Até o luto lhe foi tirado: quando uma mãe precisa fugir do enterro dos próprios filhos
13 fevereiro 2026 às 20h20

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Por Jéssica Torres
Há algo de profundamente perturbador em uma mulher perder os dois filhos, mortos pelo próprio pai, e ainda precisar sair do cemitério antes do fim do enterro porque começou a ser ameaçada e insultada.
Não é só a tragédia. É o que se faz com ela depois. Thales Machado apontou uma arma, e quase no mesmo instante, surgiram dedos apontados em outra direção.
Sarah Tinoco perdeu os filhos. O autor foi o marido. Thales. Um homem adulto. Um agente público. Um pai. Um homem que tomou decisões sucessivas, pegou uma arma, atirou contra os próprios filhos e, depois, tirou a própria vida.
E, ainda assim, no cemitério, enquanto uma mãe tentava atravessar o momento mais brutal que alguém pode atravessar, houve quem perguntasse: “o que ela fez?”
Essa pergunta não nasce do nada. Ela carrega uma velha lógica social: quando um homem comete uma violência extrema, parte da sociedade corre para procurar a causa na mulher ao lado dele.
Uma carta publicada e depois retirada do ar mencionava crise conjugal e suposta traição. Bastou isso e o foco deixou de ser o ato consciente de um homem armado contra crianças indefesas e passou a ser o comportamento da esposa.
Como se existisse uma equação tácita: ela traiu; ele perdeu o controle; a tragédia aconteceu. Se toda mulher traída resolvesse reagir com violência contra o marido, o que restaria da sociedade?
Mas adultos não “perdem o controle” como se fossem vítimas do próprio impulso. Adultos respondem pelos próprios atos. Não há crise conjugal, frustração, orgulho ferido ou dor emocional que transforme o assassinato de filhos em reação compreensível.
O que aconteceu em Itumbiara não foi apenas um crime. Foi também um retrato de como ainda deslocamos responsabilidade. Em vez de manter o foco na autoria da violência, abre-se espaço para o julgamento da mulher. Questiona-se sua conduta, seu casamento, sua vida privada. Como se, de algum modo, isso explicasse o inexplicável.
No cemitério, o que deveria ser silêncio virou ruído. O que deveria ser abraço virou hostilidade. Uma mãe precisou sair antes do fim do enterro para se proteger de ataques verbais.
Nem o luto lhe foi permitido inteiro.
E talvez seja isso o mais cruel: a dor não foi suficiente. Foi preciso acrescentar julgamento. Foi preciso acrescentar a insinuação de que, em algum lugar, ela teria uma parcela de culpa.
Essa lógica é antiga e cruel. Se ele trai, ela não cuidou. Se ele bebe, ela provocou. Se ele agride, ela sabia com quem estava. Se ele mata, pergunta-se o que ela fez antes. Isso precisa acabar. Dor coletiva não pode virar tribunal improvisado. Não pode transformar uma mãe enlutada em alvo.
No fim da tarde desta sexta-feira, veio a confirmação que ninguém queria ouvir: Benício, de 8 anos, não resistiu. O menino que horas antes aparecia em um vídeo do pai morreu no hospital. Miguel, de 12, já havia sido sepultado. Agora são dois caixões. Dois.
A cidade volta a se comover. A dor se amplia. E, diante dessa confirmação devastadora, talvez seja o momento de uma reflexão mínima: se nem a morte de duas crianças foi suficiente para silenciar o julgamento contra a mãe, então o problema não está apenas nas redes sociais.
Está na cultura que ainda ensina que homens reagem e mulheres provocam. Que homens explodem e mulheres explicam. Que homens agem e mulheres justificam.
Quando uma mulher precisa fugir do próprio luto, há algo profundamente errado conosco. O mínimo, absolutamente o mínimo, é devolver a responsabilidade a quem agiu e oferecer silêncio e compaixão a quem sofre.
O mundo já desaba o suficiente quando um filho morre, não cabe à sociedade empurrar mais escombros sobre quem ficou.
Eu sou mãe, e talvez por isso essa história não me permita distância analítica. Porque toda mãe sabe: o medo maior não é falhar como esposa, como mulher, como cidadã. O medo maior é perder um filho. É sobreviver a ele.
Quando uma mãe precisa sair do cemitério antes do fim da despedida para se proteger de acusações, não é apenas ela que está sendo ferida. É a ideia básica de humanidade que falha. E sem dúvida: nós falhamos.
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