Petróleo, Guerra, Sanções e Hipocrisia

por Ycarim Melgaço, especial para o Jornal Opção*

Foto: Reprodução

Pode-se afirmar que a energia é um importante fator de desenvolvimento social e econômico. Tendo em vista o petróleo, sua importância é bem explicada pela história e pelas mudanças nos preços e na disponibilidade que continuam a afetar a economia, a segurança internacional e a estabilidade política dos países consumidores.

A recente invasão da Ucrânia pela Rússia está inextricavelmente relacionada à crise energética global. Europa e Estados Unidos estão bastante preocupados. Mas por que tanto temor? Algumas respostas podem ser destacadas.

  1. O preço do petróleo disparou à medida que a AIE explorou estoques de emergência. Com os preços do gás no atacado já em níveis extremamente altos, em pouco tempo, o preço do petróleo pulou de 78 dólares para 127 dólares por barril. Há alertas piscando para um aumento ainda maior se sanções forem duramente aplicadas ao fornecimento de petróleo pela Rússia.
  2. A Rússia é uma parte importante do sistema energético global graças aos seus enormes recursos de combustíveis fósseis. É o terceiro maior produtor mundial de petróleo depois dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, respondendo por 12% da produção global, e o segundo maior produtor de gás depois dos Estados Unidos, sendo responsável por 17% da produção mundial. Além disso, é um membro influente da aliança OPEP+.
  3. O fornecimento russo de energia é particularmente importante na Europa, que recebe cerca de 70% das exportações de gás do país e metade das suas exportações de petróleo, segundo dados oficiais apresentados pelos Estados Unidos. Mais de um terço do suprimento de gás da Europa vem da Rússia, o que, em uma crise, fragiliza países europeus, principalmente a Alemanha.

Nesse sentido, de um lado, a Europa, com a forte dependência russa, precisa de medidas urgentes. Assim, líderes europeus integrantes da Comissão Europeia enfatizaram a necessidade de acelerar a implantação de tecnologias de energia limpa. Mas esbarram em um pequeno detalhe: não há tempo suficiente para que essas medidas sejam adotadas.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, por outro lado, em março de 2022, decidiu adotar uma medida extrema, mais uma sanção, isto é, suspender imediatamente a compra de petróleo russo, decisão apoiada pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

A medida parece simples, mas e a segurança energética dos Estados Unidos que dependem do petróleo russo? A alternativa veio de algo realmente inesperado: a entrada em cena da Venezuela, uma nação pobre, excluída pelos Estados Unidos que adotam sanções àquele país desde 2018, ao congelar ativos e suspender a exportação de petróleo. Por considerar a Venezuela uma nação socialista e sem democracia, em 2019, um ano após a vitória de Nicolás Maduro na eleição presidencial, que o Ocidente claramente descreveu como uma farsa, o governo norte-americano rompeu relações diplomáticas com o país. Os Estados Unidos não consideram Maduro como o presidente da Venezuela.

A reaproximação Washington-Caracas demonstra como a hipocrisia e o cinismo integram a geopolítica energética e acabam mudando as relações diplomáticas entre os países de forma veloz. Em março de 2022, aconteceu algo que não ocorria há duas décadas. De supetão, uma delegação de alto nível dos Estados Unidos visitou Caracas. Segundo Jen Psaki, secretária de imprensa da Casa Branca, o propósito da visita foi abrir um diálogo sobre segurança energética, tendo em vista que a Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do planeta e, com a invasão da Ucrânia, os preços do combustível fóssil dispararam. A visita revela o lado sínico da guerra entre Rússia e Ucrânia.

A questão é: a Venezuela será capaz de suprir as necessidades de petróleo dos Estados Unidos? Em outras palavras, a Venezuela, lar das maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo, tem combustível suficiente em seu tanque para corresponder a tal expectativa dos Estados Unidos?

Igor Hernandez, especialista no setor de energia da Venezuela, do Instituto Baker da Rice University, em Houston, afirmou à Agência France 24 que, em 2021, os Estados Unidos importaram cerca de 650 mil barris de petróleo russo por dia, aproximadamente a quantidade que compraram da Venezuela antes de impor sanções em 2019. Isso demonstra que os Estados Unidos simplesmente usaram a Rússia como substituto da Venezuela. Agora, fazem o oposto, suspendendo as sanções à Venezuela para impor novas sanções contra a Rússia; neste caso, voltando às condições de 2019.

Ycarim Melgaço | Foto: Arquivo Pessoal

Na prática – ou por ironia do destino –, a capacidade da Venezuela de atender rapidamente às demandas dos EUA neste momento inesperado é limitada, exatamente pela crise econômica do país. Tal crise, em grande parte, é acarretada pelos efeitos das sanções do próprio governo de Washington, que comprometeram a infraestrutura energética da Venezuela.

A Venezuela ficou impedida de usar a receita das exportações de petróleo, mas o fez, diga-se, grande parte de forma clandestina e ainda com ajuda de outro país submetido a sanções dos Estados Unidos – o Irã. Além disso, os venezuelanos se encontram limitados em sua capacidade de usar a receita das exportações de petróleo, observando-se que a PDVSA (empresa estatal venezuelana) está intimamente vinculada a bancos russos, que também são alvo de sanções no momento.

O Irã, ainda sob forte sanção dos Estados Unidos, também está na lista de países como a Venezuela que poderão suprir a saída do petróleo russo do mercado. Portanto, como ocorre com Caracas, o governo de Teerã já está em tratativas com autoridades norte-americanas.

Por fim, a invasão da Ucrânia pelo governo russo tem colocado em cena no mundo globalizado a dependência em relação ao ouro negro. No palco, está uma orquestra que toca sua marcha: petróleo, guerra, sanções e hipocrisia…

* Ycarim Melgaço é professor no Programa de Mestrado em Desenvolvimento e Planejamento Territorial (MDPT-PUCGO), Doutor em Geografia (USP) e pós-doc em Economia (Unicamp)

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