E se eleitores estiverem “apoiando” o Ratinho da TV e não o Ratinho da política? E aí, Kassab?
14 março 2026 às 21h00

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Espécie de “José de Paris” da política de São Paulo e, até, do país, Gilberto Kassab — que, claro, não é nenhum Tancredo Neves (hoje a política está mais para Dunga do que para Pelé) — costuma “vazar” informações para a imprensa (políticos fazem isto com frequência, o que não é um problema). Pede “off” da fonte, mas não da informação.
É o que teria ocorrido, recentemente, com uma fala de Gilberto Kassab para o jornalista Merval Pereira (curiosamente, aos 76 anos, é do mesmo ano, 1949, em que nasceram Maguito Vilela e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado), de “O Globo” e GloboNews.
O “off” virou “on”. Quer dizer, o primeiro-ministro da gestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — um opera a política e o outro a gestão —, “vazou” a informação de que o PSD vai bancar Ratinho Júnior para presidente da República — e não Ronaldo Caiado e Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul).

O “vazamento” interessado de Gilberto Kassab foi, claro, de uma deselegância de Rambo (nome, por sinal, inspirado em Rimbaud, em sua pronúncia — “Rambô”). A política é “amiga” da falta de cortesia. “José de Paris”, paulista de 65 anos e corretor de imóveis (além de economista e engenheiro), não pensou em Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.
Gilberto Kassab pensou, isto sim, em negociar, em termos políticos (não se está falando de mutretas). Ratinho Júnior vai mesmo ser candidato a presidente? Talvez sim. Talvez não. “José de Paris” pode negociar em dois campos — e talvez já esteja negociando (é sua suprema arte).
Primeiro, pode, adiante, retirar Ratinho Júnior, um sujeito afável e subordinado ao pai — Ratinho Sênior —, e apoiar o pré-candidato do PL a presidente da República, Flávio Bolsonaro. Tanto pode indicar o governador do Paraná para vice quando pode negociar ministérios (o da Fazenda, a Casa Civil e a Saúde, por exemplo).

Segundo, “José de Paris” — discípulo de Richelieu — pode estar pensando, desde já, na possibilidade de segundo turno. Como se sabe, Gilberto Kassab — que talvez possa ser identificado como a-ideológico — pode negociar, no segundo turno, tanto com Lula da Silva quanto com Flávio Bolsonaro.
Aí, se o jogo for este, Gilberto Kassab vai “entregar” o PSD para quem oferecer mais espaços no governo. Negócios, enfim.
Para o jogo de Gilberto Kassab, que é tanto político quanto “comercial” (e não se está falando em corrupção), a docilidade de Ratinho Júnior ajuda. Se retirado do páreo, não criará caso (e seu candidato a governador no Paraná, que vai mal, atrás de Sergio Fernando Moro, pode ganhar o apoio do bolsonarismo). Mas como retirar da disputa um político com a história de Ronaldo Caiado? Muito difícil. O goiano também não é afeito às “negociatas”.

Eduardo Leite, embora não seja tão sólido quanto Ronaldo Caiado, distingue-se de Ratinho Júnior — cujas decisões são tomadas, em larga medida, por Ratinho Sênior, um homem de televisão e, sobretudo, do mundo dos negócios. O gaúcho de Pelotas, é, aos 41 anos, um político posicionado.
Qual é o “problema” de Ronaldo Caiado e Eduardo Leite? A rigor, não há um “problema”. Mas ser melhor do que Ratinho Júnior talvez seja uma não-virtude.
Há uma cousa que Gilberto Kassab talvez não esteja percebendo, ao menos não com a devida atenção: e se, no momento, os eleitores estiverem confundindo Ratinho Júnior, o da política, com Ratinho Sênior, o da televisão?
Ao ver Ratinho Júnior, e não Ratinho Sênior, eleitores poderão ignorá-lo. Porque, a rigor, não tem nenhuma estatura nacional. Aos 44 anos, Carlos Roberto Massa Júnior é um político do Paraná. Ainda não é um político nacional.
Ademais, digamos que seja eleito. Ao fazer um discurso, em alguma instituição internacional, dirão: “Agora vai falar o presidente do Brasil, Ratinho Little”. A gargalhada vai ser geral. Uma pena… não para os Ratinhos e Gilberto “José de Paris” Kassab, e sim para o Brasil. (E.F.B.)
Nota sobre o eminência parda José de Paris
O padre José de Paris, conselheiro de Richelieu, ficou mais conhecido pelo livro “Eminência Parda”, de Aldous Huxley. É uma biografia do articulador-mor da França.

