Entre o medo e o encantamento: a difícil arte da coexistência entre humanos e a fauna no Vale do Araguaia
17 janeiro 2026 às 21h00

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Por: Douglas Santos, Leandro Silveira, Carolina Alves e Wellington Hannibal – Especial para o Jornal “Opção”
Há um certo romantismo nas conversas de quem vive nas cidades quando o assunto é a natureza. Fala-se com brilho nos olhos sobre a beleza das onças, o canto dos pássaros, a força dos jacarés, a inteligência dos botos, como se a fauna selvagem fosse apenas um cenário exuberante de um Brasil intocado. Mas essa visão se esfarela quando nos aproximamos das margens do Rio Araguaia, onde a natureza não é uma paisagem distante, é vizinha de cerca, presença diária, às vezes indesejada, às vezes temida.
Nas últimas semanas, uma equipe associada ao programa “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), e do PPBio Araguaia (@ppbio.araguaia), executado pela PUC-Goiás com financiamento do CNPq, em parceria com o Instituto Onça Pintada (IOP) e o Laboratório de Ecologia e Biogeografia de Mamíferos (LECOBIOMA) da Universidade Estadual de Goiás (UEG), tem percorrido comunidades ribeirinhas e propriedades rurais em diferentes pontos do Vale o Araguaia, realizando entrevistas com grandes e pequenos produtores, posseiros, retireiros, chacareiros, e famílias de agricultores. O objetivo: compreender como essas pessoas percebem a fauna que as cerca e, principalmente, como lidam com ela, em um esforço para entender as dimensões humanas da conservação, um campo que busca integrar o conhecimento ecológico ao olhar social, reconhecendo que conservar a fauna depende, antes de tudo, de compreender as pessoas.


É fácil, de longe, defender que os animais devem ser protegidos. Difícil é quando o gado amanhece atacado, uma roça inteira é destruída por queixadas, o boto destrói a rede dos pescadores, um jacaré mata o cachorro da família, ou quando o lobo-guará aparece rondando os galinheiros. Para quem vive no campo, o encontro com a fauna não é metáfora, é impacto real, econômico e emocional. Muitas vezes, são pessoas simples que trabalham duro e buscam a oportunidade de uma vida melhor para sua família.
Nessas conversas, temos escutado histórias de medo, de perdas, mas também de fascínio e respeito. Há quem atire para se proteger, há quem apenas espante, há quem observe em silêncio, com admiração genuína. Cada relato carrega uma mistura de sentimentos: orgulho por viver em um lugar onde ainda existem onças e ariranhas, e, ao mesmo tempo, preocupação com os prejuízos que a presença desses animais pode causar. As primeiras impressões indicam que muitos dos conflitos não nascem simplesmente do ódio à fauna, mas, muitas vezes, da falta de informação, de apoio e de alternativas. Quando um pescador vê uma sucuri nos lagos de onde tira seu sustento, ou quando uma família teme uma onça nas proximidades da casa, o medo e o instinto de proteção falam mais alto. E é nesse terreno delicado, entre o medo e o encantamento, que se decide o futuro da coexistência.
“É bonito ver a onça na televisão, mas quando ela aparece no meu quintal, a coisa muda...” Essa frase, dita por um pequeno produtor do Vale do Araguaia que teve seu cachorro atacado por uma onça, resume o dilema de centenas de pessoas que vivem na zona rural. Para quem depende do gado, da horta ou da pesca, a presença de animais silvestres pode representar prejuízos reais. Uma única cabeça de gado abatida por uma onça pode ser um golpe severo na renda familiar de um pequeno produtor. Enquanto o grande produtor pode absorver essa perda como parte do risco da atividade, o pequeno criador sente o peso direto no bolso e, por falta de alternativas, reage da forma que aprendeu: afastando, espantando ou, em alguns casos, eliminando o animal.
Ao acompanhar mais de perto essas histórias, percebemos que esses conflitos não surgem ao acaso, eles podem ser de diferentes níveis e ser agravados dependendo da situação. Na literatura são classificados três níveis de conflito. O nível 1 envolve questões como perda de safra, predação de gado, danos a propriedades ou discordâncias sobre reintrodução de espécies e áreas protegidas, mas esses conflitos são amenizados pela tolerância e até pelo apreço pelas espécies. Porém, quando essas disputas não são resolvidas, acumulam-se ressentimentos, injustiças percebidas e um histórico de respostas ineficazes, surgindo o nível 2, nesse estágio instala-se a lógica “nós contra eles”. As questões não resolvidas crescem entre comunidades, instituições e agentes da conservação, e as soluções se tornam temporárias se não forem abordadas as causas profundas. O nível 3, o mais complexo, aparece quando o conflito passa a ser percebido como uma ameaça à identidade, valores ou modos de vida da população, tornando difícil identificar o problema real e ainda mais difícil resolvê-lo. Para conflitos desse nível, somente análises completas, que integram métodos quantitativos e qualitativos, são capazes de evitar o agravamento das tensões. Conflitos assim exigem muito mais do que técnicas de manejo. Exigem-se entender pessoas, histórias e valores. Sem isso, qualquer intervenção corre o risco de, mesmo bem-intencionada, agravar o que se pretende resolver.
