Há poucas semanas, uma onda de esperança tomou conta dos assuntos nas telas, escolas e mesas de bar; aquilo que parecia distante e impossível, agora se aproxima da realidade: pessoas com lesão medular viam, na ciência, a esperança de voltarem a ter movimentos e sensações no corpo. Mesmo que em fase inicial, os estudos sobre a polilaminina se mostraram promissores e deram um vislumbre da potência das universidades públicas e das mulheres na ciência.

Diante dessa onda, o Jornal Opção entrevistou, com exclusividade, Tatiana Sampaio, bióloga que estuda os efeitos da polilaminina na cura de lesões na medula espinhal. Na conversa, ela fala sobre suas experiências pessoais enquanto pesquisadora, o motivo de ter começado na área biologia, como começou a estudar a molécula que pode mudar a vida de pessoas que não tinham mais esperança de voltarem a andar, sobre a vivência de ser mulher em meio científico e em relação às críticas que recebeu.

Desafios da mulher na ciência

Para Tatiana, assim como para várias mulheres, o principal desafio é conciliar o trabalho com os afazeres domésticos e vida familiar. Para ela, na área biomédica “não tem problema de se sentir isolada e tudo isso porque já é uma maioria de mulheres mesmo.”

Tatiana rebateu as críticas que recebeu diante da exposição na mídia por causa da polilaminina. Profile em redes sociais, ela diz entender que os posicionamentos vem a partir da interpretação individual de cada ser. “Eu não tenho rede social, então eu estou um pouco protegida de comentários assim, grosseiros. Eu sei as coisas que as pessoas me contam”.

Críticas, dúvidas e ataques

A bióloga afirma não classificar as críticas que recebeu como ataques machistas e que as pessoas que a atacam fazem parte da medicina e da comunidade científica. “Eu não interpreto assim não. Eu acho que são pessoas que estão mordidas, que não estão satisfeitas. Não acho que seja isso não (machismo), mas pode ser tenha um componente”.

Ela ainda explica a diferença dos tipos de críticas que recebeu. “Eu acho que quando a pessoa tem uma pergunta, aí tudo bem. Tá dentro do esperado. A pessoa quer uma informação a mais, ela quer tirar uma dúvida. Agora, eu não ouvi nenhuma crítica realmente razoável. Todas elas demonstram que a pessoa não sabe o que tá dizendo”.

Ela faz um adendo: que existem questões que são passíveis de discussão e que não problema nenhum serem inseridas no debate científico. Tatiana diz ainda que não tem problema em conversar com pessoas que pensam diferente dela. Mas que “acusações pelas costas sobre coisas, principalmente sem nenhum fundamento, eu acho incorreto”.

Sensação de ver a pesquisa avançar

Sobre a parte humana da pesquisa de ver resultados positivos, a bióloga afirmou que foi um processo “emocionante” e explicou a dinâmica das descobertas. “Na verdade, o primeiro paciente apresentou melhoras significativas. Então, foi muito importante. Porém, os outros melhoraram menos. Eu imaginava que o resultado iria se repetir da mesma forma com todos. Mas ainda acho que o que aconteceu com o primeiro paciente foi impressionante”, afirma.

Tatiana destaca a participação fundamental das famílias dos pacientes. “A gente vê que os movimentos eram algo dramático e há uma aproximação, pois a gente visita, faz exames… Então, a gente vai conhecendo a família, as pessoas próximas, o que torna tudo ainda mais emocionante”, destaca.

Escolha pela Biologia e da polilaminina

A bióloga diz que tem vontade de ser cientista desde criança e que isso é influência do seu pai e de uma tia-avó, que era bióloga e cientista. Sobre a escolha da Biologia, ela afirma que foi “amor à primeira vista”. “Eu me apaixonei mesmo quando eu aprendi a matéria na escola”.

Tatiana destaca que o estudo com a polilaminina aconteceu com uma “coincidência”. “Eu estava procurando uma proteína para trabalhar porque eu estava com um projeto que não estava vingando, era a tese de uma aluna. Eu pensei em um plano B e encontrei essa proteína que estava lá, que foi comprado por um colega.”

“Eu perguntei para ele se ele tinha comprado por alguma razão especial ou não. Ele disse que não e eu estava comprando vários produtos dessa empresa. Foi interessante porque eu comprei também para fazer um projeto futuro. Eu comecei a trabalhar com ela e me apaixonei rápido”.

Conselho para meninas que querem entrar na ciência

Por fim, Tatiana deu conselho para as meninas que querem entrar no mundo da ciência. “Venham, venham! Que é uma profissão boa. Trabalha bastante, mas tem bastante liberdade também para fazer coisas diferentes. É um trabalho com pouca rotina, meio aventureiro”.

Ela também fala da importância de ter mulheres na ciência. “Eu acho que as mulheres e os homens são diferentes, e são complementares, então, quando a gente tem mulheres e homens trabalhando juntos, o ambiente fica mais diverso, fica mais confortável, mais completo, mais humanizado. Eu acho que é muito bom que tenha mulheres trabalhando em todas as áreas”.

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