Esse artigo vai para todas as mulheres. Vai para você que, em algum momento da vida, percebeu que ser mulher também significa carregar expectativas que nunca foram criadas por você — expectativas sobre como falar, como agir, como se vestir, como viver e até sobre como existir.

Porque, no fundo, muitas mulheres aprendem cedo que existir em uma sociedade desigual também significa aprender a resistir a ela. Todos os anos, o Dia Internacional da Mulher chega acompanhado de flores, homenagens, mensagens nas redes sociais e discursos exaltando a chamada “força feminina”. Nada disso é necessariamente errado. Celebrar conquistas é importante.

O problema começa quando a celebração substitui a reflexão. O 8 de março não nasceu para ser confortável. Não nasceu para campanhas institucionais nem para frases motivacionais. Nasceu da indignação. Nasceu da luta de mulheres que enfrentaram jornadas desumanas de trabalho, salários menores, exclusão política e violência.

Celebrar essa data faz sentido. Esquecer o que ela representa, não. Há décadas, a filósofa Simone de Beauvoir escreveu algo que continua assustadoramente atual: “A mulher está votada à imoralidade porque a moral consiste, para ela, em encarnar uma entidade inumana: a mulher forte, a mãe admirável, a mulher de bem.”

A frase expõe um mecanismo social ainda muito presente: às mulheres são atribuídas expectativas tão perfeitas que se tornam impossíveis de cumprir. Espera-se força, mas não firmeza demais. Independência, mas sem confrontar estruturas. Sucesso, mas sempre acompanhado de docilidade.

Quando essas expectativas não são cumpridas, surgem os rótulos. Histérica. Difícil. Exagerada.

A filósofa brasileira Djamila Ribeiro traduz esse conflito com precisão: “Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la.”

Antes de disputar poder, muitas mulheres ainda precisam lutar pelo reconhecimento do mais básico: o direito de existir como sujeito. É por isso que contar histórias importa. A escritora Ryane Leão lembra: “Meu recado às mulheres: contem suas histórias. Descubram o poder de milhões de vozes que foram caladas por séculos.”

No estado de Goiás, as mulheres representam cerca de 3,59 milhões de pessoas, o que corresponde a 50,87% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. No Brasil, são aproximadamente 108,7 milhões de mulheres, cerca de 51,1% da população brasileira.

As mulheres são maioria. Mas essa maioria ainda não se traduz, na mesma proporção, em presença nos espaços de poder, nas estruturas de decisão ou nas lideranças políticas.

E existe uma realidade ainda mais dura que os números demográficos revelam: a violência.

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime, em 2015, mais de 13,7 mil mulheres foram assassinadas no país por razões de gênero.

Os dados revelam um padrão perturbador.

Na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Cerca de 59,4% das vítimas foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro. Em 97,3% dos casos, os crimes foram cometidos por homens. E 62% das vítimas são mulheres negras.

A violência contra a mulher raramente começa na rua. Ela começa dentro de casa.

Diante dessa realidade, muitas leis brasileiras surgiram não como gesto espontâneo do Estado, mas como resposta a tragédias. A Lei do Feminicídio reconheceu que matar uma mulher por razões de gênero não é apenas homicídio — é uma expressão de violência estrutural.

Mais recentemente, a Lei Mariana Ferrer foi criada após um caso que expôs ao país o constrangimento e a humilhação que vítimas de violência sexual ainda enfrentam dentro do próprio sistema de justiça. Foi preciso transformar dor em lei para tentar garantir o mínimo de respeito.

Por isso, o Dia da Mulher não pode ser apenas simbólico. Violência doméstica não é sazonal. Desigualdade salarial não é sazonal. Assédio não é sazonal.

Políticas públicas para mulheres também não podem ser. Talvez a cantora Elza Soares tenha resumido melhor do que ninguém o sentido dessa luta: “Precisamos ser criadas para a liberdade. O mundo é grande demais para não sermos quem a gente é.”

Celebrar o Dia da Mulher é importante. Mas lembrar que ele nasceu da luta e que essa luta ainda continua.

Porque enquanto existir uma mulher que precise lutar diariamente apenas para viver com dignidade, o 8 de março continuará sendo menos uma comemoração e mais um lembrete de que igualdade ainda não é realidade.

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