A Venezuela e a maldição do petróleo
17 janeiro 2026 às 21h00

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A crise da Venezuela costuma ser explicada como um embate político permanente. Essa leitura, embora frequente, ignora um elemento decisivo: o petróleo. O drama venezuelano é, antes de tudo, a expressão de um fenômeno econômico bem conhecido — a chamada maldição do petróleo, ou, em termos mais amplos, a maldição da abundância de recursos naturais.
Ao longo do século XX, a Venezuela construiu-se como um Estado rentista. O petróleo deixou de ser apenas um produto de exportação e passou a sustentar a arrecadação pública, o equilíbrio externo, as políticas sociais e a estabilidade cambial. O país funcionava enquanto conseguia transformar barris de petróleo em receita fiscal. Quando essa conversão se tornou difícil, o edifício começou a ruir.

O primeiro gráfico acima ilustra esse ponto de forma contundente: a queda acentuada da produção petrolífera venezuelana nas últimas décadas. Apesar de deter uma das maiores reservas do mundo, a Venezuela produz hoje muito menos do que no passado. Não por falta de petróleo no subsolo, mas por incapacidade econômica, tecnológica e financeira de produzi-lo em escala.
Grande parte do petróleo venezuelano é extra-pesado, concentrado na Faixa do Orinoco. Esse tipo de óleo exige tecnologia sofisticada, altos investimentos e custos crescentes. O segundo conjunto de gráficos mostra um fenômeno global: o petróleo barato e de fácil extração tornou-se cada vez mais raro. A indústria avança para águas profundas, campos complexos e projetos de alto risco. O custo marginal da energia aumenta — e países frágeis sofrem primeiro.

Apesar disso, o petróleo continua insubstituível em setores estratégicos. A aviação depende de querosene; o transporte pesado segue atrelado ao diesel; a petroquímica sustenta fertilizantes, plásticos, medicamentos e inúmeros produtos do cotidiano. A transição energética avança, mas não elimina, no curto e médio prazo, a centralidade do petróleo.
É nesse contexto que a Venezuela se insere em um padrão mais amplo, observado em vários países africanos ricos em petróleo.

Países como Nigéria, Angola, Guiné Equatorial e Congo acumulam grandes receitas petrolíferas e, paradoxalmente, exibem altos índices de pobreza, desigualdade e fragilidade institucional. Os gráficos revelam um padrão recorrente: crescimento da renda do petróleo acompanhado de concentração de riqueza e estagnação social.
Nesses países, o petróleo serviu para enriquecer elites, financiar clientelismo político e sustentar Estados pouco eficientes, enquanto a população permaneceu à margem do desenvolvimento. A abundância de recursos substituiu o esforço produtivo, enfraqueceu instituições e bloqueou a diversificação econômica. Eis a essência da maldição do petróleo.

A Venezuela seguiu trajetória semelhante. A dependência extrema da renda petrolífera criou a ilusão de riqueza permanente. Quando o petróleo deixou de sustentar o Estado — não por ausência física, mas por custo, complexidade e restrições financeiras — a crise tornou-se estrutural.
Mas a história do petróleo não é uma condenação inevitável. Há um contraponto exemplar.
A Noruega descobriu petróleo no Mar do Norte e fez a escolha oposta. Em vez de gastar a renda no presente, criou um fundo soberano para transformar receitas temporárias em desenvolvimento de longo prazo. Os gráficos mostram a trajetória do fundo norueguês, hoje um dos maiores do mundo, financiando educação, ciência, infraestrutura e bem-estar social.

Na Noruega, o petróleo não deformou o Estado. Fortaleceu instituições. O país compreendeu que recursos naturais são finitos e voláteis, e que sua verdadeira riqueza está em convertê-los em capital humano e estabilidade institucional.
O contraste é eloquente.
A Venezuela revela, de forma dramática, a face sombria da abundância sem planejamento. Países africanos ilustram o mesmo dilema. A Noruega demonstra que outro caminho é possível.

No fim, a lição que emerge é clara: o petróleo não é destino, é escolha. Sem instituições sólidas, visão de longo prazo e compromisso com o desenvolvimento humano, a riqueza natural deixa de ser bênção e transforma-se em maldição.
A dependência extrema do petróleo produziu, na Venezuela, um fenômeno clássico da economia política: a doença holandesa. O ingresso maciço de dólares valorizou artificialmente a moeda, encareceu a produção interna e tornou inviável a indústria nacional. Produzir bens tornou-se menos atraente do que importar. O Estado passou a distribuir renda em vez de estimular produtividade.

Os gráficos acima ajudam a compreender esse processo: à medida que o petróleo se tornava dominante, outros setores foram sendo asfixiados. Agricultura, indústria e serviços sofisticados perderam espaço. O país passou a importar alimentos básicos, apesar de possuir terras férteis e tradição agrícola. A economia tornou-se monotemática — e, portanto, vulnerável.
Quando o preço do petróleo cai ou quando o custo de produção sobe, o impacto é devastador. Não há amortecedores. Não há alternativas. O choque externo converte-se, quase automaticamente, em crise fiscal, inflação, desabastecimento e colapso social.

Esse padrão não é exclusivo da Venezuela. Ele se repete, com variações, em boa parte do mundo petrolífero em desenvolvimento.
Petróleo no continente africano
Em países como Angola, Nigéria, Guiné Equatorial e Congo, o petróleo funcionou como atalho para o poder, não como base para o desenvolvimento. A renda extraordinária concentrou-se em círculos restritos, enquanto a população permaneceu à margem dos serviços públicos essenciais. Estradas, escolas, hospitais e saneamento básico avançaram pouco, apesar de décadas de exportações bilionárias.

A lógica é conhecida: quando o Estado não precisa tributar seus cidadãos, não precisa prestar contas a eles. A relação entre governo e sociedade enfraquece. A política transforma-se em disputa pelo controle da renda petrolífera, não em projeto de nação. O petróleo, nesse contexto, corrói instituições.
A Venezuela seguiu esse roteiro com precisão quase didática. A renda do petróleo substituiu reformas, planejamento e diversificação. Criou-se a ilusão de que a riqueza era permanente. Quando a realidade se impôs, já não havia base produtiva capaz de sustentar o país.Mas a história do petróleo não é fatalista. Ela admite escolhas.

O exemplo da Noruega mostra que a abundância pode ser administrada com racionalidade. Ao descobrir petróleo no Mar do Norte, o país decidiu tratar essa riqueza como excepcional e temporária. Criou um fundo soberano, investiu no exterior, evitou a valorização excessiva da moeda e preservou sua base industrial.
Mais importante: manteve instituições sólidas, transparência e consenso político em torno de regras claras. O petróleo não substituiu o trabalho, a educação nem a inovação. Serviu como instrumento para fortalecê-los.

O contraste com a Venezuela — e com grande parte da África petrolífera — é eloquente.
A lição final é inequívoca: o petróleo não é um projeto de país. Ele pode financiar um projeto, mas jamais substituí-lo. Onde faltam instituições, planejamento e compromisso com o longo prazo, a riqueza natural transforma-se em armadilha. A Venezuela não é pobre porque lhe falta petróleo. É pobre porque confiou demais nele.
Salatiel Soares Correia, escritor, crítico literário e mestre em energia pela Unicamp, é colaborador do Jornal Opção.

