Quem teme o desejo feminino?
06 março 2026 às 08h00

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Cilene Resende
Há um desconforto persistente quando uma mulher escreve sobre desejo. Ele nasce do deslocamento de papéis estabelecidos historicamente, pois, durante séculos, o desejo feminino foi narrado, interpretado e delimitado por vozes masculinas.
O primeiro ponto de tensão é o direito à subjetividade. A sociedade aceita posicionar, com relativa facilidade, a mulher como objeto do desejo, mas ainda reage quando ela se coloca como sujeito desejante. Existe uma expectativa implícita de que a sexualidade feminina seja silenciosa, privada e, preferencialmente, mediada pelo olhar masculino. Ocorre que, ao escrever sobre o próprio prazer, a mulher rompe essa mediação, determinando autoridade própria para sentir e para narrar o que sente.
Esse movimento costuma gerar dois tipos de reação reveladores. De um lado, surge o julgamento moral, frequentemente vindo de outras mulheres socializadas dentro da mesma lógica de contenção, onde a escrita erótica feminina é confundida com exposição, vulgaridade ou busca por atenção. Resulta num texto que deixa de ser lido como obra e passa a ser interpretado como confissão, ou seja, a autora deixa de ser autora e passa a ser personagem.
Do outro lado, aparece a erotização imediata da própria escritora. Parte dos homens interpreta a escrita sobre desejo como um convite pessoal. Nesse contexto, o texto deixa de ser literatura e passa a ser lido como sinalização de acesso. Esse fenômeno revela uma dificuldade estrutural onde ainda se confunde a expressão com o expressado.
Há também uma dimensão profissional nesse incômodo. Mulheres que escrevem sobre desejo relatam tentativas de assédio travestidas de oportunidades. A abertura de portas por curadores de eventos pode vir acompanhada de insinuações e expectativas implícitas. A lógica dos antigos “testes de sofá” apenas mudou de cenário e vocabulário. O campo cultural, que deveria ser espaço de liberdade, também reproduz hierarquias antigas.
A escrita sensual e erótica é uma ameaça ao controle narrativo do corpo feminino, pois, quando uma mulher descreve o que é o prazer, ela estabelece uma nova estética do desejo. Isso desafia os padrões históricos que limitaram a sexualidade feminina à função reprodutiva, romântica ou moral. Quando o prazer feminino deixa de ser implícito e passa a ser nomeado, ele se torna politicamente perturbador.
Escrever sobre desejo, portanto, é também um gesto de autonomia. O incômodo persiste porque a autonomia feminina ainda é negociada socialmente. Cada poema, conto ou ensaio que afirma o direito de sentir e de narrar amplia um território que por muito tempo foi interditado.
Mulheres desejam, pensam, fantasiam, escolhem e nomeiam. E, quando essa realidade passa a ser escrita, publicada e lida, ela deixa de ser pensamento e passa a ser voz. O que ainda incomoda é a percepção de que o incômodo diz menos sobre a mulher que escreve e mais sobre a sociedade que ainda não aprendeu a lê-la.
Cilene Resende é advogada, empresária e escritora, autora de O mar é uma pista de dança.

