Carlos Ugo Santander comenta debate com Mário Vasconcelos na Rádio Bandeirantes

“Para aqueles que promoveram discurso de ódio sobre minha nacionalidade, minhas  desculpas por se sentirem inferiorizados, mas minha nacionalidade é imutável”

Carlos Ugo Santander

Prezados amigos leitores da cidade de Goiânia,

Por meio desta, venho me manifestar, dado que recentemente publicaram uma nota mencionando o episódio no qual fui alvo de preconceito durante o programa “Opinião em Debate”, da Rádio Bandeirantes AM, na manhã de terça-feira, 19, pelo professor Mário Vasconcelos.

Carlos Ugo Santander, pós-doutor em Ciências Políticas: professor da Universidade Federal de Goiás | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Quero agradecer à comunidade acadêmica da Universidade Federal de Goiás, em particular aos colegas do programa de pós-graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos, a Faculdade de Ciências Sociais e seu Centro Acadêmico, pelas diversas mensagens de solidariedade, além dos cidadãos que se manifestaram publicamente.

Indistintamente da postura do professor Mário Vasconcelos, amplificar insultos e agressões injuriosas e xenofóbicas em relação à minha pessoa por cidadãos anônimos por meio de um veículo de comunicação, como é a Rádio Bandeirante, é no mínimo eticamente condenável.

Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, entre essas vítimas, vários professores universitários de reconhecida trajetória, como o compatriota peruano professor Eduardo Arbieto, que deixa esposa e filhos

Eduardo Arbieto: professor peruano que morreu de Covid-19 | Foto: Arquivo da família

É nessa perspectiva que desejo me manifestar declarando: o discurso de ódio — inclusive a sua insinuação — promovidos contra qualquer cidadão pela sua condição de etnia, gênero, orientação sexual, neste caso, de nacionalidade, historicamente evidenciam que podem estimular tragédias. Terceirizar a responsabilidade pelos seus efeitos é a forma mais covarde e vil de evadir qualquer tipo de responsabilidade.

Fui convidado para emitir uma opinião e as minhas palavras apenas traduzem a indignação de muitos. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, entre essas vítimas, vários professores universitários de reconhecida trajetória, como o compatriota peruano professor Eduardo Arbieto, que deixa esposa e filhos. Todos, sem exceção, sofremos a negligência da política do governo que parece ter sido arrancada de um conto de terror que temos vivido e estamos vivendo com o governo de Bolsonaro. Para aqueles que promoveram seu discurso de ódio por conta da minha nacionalidade, minhas mais sinceras desculpas por se sentirem inferiorizados, mas minha nacionalidade é imutável.

Saibam que nós, estrangeiros, temos contribuído e contribuímos para o desenvolvimento do Estado de Goiás, e a Universidade Federal de Goiás é um dos berços mais importantes dos quadros profissionais deste Estado. Em qualquer país democrático é preciso identificar claramente qual é o papel da sociedade civil a respeito da coisa pública. Não somos funcionários de governo, somos funcionários de Estado, por tanto qualificados em nossas opiniões.

Trabalho em uma das universidades mais prestigiadas do Brasil, da América Latina e do mundo. Ao lado de colegas que, assim como eu, enfrentam o deterioro e a pauperização das instituições federais. O acontecido não é apenas um problema que afeta apenas uma pessoa, afeta toda a comunidade científica, muitos estrangeiros trabalham nas diferentes áreas de ciência: cubanos, argentinos, italianos bolivianos, armênios etc. Somos milhares de profissionais estrangeiros espalhados em todo Goiás e em todo o Brasil.

Todos nós estrangeiros deixamos nossas terras e famílias para vir ao Brasil, somos respeitosos das instituições e cuidamos com responsabilidade do nosso trabalho. Disputamos concursos públicos assim como qualquer outro candidato.

Se em circunstâncias não desejadas posso ser alvo de agressões — como tenho sido —, com base nas minhas opiniões, manifesto, desde já, que jamais renunciarei de minhas ideias, tenho realizado meu trabalho de forma honrada, transparente e responsável.

Muitos Mário Vasconcelos estão, sem dúvida, espalhados pelo Brasil e acredito que é preciso continuar jogando luz nas cavernas onde reside a ignorância. Meus sentimentos de solidariedade a todas às famílias goianas pela tragédia que estamos vivendo.

Atenciosamente,

Carlos Ugo Santander é professor Associado na Universidade Federal de Goiás (Faculdade de Ciências Sociais), doutor em Sociologia (Estudos Comparados sobre América Latina pela UnB), mestre em Estudos políticos e sociais sobre América Latina no Chile (Ilades/Chile), pós-doutor em Ciência Política na Libera Università Internazionale degli Studi Sociali ” Guido Carli” (Luiss-Itália). Autor de numerosos artigos científicos, conferencista internacional, suas opiniões são publicadas em vários jornais de América Latina (“El Universal”, do México”, “El Espectador”, da Colômbia, “El Universo”, do Equador, “El Clarín”, da Argentina, “La Tercera”, do Chile, “Página Siete”, da Bolívia etc.)

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