Pesquisas de intenção de voto, se são retratos de circunstâncias, nem sempre revelam a realidade final — a das urnas. O que é natural. Porque as campanhas — o debate — podem mudar o quadro político-eleitoral.

Por isso, quem avaliar que a polarização atual entre o presidente Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL, é definitiva pode acabar dando com os burros n’água.

Analistas parecem não perceber — por certo por pensarem que Flávio Bolsonaro, está inteiramente consolidado como “o” principal (ou único) adversário do PT —, mas a turma de Lula da Silva, tão sagaz quanto o presidente, prefere enfrentá-lo. Por quê?

Por vários motivos. Primeiro, Flávio Bolsonaro não tem nenhuma experiência administrativa. Não tem o que mostrar aos brasileiros (frise-se: a maioria não é bolsonarista e não se interesse pelo debate ideológico — só quer melhorar de vida).

Qual é o principal projeto de Flávio Bolsonaro? Ninguém, talvez nem ele, sabe inteiramente. Há quem postule que é anistiar o pai e os generais Augusto Heleno, Walter Braga Neto, o brigadeiro Almir Garnier, entre outros.

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Flávio Bolsonaro: o senador parece não ter um projeto para o país | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Segundo, embora jovem, Flávio Bolsonaro já tem uma história pessoal nebulosa. Não se deve tratá-lo como “mafioso” só porque costura alianças ao estilo da máfia. Mas há negócios inexplicáveis na sua trajetória. A compra de uma mansão no Lago Sul, em Brasília (o BRB, o do governador Ibaneis Rocha e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, emprestou 3,1 milhões de reais ao senador), e de outros imóveis até agora não mereceu uma explicação convincente. Fica-se com a impressão de que se trata de um “Vorcarinho”.

A amizade de Flávio Bolsonaro com Adriano da Nóbrega — o miliciano que se dizia bicheiro — e Fabrício Queiroz, o da rachadinha, também não tem explicação plausível.

A loja de chocolate no Rio de Janeiro, que era quase tão “lucrativa” quanto o Banco Master, é outro dos mistérios que cerca a vida do “empresário” Flávio Bolsonaro. Há quem postule que  era uma lavanderia de dinheiro não, por assim dizer, “ortodoxo”.

Circula em Brasília, entre o Palácio do Planalto e o Congresso, a informação, se informação é, que duas “bombas” — tão explosivas quanto as que estão sendo jogadas no Irã, guardadas as proporções, é claro — podem implodir a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Terceiro, se busca apoio em Minas Gerais, Estado com o segundo maior eleitorado do país, Flávio Bolsonaro praticamente ignora o Nordeste, que pode ser, como foi em 2022, o diferencial pró-PT.

Em suma, é isto: o PT prefere enfrentar Flávio Bolsonaro, de preferência isoladamente, porque acredita que poderá derrotá-lo no primeiro turno.

Marcola, do PCC: espécie de primeiro-ministro informal do país | Foto: Reprodução

Em 2022, vale lembrar, Lula da Silva, na oposição, quase venceu Jair Bolsonaro no primeiro turno. O petista-chefe obteve 48,43% e Jair Bolsonaro conquistou 43,20% dos votos. Lembrando que o postulante do PL era presidente da República e, por isso, tinha poder e dinheiro sobrando.

Apesar do desgaste, que é grande, Lula da Silva agora está no poder. E o poder faz uma diferença imensa em eleições majoritárias. As dádivas estão nas suas mãos, não nas de Flávio Bolsonaro.

O que se está dizendo é que Lula da Silva vai ganhar? Não. O que se está sublinhando é que, se fora do poder, é um perigo, no poder é ainda mais perigoso. O petista é meio fênix e enfrentar um peso-leve, como Flávio Bolsonaro, talvez seja tudo o que queira. Afinal, o senador, embora jovem, é um político, digamos assim, de “grandes defeitos”. Aos 44 anos, é dono de uma fortuna considerável. Explicável? Talvez sim. Talvez não. Sobretudo, assunto para discussão e críticas.

