Djalba Lima

3 de fevereiro de 1962. Há 64 anos, o então presidente norte-americano John F. Kennedy (1917-1963) assinava a Ordem Executiva 3447, formalizando o bloqueio político e econômico a Cuba.

A medida vinha na esteira do anúncio de Fidel Castro (1926-2016) de que a Revolução Cubana assumira caráter marxista-leninista — e de que a ilha, a 150 km da Flórida, passaria a orbitar o campo socialista em plena Guerra Fria.

O cerco e suas origens

O bloqueio não surgiu do nada. Foi o ápice de uma escalada que incluíra a invasão da Baía dos Porcos (1961) — uma tentativa fracassada, apoiada pela CIA, de derrubar Castro — e que desembocaria, no ano seguinte, na Crise dos Mísseis (1962), quando Estados Unidos e União Soviética estiveram à beira de uma guerra nuclear. Naquele outubro, mísseis soviéticos em solo cubano tornaram concreta a possibilidade do apocalipse atômico. O mundo respirou aliviado quando Moscou e Washington recuaram. Mas o bloqueio permaneceu.

Bloqueio que atravessa gerações

Desde então, o embargo se transformou em política de Estado: atravessou governos democratas e republicanos, sobreviveu ao fim da União Soviética e foi sucessivamente endurecido, flexibilizado e novamente endurecido, conforme os ventos da política interna norte-americana. Mais do que sanção, tornou-se símbolo: de punição exemplar, de contenção ideológica e de demonstração de força.

Presente como espelho do passado

Hoje, sob o presidente Donald Trump, de 79 anos, o anúncio de restrições ao fornecimento de petróleo a Cuba representa, na prática, o recrudescimento do mesmo bloqueio iniciado em 1962.

A retórica mudou; o instrumento permanece. O alvo é o mesmo: asfixiar economicamente para forçar mudança política. A diferença é que o mundo já não vive a bipolaridade rígida da Guerra Fria – mas o método continua ancorado nela.

A lição incômoda

Sessenta e quatro anos depois, a pergunta persiste: o bloqueio mudou o regime cubano? Não. Atingiu a população? Profundamente. Serviu como advertência geopolítica? Sem dúvida.

A história de Cuba revela algo maior: sanções prolongadas raramente produzem democracia; com frequência produzem escassez, endurecimento interno e narrativas de resistência.

Em 1962, o mundo quase acabou em cogumelos nucleares. Em 2026, o risco já não é atômico — é a normalização do castigo permanente como política externa.

Sobre a imagem destacada

O presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy aparece sentado no Salão Oval da Casa Branca, em pleno exercício do poder, inclinado para a frente e apontando enquanto conversa com assessores fora do enquadramento. A mesa presidencial está coberta por telefones, documentos e objetos de trabalho dois sinais inequívocos de decisões em curso.

Sob a mesa, quase invisível à primeira vista, encontra-se seu filho pequeno, John F. Kennedy Jr., brincando alheio à gravidade do momento. O contraste entre a inocência da criança e o peso histórico das decisões tomadas naquele espaço confere à imagem uma força simbólica rara: o poder que molda o presente e determina o futuro, enquanto o futuro ainda não compreende o alcance dessas escolhas.

A fotografia sintetiza a tensão entre intimidade e autoridade, cotidiano e História — uma metáfora visual perfeita para decisões políticas cujos efeitos atravessam gerações.

Djalba Lima, jornalista e editor de Relatos — A Estação da História (https://tinyurl.com/msmmk462), é colaborador do Jornal Opção.