Em Goiás, a rasteira tucana do ano
07 março 2026 às 21h00

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Política se constrói no corpo a corpo, no olho no olho, nas ruas, em audiências públicas, congressos e conferências. Ela nasce do vínculo direto com o povo que, de alguma forma, será afetado pelas decisões de quem pleiteia um mandato eletivo. Há também aqueles que chegam a cargos públicos quase por acaso, convocados para compor uma vice e que, por circunstâncias inesperadas, acabam assumindo a titularidade de uma cadeira no Executivo ou no Legislativo. Esse não é, porém, o caso da vereadora Aava Santiago.
Goste-se ou não da parlamentar de Goiânia, a verdade é que a socióloga de 36 anos parece ter sido moldada para o embate das lutas públicas. Evangélica e filha de pastores assembleianos de esquerda, a “malocrente”, como gosta de se definir, construiu sua trajetória nas trincheiras do movimento estudantil e levou para a vida institucional a mesma forma intensa de fazer política.
Não é raro que trechos de suas falas viralizem nas redes sociais. A vereadora também aparece com frequência em entrevistas em programas de alcance nacional. Leia-se: enfrentá-la em debate exige preparo, e não é pouco. Inteligente e articulada, a goiana combina uma retórica estruturada com eloquência marcada, fruto de anos em diretórios estudantis, congressos e assembleias universitárias e, por que não, religiosas. Ela costuma destrinchar posições e responder de maneira contundente a ataques pessoais ou a críticas baseadas apenas em achismos e divergências ideológicas.
Na política partidária, Aava construiu sua trajetória dentro do PSDB. Para muitos que a conheciam pela primeira vez, a combinação causava estranhamento: evangélica, de esquerda e tucana? Uma mistura, para alguns, inusitada. Não demorou, contudo, para que, dentro do partido, ela se aproximasse da maior liderança tucana em Goiás, Marconi Perillo. Mais do que um padrinho político, Perillo tornou-se um aliado próximo e investiu pesado em sua projeção, reconhecendo sem muito esforço seu potencial.
O resultado veio nas urnas. Aava foi eleita e reeleita vereadora de Goiânia com votações expressivas. Na segunda eleição, tornou-se, inclusive, a mulher mais votada da história da Câmara Municipal da capital.
Agora, porém, o mandato conquistado pela parlamentar está ameaçado justamente pelo partido que ajudou a consolidar seu nome: o PSDB.
Nesta semana, as direções estadual e municipal da legenda ingressaram na Justiça Eleitoral com uma ação contra Aava Santiago pedindo a perda de seu mandato sob a alegação de infidelidade partidária. A vereadora deixou o PSDB e se filiou no mês passado ao PSB, em um grande evento realizado em Goiânia. A cerimônia contou com a presença de lideranças nacionais, entre elas o presidente da sigla, João Campos, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Na ocasião, Aava também assumiu o comando do partido em Goiás.
Durante o evento, Aava foi questionada sobre a saída do PSDB e a mudança para o PSB. Perguntaram se a decisão havia sido tomada com o aval de Marconi Perillo. Ela respondeu, em tom tranquilo, que a mudança havia sido resultado de um acordo entre lideranças nacionais das duas legendas, nada impensado ou feito à revelia – o que faz sentido: ela não deixaria a legenda se pairasse a ameaça de judicialização. O que parece ter faltado, no entanto, foi uma carta formal de anuência e talvez uma dose maior de cautela (ou malícia?) política para perceber que o movimento era ousado demais para não ser uma assinatura no papel.
A vereadora não escondeu surpresa ao saber da ação judicial movida pelo partido. Segundo sua equipe, a informação chegou primeiro pela imprensa. Até o fechamento desta coluna, ela sequer havia sido oficialmente notificada.
Em nota divulgada à imprensa, Aava disse: “A situação causa surpresa à vereadora, tanto pelos 20 anos em que foi filiada à legenda quanto pelo fato de que, desde outubro de 2025, vinha mantendo conversas diretas sobre o tema com o presidente licenciado do PSDB em Goiás, Marconi Perillo. Ao longo desse período, ambos dialogaram por chamadas de vídeo e também presencialmente, tratando e alinhando os desdobramentos políticos relacionados ao seu vínculo partidário.”
A um veículo local, o deputado Gustavo Sebba, atual presidente estadual do partido, e Matheus Ribeiro afirmaram que decidiram “poupar” Marconi do debate, uma vez que ele estaria concentrado na pré-candidatura ao governo de Goiás. A declaração insinua que a decisão de recorrer à Justiça para pedir o mandato da vereadora teria sido tomada sem a participação direta do ex-governador.
Não é impossível, mas soa improvável. É público e notório que Marconi Perillo foi e é a principal liderança do PSDB em Goiás e uma das figuras mais influentes da legenda no país. Lembre-se: ele presidiu o partido nacionalmente até o ano passado, e dificilmente uma decisão interna de tamanha magnitude ocorreria sem seu conhecimento. Caso contrário, como afirmou a própria Aava a um jornal local, isso indicaria que ele estaria perdendo o controle do próprio partido.
O fato é que, ao longo de sua trajetória, Aava se envolveu em debates intensos e acumulou adversários ao defender com firmeza o PSDB e seu principal líder. A mudança partidária representou um passo político significativo, feito sob a garantia de seu padrinho político. Agora, é justamente a legenda que a projetou, acompanhada do silêncio de sua maior liderança, que tenta retirar dela o mandato conquistado nas urnas.
Se confirmada, a manobra do PSDB escancara um ajuste de contas interno. É altamente provável que a ação do partido prospere na Justiça. Sem mandato, Aava, que é pré-candidata a deputada federal, deve chegar consideravelmente menos forte ao pleito – e graças ao seu antigo partido.
A sigla que durante anos se beneficiou da combatividade de Aava Santiago, agora tenta enquadrá-la judicialmente depois de sua saída. Para muitos observadores, o pedido de cassação já ganhou um rótulo difícil de ignorar: a rasteira tucana do ano.

