
Os diálogos não prosperaram, muito em razão, como também é sabido, da insistência das lideranças bolsonaristas goianas em lançar candidato próprio. Bem, o candidato foi lançado, não o original. Afinal, dava-se como certa a candidatura de Gustavo Gayer, que, nos 45 do segundo tempo, foi substituído por Fred Rodrigues.
De graduações inexistentes ao rótulo de inexperiente, o rol de “atributos” que tornavam Fred não-prefeitável diante da população era extenso. Deu no que deu. Nem mesmo a presença massiva de Jair Bolsonaro em Goiânia, à época livre como um passarinho, foi capaz de alavancar Fred, que até chegou a sair vitorioso no primeiro turno, mas sofreu uma derrota considerável no segundo.
Mabel foi eleito chefe do Executivo municipal e, mais uma vez, o bolsonarismo foi para um lado e o governismo para outro. Contudo, o início dos burburinhos e das movimentações para o pleito de 2026 ressuscitou a ideia de uma composição entre MDB, UB e PL. Desta vez, mirando o Palácio das Esmeraldas.
Os diálogos começaram de forma tímida, sobretudo por meio de emissários e interlocutores. Vereador por Goiânia, Major Vitor Hugo foi uma figura central nesse processo. Foi ele o responsável pela reunião entre Daniel Vilela e Jair Bolsonaro, considerada o pontapé inicial das negociações. O vereador, inclusive, foi alvo da fúria das lideranças bolsonaristas da época, leia-se Gustavo Gayer e Wilder Morais, que o acusaram de tentar entregar o PL ao governo, já que estaria acertado que a legenda teria candidato próprio ao Palácio das Esmeraldas, o próprio Wilder.
O tempo passou e, com ele, toda a conjuntura mudou. É cômico, mas não surpreendente, afinal, é de conhecimento geral que, na política, nada é, tudo está. Gayer, que antes assinara uma nota de repúdio contra Vitor Hugo por articular uma aproximação entre o PL e o governo Caiado, hoje é um dos que mais defendem a aliança.

Isso porque será um dos grandes beneficiados. O jogo é claro: o PL abre mão de candidatura própria ao governo e adere à base caiadista, apoiando o projeto de Daniel Vilela para o governo de Goiás. Em troca, Gayer entra como segunda vaga na chapa governista ao Senado Federal. A primeira já pertence à primeira-dama do Estado, Gracinha Caiado.
A articulação, diga-se de passagem, foi revelada pelo Jornal Opção quando a maioria ainda a via como totalmente inverossímil.
Nas entrevistas mais recentes à imprensa, Caiado já admite que a composição está praticamente fechada, inclusive com o aval de Flávio Bolsonaro, hoje tido como herdeiro do legado bolsonarista. “Esse processo [a aliança] já evoluiu muito, onde o PL deverá ocupar uma vaga na senatoria, que é o deputado Gayer. A outra vaga é da Gracinha, primeira-dama, e Daniel Vilela governador do Estado. Essa composição está sendo construída, sim”, disse o gestor em entrevista ao site Poder360. E acrescentou: “É uma aliança que tem tudo a ver com a história política de Goiás”.
No entanto, como em todo jogo político, há aqueles que fazem das tripas coração para tentar fazer soar mais alto sua estratégia, ainda que em vão. É o caso do senador Wilder Morais. Presidente do PL em Goiás, há tempos o parlamentar articula uma pré-candidatura ao governo do Estado. Ou melhor, Wilder passou mais tempo dando sinais de que tinha interesse em se candidatar do que, de fato, trabalhando para isso.
Até novembro do ano passado, quando finalmente anunciou ser pré-candidato a governador, não faltavam cobranças de filiados do PL, sobretudo de prefeitos, para que Wilder deixasse de se esquivar da questão e confirmasse, de maneira objetiva, qual seria sua posição na eleição.
Wilder Morais quer, sim, ser candidato ao governo de Goiás pelo PL. A grande questão é que o PL dá sinais claros de que não quer isso. E não faltam motivos que justifiquem a postura da legenda.
Em primeiro lugar, porque o nome de Wilder não anima o eleitorado. Mesmo tendo mandato de senador, liderando um partido com alta expressividade eleitoral em Goiás e confirmando que pretende disputar o Palácio das Esmeraldas, Wilder Morais não emplaca em nenhuma pesquisa divulgada até agora. Em algumas, como a do Instituto Paraná Pesquisas, divulgada em dezembro do ano passado, o senador bolsonarista aparece até atrás da deputada federal Adriana Accorsi, que já deixou claro ser candidata à reeleição.
O segundo ponto é que não faltam lideranças bolsonaristas enfatizando, em uníssono, o projeto prioritário do PL: a sigla quer fazer senadores, não governadores. Com Bolsonaro, a principal figura do partido, preso e inelegível, e com lideranças de peso da legenda na mira do STF, o PL trabalha para ampliar sua presença na Casa que tem poder de postergar ou até frear iniciativas oriundas da Suprema Corte.
Ainda assim, Wilder aparentemente não consegue assimilar essa leitura e insiste em sua pré-candidatura. Conforme apurado pelo Jornal Opção, o senador entra em contato frequentemente com outras lideranças do PL na tentativa de convertê-las ao seu projeto. Sem sucesso.
Se por ego ou por determinação pessoal movida pela crença de que, sim, ele tem chances, mesmo com as pesquisas apontando o contrário, não se sabe. O fato é que Wilder dá sinais de que tentará, a qualquer custo, manter sua pré-candidatura e propagandear, mesmo sem números, que ela seria o melhor projeto para o PL.
Enquanto isso, o jogo real está prestes a ser fechado, e o senador da República discursa em um palanque sem espectadores.