Há também os temores menos econômicos, mas igualmente poderosos: o medo do desconhecido, o receio pelos filhos que brincam perto da mata, a lembrança de histórias antigas em que onças “carregavam bezerros” ou “comiam pessoas”. Esses medos se misturam a crenças, tradições e narrativas passadas de geração em geração, compondo um imaginário no qual a fauna é ao mesmo tempo fascinante e perigosa.
Grande parte da sociedade desconhece o peso emocional e econômico que esses encontros representam para quem vive à beira do Araguaia. O olhar urbano tende a simplificar a questão: o animal é bom, o homem é mau. Mas a realidade é mais complexa. Os primeiros relatos indicam que a maioria dos conflitos não é intencional. Queimadas acidentais, desmatamentos mal planejados, construções em áreas de passagem de fauna, introdução de animais domésticos, tudo isso pode afastar animais de seus habitats ou colocá-los em rota de colisão com as atividades humanas. Há casos de abates motivados por medo, desinformação ou crença de que “é melhor eliminar antes que cause problema”. Essas ações, somadas, fragmentam a paisagem e minam as bases da biodiversidade que ainda resiste na região. E ao mesmo tempo, revelam uma fragilidade estrutural: falta de políticas públicas eficazes, ausência de educação ambiental contínua e pouca valorização do conhecimento local.
Diversas entrevistas têm nos apresentado um tema ainda mais alarmante e recorrente: a ausência do Estado e a falta de confiança nas instituições ambientais. Muitos entrevistados afirmam não conhecer o ICMBio, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão responsável por gerir as unidades de conservação federais e por promover a coexistência entre humanos e fauna. Outros dizem não confiar no IBAMA, nos órgãos ambientais estaduais e até nas ONGs que, teoricamente, deveriam atuar em prol da conservação e do desenvolvimento sustentável. Essa descrença cria um vácuo institucional perigoso. Quando um animal causa prejuízo (uma onça ataca um bezerro, uma ariranha destrói as redes de pesca, ou queixadas destroem uma lavoura), o morador muitas vezes não tem a quem recorrer. O problema fica inteiramente nas mãos de quem foi afetado. E, nesse vácuo, cada um age por conta própria. Alguns tentam resolver de forma pacífica outros recorrem a métodos que acabam prejudicando ainda mais a fauna, muitas vezes, não por maldade, mas por falta de informação e apoio. A coexistência, nesses casos, deixa de ser uma escolha e passa a ser uma batalha silenciosa travada no cotidiano.
Apesar das lacunas institucionais, há um elemento de esperança em meio às respostas: a curiosidade e a abertura ao diálogo. Muitos moradores se mostraram interessados em aprender mais sobre os animais, em saber como evitar ataques, como proteger suas criações e até como transformar a presença da fauna em oportunidade (por meio do turismo de natureza, por exemplo). Muitos se dizem dispostos a adotar medidas para evitar conflitos, caso recebam orientação e suporte das instituições. Esse interesse demonstra que o caminho da coexistência passa, necessariamente, pela educação ambiental, mas uma educação que fale a língua do campo, que reconheça o conhecimento tradicional e valorize o saber local.
Falar em coexistência não é pedir que as pessoas deixem de proteger o que é seu. É propor uma nova forma de pensar as relações entre humanos e animais selvagens, em que o respeito mútuo se torne uma ferramenta de equilíbrio. Isso exige educação ambiental adaptada à realidade rural, programas de compensação de prejuízos, incentivo ao turismo de natureza e à observação da fauna e, sobretudo, escuta ativa. É preciso ouvir o campo, suas dores, suas estratégias, sua sabedoria. Muitos moradores conhecem os hábitos dos bichos melhor do que qualquer livro. Sabem onde a onça costuma caçar, quando os cardumes vão subir o rio, onde as tartarugas vão desovar, ou quando as aves migratórias anunciam a cheia. Esses saberes locais, quando reconhecidos e valorizados, são poderosos aliados da conservação.
