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O ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik Ilves, que governou o país por uma década, participou de um evento em Goiânia e comentou o processo que levou o país báltico a se tornar uma das referências globais em digitalização do Estado. Hendrik concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Opção após a palestra no Convergência 2026.
Ex-integrante da esfera soviética até recuperar a independência no início dos anos 1990, a Estônia promoveu nas últimas três décadas uma transformação profunda em sua administração pública. Hoje, praticamente todos os serviços governamentais estão disponíveis em meio digital.
Segundo Ilves, a origem desse processo remonta a uma decisão estratégica tomada ainda no início dos anos 1990: introduzir ensino de computação e programação desde a escola básica.
De acordo com o ex-presidente, a lógica era simples: formar gerações que crescessem familiarizadas com tecnologia. “Quando você ensina programação para crianças, você cria adultos que sabem lidar com sistemas digitais”, afirmou.
Os resultados dessa política pública aparecem em diferentes indicadores econômicos. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país, que no início da década de 1990 era de pouco mais de 2,8 mil dólares, atualmente supera os 34 mil dólares — chegando a cerca de 37 mil dólares, dependendo da metodologia de cálculo utilizada.
Com população aproximada de 1,8 milhão de habitantes, a Estônia consolidou um ecossistema tecnológico relevante e abriga ao menos dez empresas avaliadas em mais de um bilhão de dólares. Entre as mais conhecidas internacionalmente está a empresa de comunicação digital Skype.
Ilves destacou que um dos fatores determinantes para o sucesso do processo foi a coordenação política no mais alto nível do governo. Segundo ele, reformas digitais costumam fracassar quando ficam restritas a ministérios específicos.
“O ministro da Agricultura pode simplesmente ignorar a digitalização se não houver alguém acima dele cobrando resultados”, explicou. Para o ex-presidente, a transformação digital exige liderança institucional capaz de integrar diferentes áreas da administração pública.
Inovação administrativa e inteligência artificial
Em entrevista ao Jornal Opção, Ilves também discutiu o avanço recente no uso de inteligência artificial na gestão pública. Um dos exemplos citados foi apresentado no artigo “The Agentic State: Rethinking Government for the Era of Agentic AI”, que contou com contribuições do secretário-geral de Governo de Goiás, Adriano da Rocha Lima, e de Luukas Ilves, filho do ex-presidente estoniano.
O estudo analisa a aplicação de agentes de inteligência artificial em processos administrativos de bastidores — o chamado “backend” do setor público.
Um dos casos descritos envolve a análise de projetos inovadores submetidos a programas de financiamento público. Antes da implementação do sistema automatizado, o processo levava cerca de um ano para ser concluído.
Com o uso de agentes de inteligência artificial, o prazo médio caiu para aproximadamente uma semana. Além da redução de tempo, a automação substituiu uma etapa operacional que antes demandava o trabalho de 33 servidores públicos.
O artigo foi apresentado durante o Tallinn Digital Summit, realizado em outubro de 2025 na capital estoniana.
De acordo com os autores, a proposta não é substituir o trabalho humano, mas reorganizar a administração pública para que servidores possam concentrar esforços em tarefas estratégicas, enquanto sistemas automatizados lidam com etapas burocráticas e repetitivas.
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