Enquanto diversos indicadores de criminalidade apresentaram queda no Brasil em 2025, os casos de feminicídio seguiram em sentido oposto. O país registrou ao menos 1.470 assassinatos de mulheres motivados por razões de gênero ao longo do ano, o maior número dos últimos dez anos. A média é de quatro mortes por dia. O total ainda pode aumentar com a consolidação de dados de estados que não haviam finalizado seus levantamentos até dezembro, como Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo.

O cenário reforça a gravidade da violência contra a mulher no país. Mesmo com legislações específicas, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, o crime continua sendo um dos principais desafios da segurança pública e das políticas de direitos humanos.

Goiás segue tendência nacional e registra alta

Em Goiás, a situação reflete o panorama nacional. Apesar da redução da maioria dos indicadores de criminalidade, o feminicídio apresentou crescimento. Em 2025, o estado registrou 59 casos, contra 56 no ano anterior, o que representa um aumento de 6%. Na comparação com 2018, quando foram contabilizados 36 crimes, a alta chega a quase 64%.

Análises na área de segurança pública indicam que o crescimento dos feminicídios evidencia limites das políticas tradicionais de combate à criminalidade, geralmente voltadas à redução de roubos e homicídios em geral, mas pouco eficazes para enfrentar a violência de gênero.

Crime com dinâmica própria

O feminicídio possui características específicas e exige estratégias distintas das utilizadas em outros tipos de crime. Trata-se, em grande parte, de uma violência contínua, que ocorre dentro de relações íntimas e familiares, e que nem sempre é identificada ou interrompida a tempo pelas instituições do Estado.

Estudos apontam que a ausência de ações preventivas, a dificuldade de acesso a medidas protetivas e a falha no acompanhamento de denúncias contribuem para a escalada do problema, sobretudo em contextos domésticos e rurais.

Ambiente doméstico concentra a violência

Diferentemente de crimes patrimoniais, a maior parte dos casos de feminicídio ocorre dentro de casa. O ambiente doméstico segue sendo o local de maior risco para mulheres e meninas, onde os agressores, na maioria das vezes, são parceiros, ex-parceiros ou familiares próximos.

Dados nacionais indicam que cerca de 94% dos crimes sexuais são cometidos por pessoas do convívio direto da vítima, o que dificulta denúncias e amplia a vulnerabilidade, especialmente em situações de dependência emocional ou financeira.

Falta de transparência e de prioridade

Até 30 de novembro de 2025, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registrou mais de 600 processos relacionados a feminicídio em tramitação no país. A diferença entre esse número e os dados divulgados por secretarias estaduais de segurança pública é atribuída às metodologias distintas utilizadas, já que uma base considera boletins de ocorrência e a outra processos judiciais.

Especialistas avaliam que a baixa visibilidade do feminicídio nos balanços oficiais é um fator preocupante e pode indicar falta de prioridade no enfrentamento do crime. A segurança pública no Brasil, segundo essa análise, ainda é tratada como política de governo, sujeita a descontinuidade, e não como política de Estado.

Desafio além da repressão policial

O enfrentamento ao feminicídio exige ações que vão além da repressão. Medidas como prevenção, educação, fortalecimento das redes de proteção, ampliação de delegacias especializadas, cumprimento efetivo de medidas protetivas e atendimento psicológico às vítimas são consideradas fundamentais para reduzir os índices.

Enquanto os números seguem em alta, o feminicídio permanece como um problema estrutural, que transforma estatísticas em vidas interrompidas. O desafio, apontam especialistas, é construir respostas contínuas e integradas para impedir que a violência de gênero continue avançando no país.