Reportagens
A história política de Goiás se confunde com a trajetória de partidos que, em diferentes momentos, exerceram protagonismo na condução do Estado e influenciaram o cenário nacional
Apesar de ainda não ser protagonista com números absolutos de produção, estado tem feito bonito na produtivo ao aliar conhecimento científico com técnicas certas de manejo
Ampliar o público, especialmente entre jovens e comunidades periféricas, exige combinar circulação com formação cultural. Carlos apontou que uma das possíveis soluções, são ações em escolas, oficinas, mediação e debates pós-espetáculo
Ferramenta GuaIA está sendo sondada por diversos tribunais regionais do país — além do próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
La vie en rose, com a cantora francesa Edith Piaf, transforma o silêncio em forma de resistência íntima. Louis Armstrong e Bola de Nieve a interpretação com brilho
“Nós avançamos no sentido de reconhecer, que as mulheres precisam de uma proteção jurídica maior porque são os corpos femininos que sofrem violência e são transformados em cadáveres”, alerta Bartira de Miranda
Base governista, PL, PSD, PT, Novo e Cidadania se movimentam em cenários distintos, mas interligados
O pesquisador finlandês, Juha Suoranta, encontrou as correspondências inéditas de Paulo Freire no arquivo do Concílio Mundial das Igrejas(CMI), local onde o pedagogo se hospedou na década de 70, após ser exilado pela Ditadura Militar
“Para este ano e o próximo, estamos planejando uma série de concertos com o propósito de tornar acessível à população o conteúdo desse livrão” diz o regente Marshal Gaioso
A história de um menino de seis anos expõe a urgência do diagnóstico precoce e o impacto do acesso gratuito ao tratamento oncológico infantil no sistema público de saúde
Contexto que emoldura o fenômeno é econômico, e as estatísticas federais servem de ponto de partida
Com as finanças sob controle ou em processo de reequilíbrio, as gestões municipais voltam o olhar para os próximos anos com foco em obras de infraestrutura, ampliação de serviços públicos e geração de emprego e renda
Somente em 2026 já são mais de 10 casos por dia
Entre os goianos, o principal destaque é Gustavo Gayer (PL), que aparece na 13ª posição nacional
Djalba Lima
O cara de pau é um personagem antigo. Mais antigo que a República, mais longevo que qualquer Constituição. Ele atravessa regimes como quem atravessa a rua fora da faixa com a convicção de que a buzina alheia é exagero, e a lei, um detalhe.
No Brasil, o cara de pau não se esconde. Ao contrário, desfila.
O termo, como se sabe, nasceu da ideia da máscara – aquela face de madeira usada em rituais antigos para permitir o que, fora do rito, seria inaceitável. A máscara suspendia a vergonha, libertava o gesto, anistiava o excesso. No Carnaval, essa suspensão virou regra: durante alguns dias, tudo podia. O problema começou quando alguns decidiram não tirar mais a máscara na Quarta-feira de Cinzas.
Desde então, o país convive com uma fauna peculiar de personagens que agem como se a vida pública fosse um eterno bloco de rua.
Há, por exemplo, o Banqueiro Fantasma. Não aquele que aparece no noticiário sobre economia, ou que até aparece ensinando as pessoas a serem bem-sucedidas, mas que, de repente, passa a frequentar outras páginas – as de assuntos policiais ou judiciários. Antes, ele falava a língua da modernidade, da inovação e da eficiência. Mas seu rastro é feito de dívidas, ruínas silenciosas e vítimas invisíveis – sobretudo aquelas que confiaram economias de uma vida inteira à sua retórica elegante. Quando confrontado, não se explica: sorri. O sorriso é parte da máscara. Madeira bem polida.
Existe também o Magistrado do Espelho Fosco. Figura solene, vestida de neutralidade, capa preta, adepta do discurso da técnica e da institucionalidade. Seu problema não é o erro – é a convivência promíscua com aquilo a que deveria manter distância. Ele não vê conflito; vê coincidência. Não enxerga promiscuidade; chama de acaso. E, quando o reflexo ameaça ficar nítido demais, afasta-se do espelho dizendo tratar-se de zelo republicano. O gesto é correto. O contexto, constrangedor. Mas constrangimento, para o cara de pau, é artigo em falta.
E há ainda o Herdeiro do Estado, talvez o mais curioso dos espécimes. Ele discursa contra a dependência do poder público, exalta o mérito individual, critica o peso da máquina estatal. Faz isso, curiosamente, de dentro da própria máquina, sustentado por ela, cercado por parentes que também vivem – todos – do mesmo cofre que juram querer fechar. É o liberalismo financiado a contracheque. Um samba-enredo em que o refrão diz “menos Estado”, enquanto o carro alegórico passa inteiro pago pelo Estado.
Nenhum deles se percebe como caricatura. Esse é o ponto central. O cara de pau não se vê como vilão. Ele se vê como esperto. A ética, para ele, é um acessório opcional; a coerência, um luxo dispensável. Seu talento maior é transformar contradição em normalidade – e normalidade em virtude.
Por isso, talvez, o Brasil tenha produzido uma de suas mais sinceras análises políticas em forma de marchinha:
“Me dá um dinheiro aí.”¹ – Marchinha composta por Homero, Glauco e Ivan Ferreira.
Não há metáfora mais honesta. Não há programa mais explícito. O cara de pau não pede desculpas, pede verba. Não se justifica, solicita transferência de dinheiro. Não cora: cobra.
E o faz com naturalidade desconcertante, como quem acredita – talvez com razão – que o público já se acostumou. A repetição anestesia. O absurdo, quando diário, vira paisagem. A máscara cola no rosto. “Todos os políticos são assim”, dizem com naturalidade desconcertante aqueles que juram defender uma mudança apocalíptica dos costumes, mas não de seus ídolos.
Toda época estranha gera seus mitos. A nossa parece ter optado por um só: o da desfaçatez como método. Não se trata mais de desvio ocasional, mas de estilo. Não é exceção: é performance.
O problema não é que existam caras de pau. Eles sempre existiram. O verdadeiro sinal de anomalia histórica é quando eles deixam de causar espanto – e passam a causar tédio. Ou normalidade.
Quando isso acontece, o Carnaval não termina. Ele apenas muda de endereço: sai da avenida e entra nas instituições.
E a máscara de madeira, enfim, vira rosto – o rosto medonho da mentira.
Djalba Lima, jornalista, é editor de Relatos – A Estação da História. É colaborador do Jornal Opção.
Nota: ouça a música
¹ Ouça a música “Me dá um dinheiro aí” (https://www.youtube.com/watch?v=dPtz9WL6XNs).

