Desde o primeiro episódio, Poderosas do Cerrado se apresenta como uma vitrine de mulheres fortes, bem-sucedidas e donas do próprio destino. A promessa é clara: empreendedorismo feminino, liderança, autonomia. O que a tela revela, no entanto, é outra história. A síntese que atravessa toda a série é incômoda e inevitável. Como elas mesmas dizem: “poderosas, mas não empoderadas”. Há dinheiro, status e visibilidade; falta autonomia emocional, consciência de privilégio e construção coletiva.

O problema central do programa está na sua escolha editorial. Ele fala de trabalho, mas mostra comportamento. Diz mérito, mas exibe privilégio. Vende força feminina, mas expõe fragilidade emocional. Ao invés de acompanhar processos, decisões, riscos e falhas — o coração de qualquer narrativa empreendedora — o reality prefere o atalho do conflito social, da rivalidade e da performance de poder.

A ausência de personalidade própria é mais evidente na trajetória de Andrea. Sua narrativa não se sustenta em ideias, decisões ou projetos, mas em relações. Tudo gira em torno do ex, do atual, do ciúme, do controle e das interrupções constantes do marido. O resultado é devastador para a tese do programa: uma mulher apresentada como “poderosa” aparece tutelada, reativa e deslocada do centro da própria história. Sem soberania emocional, não há liderança possível. Poder que depende da permissão do outro não é poder — é concessão.

Em contraste, Tana e Cristal são as únicas participantes em que o trabalho aparece minimamente em cena. Ainda que de forma editada, conflituosa e incompleta, há agenda, cliente, pressão, decisão e desgaste. Isso não as isenta de críticas — o embate entre as duas revela uma sociedade sem pacto emocional claro —, mas as diferencia do restante do elenco. O efeito colateral é perverso: ao tratar todas como igualmente “poderosas”, o programa dilui o valor de quem efetivamente empreende, transformando esforço em pose e processo em figurino.

Roseli, por sua vez, encarna uma das contradições mais reveladoras do reality. Proprietária de um patrimônio rural gigantesco, ela insiste em um discurso de humildade performada. O “sou simples”, repetido entre fazendas, rebanhos e roupas caras, não descreve uma condição — descreve uma estética. Sempre que confrontada, seja por moda ou crítica, a reação é a vitimização: o “caipira perseguido” vira escudo moral. Não se trata de autenticidade, mas de controle simbólico. A humildade aqui não é vivida; é encenada para gerar admiração e blindar o poder.

Thaily surge como a figura da autoridade. Ela não só trata o marido como funcionário, como bem avaliou Tana, mas vive como se todos estivessem a lhe servir. Linguagem dura, postura hierárquica, distância afetiva. O problema não é mandar; é mandar sem mostrar processo. O reality constrói uma CEO sem bastidores: não vemos decisão difícil, negociação tensa ou risco assumido. Vemos apenas comando. Autoridade sem empatia vira autoritarismo, e mesquinhagem. Uma das muitas reclamações de Thaily durante o programa é que “as pessoas são incompletas”, como se ela mesma tivesse algo além de dinheiro.

A entrada tardia de Layla Monteiro escancara o atraso do grupo. Influencer, habituada à lógica digital, ela oferece um workshop de redes sociais que é recebido com resistência e ironia. O incômodo não é técnico; é simbólico. Layla domina a linguagem que as outras apenas performam. Sua presença expõe o conflito entre quem entende de alcance, estratégia e algoritmo e quem prefere manter hierarquias intactas. A rejeição ao aprendizado revela vaidade e medo de perder status.

O fio que costura todas essas trajetórias é a rivalidade feminina. As participantes competem por atenção, invalidam o trabalho umas das outras e raramente se ajudam. Não há mentoria, não há rede, não há crescimento coletivo. A cena da personal stylist — tratada com desconfiança e desprezo — sintetiza essa lógica: consumo sem respeito, luxo sem refinamento, poder sem generosidade. Empoderamento pressupõe cooperação; aqui, ele nunca acontece.

Ao final, Poderosas do Cerrado funciona menos como celebração e mais como radiografia. Revela mulheres no topo presas a estruturas antigas: patriarcais, competitivas, hierárquicas e inseguras. O programa não fracassa como entretenimento; fracassa como tese. Ele prova que acesso não é empoderamento, que status não é autonomia e que poder individual, sem consciência e sem rede, é frágil.

Talvez o erro de Poderosas do Cerrado esteja no nome. O que se vê não são mulheres empoderadas, mas figuras poderosas presas a validações externas, rivalidades internas e privilégios não questionados.