Intervenção dos EUA na Venezuela sob três níveis de análise
07 janeiro 2026 às 09h33

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Diego Trindade d’Ávila Magalhães
Este artigo ressalta os perigos da recente intervenção dos EUA na Venezuela. No nível de análise nacional, o ataque militar estadunidense deveria ter sido apreciado pelo Congresso do país, e não foi. O perigo é o estímulo ao governo autocrático de Trump sem o devido controle dos poderes Legislativo e Judiciário. E a inação da oposição política sem precedentes na história recente reforça o processo de corrosão da democracia dos EUA.
Em nível regional, a intervenção não é novidade, ainda mais em se tratando da Venezuela, que fora alvo de tentativa de golpe apoiada pelos EUA em 2002. O perigo é a perspectiva de instabilidade ainda maior na América do Sul, o que tende a favorecer o fortalecimento de guerrilhas e o próprio narcotráfico que os EUA alegam querer combater. Perigo ainda maior é o reforço da militarização de temas econômicos – incluindo o comércio de recursos estratégicos (ex. petróleo e minérios). Nesse sentido, os EUA explicitamente definem o hemisfério como a sua zona de influência e, implicitamente, defendem relações econômicas mais próximas do tipo “exclusivo colonial” do que do livre comércio.
Em nível global, correm sério risco a Organização das Nações Unidas e o Direito Internacional, que resultaram de esforços para construir uma ordem internacional baseada em normas diplomaticamente estabelecidas por estados soberanos. Crimes como a invasão da Ucrânia pela Rússia, o genocídio de Israel contra o povo palestino, a intervenção dos EUA na Venezuela e a ameaça dos EUA à Colômbia permanecerão impunes. As convenções diplomáticas mais básicas têm sido pisoteadas, o que sinaliza um retrocesso rumo a algo anterior às Guerras Napoleônicas.
O perigo é a política da força, que define zonas de influência, bem como protetorados e outros eufemismos para colônia. Nesse contexto, os países mais pobres perderão mais. O desenvolvimento sustentável e tudo que afeta a qualidade de vida dos povos viram secundários, pois as prioridades (e orçamentos) nacionais vão para as forças armadas. A Europa, onde está a maioria dos países desenvolvidos, é pressionada pelos EUA nesse sentido. Aumentam a pressão para que cada país se alinhe a uma grande potência e a própria competição entre grandes potências.
As grandes guerras do século XX mostraram as consequências da desordem global. Delineia-se, contudo, um cenário de uma terceira grande guerra e de ameaça à vida humana no planeta. Evitar tal cenário requer microfones, holofotes e palanques para quem ainda defende a diplomacia, cooperação e instituições internacionais.
Diego Trindade d’Ávila Magalhães. Professor e Coordenador da Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS.

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