Como cada cultura interpreta de maneira distinta sua relação com a vida selvagem, símbolos, valores e significados assumem um papel central nos conflitos, exigindo sensibilidade para compreender as visões locais. Nesse contexto, o Conhecimento Ecológico Tradicional é fundamental, pois carrega saberes acumulados ao longo de gerações sobre como conviver e interpretar a presença da fauna. Portanto, para que a coexistência seja harmônica, o diálogo, o engajamento e a construção conjunta de conhecimento são essenciais, além de intervenções planejadas em duas escalas: (1) ações imediatas para reduzir riscos e conflitos e (2) estratégias de longo prazo que considerem a forma como pessoas e animais podem compartilhar a paisagem de maneira justa, segura e sustentável.
No vale do Araguaia, a coexistência é um ato diário de coragem. É o vaqueiro que muda o manejo do gado para evitar ataques. É a família que aprendeu a conviver com ariranhas e jacarés nos lagos. É o pescador que entende que o rio precisa ser compartilhado. Essas histórias, reunidas na pesquisa que estamos realizando, revelam uma verdade essencial: conservar não é apenas proteger os animais, é reconstruir pontes entre pessoas e natureza. O futuro da fauna do Araguaia, e de tantos outros lugares do Brasil, depende dessa reconciliação silenciosa. De reconhecer que a onça não é inimiga, mas também não é apenas uma imagem bela das redes sociais ou um símbolo distante de uma campanha publicitária. Ela é parte do mesmo território que produz e que sustenta a vida nas cidades. Se quisermos que ela continue a existir, será preciso mais do que leis e parques: será preciso respeitar o olhar de quem vive lado a lado com ela.
O Rio Araguaia é um dos mais extensos e diversos do Brasil, e o Vale do Araguaia, por sua vez, é um mosaico de realidades culturais, econômicas e ecológicas. Da nascente em Goiás até a foz no Tocantins, o cenário muda completamente: a paisagem, o tipo de produção, as tradições e os conflitos também. Por isso, não existe um único tipo de conflito humano-fauna no Araguaia, mas sim muitos. Nas regiões onde vivem comunidades indígenas, por exemplo, as questões envolvem o manejo tradicional dos recursos, a caça e a relação espiritual com os animais, como no caso das tartarugas e dos pirarucus, muitas vezes perseguidas para consumo ou comércio. Nas áreas de produção de grãos, grandes fazendas irrigadas disputam a água do rio com a fauna aquática e os ribeirinhos, alterando os fluxos ecológicos. Nas áreas de pecuária extensiva, predominam os conflitos com onças-pintadas e pumas, enquanto nos trechos onde o turismo é mais intenso, surgem novas pressões: poluição sonora, lixo, embarcações e o distúrbio provocado pela presença humana constante.
Cada trecho do rio tem seus próprios dilemas, moldados por diferentes modos de vida, níveis de renda, graus de escolaridade e acesso à informação. Isso significa que não há solução única. É preciso reconhecer as diferenças culturais e geográficas e propor estratégias de coexistência adaptadas a cada contexto, respeitando as particularidades de quem vive e trabalha em cada pedaço desse território imenso. Olhar o Araguaia como um todo homogêneo seria cometer o mesmo erro de sempre: transformar a diversidade em problema, quando ela é, na verdade, a chave da solução.
No fundo, o que está em jogo é uma pergunta simples: é possível conviver com a fauna sem que ninguém perca? Aos poucos, conforme avançam as entrevistas, vamos percebendo que essa coexistência depende da construção de confiança entre pessoas e instituições, entre humanos e animais, entre ciência e cotidiano. Cada história de conflito traz uma chance de aprendizado. Cada relato de medo, uma oportunidade de diálogo. O desafio é transformar o medo em respeito, o prejuízo em parceria, a desconfiança em ação coletiva. Conservar, afinal, não é proteger a fauna das pessoas, mas também entender o ponto de vista das pessoas em relação aos conflitos. Se quisermos garantir que, onças, jacarés, sucuris, ariranhas e toda essa rica biodiversidade continuem existindo nas margens do Araguaia, precisaremos antes garantir que as pessoas que vivem aqui não se sintam sozinhas nessa tarefa.
Confira quem são os autores desse artigo
Douglas dos Santos Silva – Turismólogo e Doutor em Biodiversidade Animal pela Universidade Federal de Goiás (UFG), vice-coordenador da atividade “Turismo e Pesca” do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA/FAPEG.
Leandro Silveira – Biólogo e Doutor em Biologia Animal pela Universidade de Brasília (UNB), fundador e presidente do Instituto Onça Pintada (IOP) e pesquisador associado do PPBio Araguaia (CNPq).
Carolina Alves – Doutoranda em Biodiversidade Animal (UFG), pesquisadora voluntária no “PPBio Araguaia” e no “Araguaia Vivo”Araguaia”
Wellington Hannibal – Professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG), pesquisador do “PPBio Araguaia” e do “Araguaia Vivo”