Primeiro Comando do País e narcoestado

Se quer enfrentar Flávio Bolsonaro, que pode se desidratar durante a campanha, Lula da Silva talvez não queira digladiar eleitoralmente com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do PSD. Sobretudo, ambos têm a mesma estatura política e história pessoal de ampla magnitude. Não são principiantes. Não são amadores. São altamente profissionais e experts em debater as coisas do país.

Na questão da segurança pública, Lula da Silva não tem como debater de igual para igual com Ronaldo Caiado.

No Brasil de Lula da Silva, prevalece o crime organizado. Em vários Estados, com predominância em São Paulo e no Rio de Janeiro, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho se tornaram tão poderosos que são vistos por pesquisadores como representantes de um Estado paralelo ao oficial. Matam e traficam drogas quando querem e estão criando negócios “legais” (emulando a máfia italiana). O PCC já começa a ser chamado de Primeiro Comando da Capital e até de Primeiro Comando do País. O promotor de justiça Lincoln Gakiya teme que o Brasil se torne um narcoestado.

Já em Goiás, Estado governado por Ronaldo Caiado, o crime organizado não viceja. Sim, há integrantes do PCC e do CV agindo em algumas cidades, mas sem nenhuma dominância. Pelo contrário, o crime organizado, combatido de maneira tenaz pela Polícia Militar, prefere não atuar de maneira enfática no Estado.

O que a gestão de Ronaldo Caiado mostra é que o crime organizado pode ser contido antes de se votar e aprovar leis específicas para tentar reprimi-lo de maneira enérgica.

Por isso, se “deixarem” Ronaldo Caiado ser candidato, o Brasil vai ficar sabendo que é possível combater o crime organizado. Não à toa Flávio Bolsonaro tem dito que, se eleito, deve convidar Ronaldo Caiado para o Ministério da Segurança. Ou seja, desde já, o pré-candidato do PL tenta aumentar sua credibilidade a partir de um político-gestor que fez-faz, e não de maneira retórica.

Ronaldo Caiado é um político da direita liberal, não se vincula à extrema direita, a que apoia Flávio Bolsonaro.

Mesmo sendo liberal, Ronaldo Caiado criou um Estado do bem-estar social em Goiás que a imprensa nacional ainda não descobriu. Mas o PT já o copiou. O programa Pé-de-Meia é inspirado num programa goiano. O Ministério da Educação, sob a batuta de Camilo Santana, enviou emissários para estudá-lo e, percebendo seu sucesso, decidiu implantá-lo no país.

Mas há um diferencial nos programa sociais do governo de Goiás: não são meramente assistenciais — são inclusivos. Seu objetivo não é criar dependência, e sim autonomia. Porque se percebe o indivíduo como cidadão.

As universidades públicas de Goiás, como UFG e UEG — as melhores do Estado —, hoje acolhem centenas de alunos originários das escolas públicas. Porque o ensino melhorou e a evasão diminuiu. Não há programa social mais amplo e inclusivo do que uma educação pública de qualidade. Não à toa Goiás aparece muito bem nos dados do Ideb (que é federal, e não estadual).

Lula da Silva e Flávio Bolsonaro enfrentarão outra questão crucial: no campo da probidade, pessoal e pública, não têm como desafiar Ronaldo Caiado. O PT, mestre em criar e divulgar dossiês, terá dificuldade para formatar um sobre Ronaldo Caiado. Porque não há nada de grave que o desabone. Terão, por certo, de inventar.

Contas públicas organizadas pode ser outro fato de apoio a Ronaldo Caiado. O mercado deveria examinar as contas de Goiás.

Então, se “deixarem” Ronaldo Caiado ser candidato, pode ser que o goiano rompa a polarização e vá para o segundo turno contra… Lula da Silva.

O diferencial, no pleito deste ano, pode ser “o” candidato. Aquele que tiver uma imagem pública e privada limpa e o discurso adequado sobre segurança pode se tornar o próximo presidente da República.

O petista-chefe é político de arrancada e chegada. Flávio Bolsonaro talvez seja bom de arrancada, mas quem sabe não de chegada. Ronaldo Caiado foi eleito governador duas vezes — todas no primeiro turno. (E.F.B.)