Desde o início da pandemia, em 2020, a criação de abelhas avança em Goiás a passos largos, consolidando o Estado — e o Cerrado goiano — como uma nova fronteira da apicultura e da meliponicultura. Segundo dados obtidos pela Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), Goiás concentra mais de 10 mil colmeias, distribuídas entre mais de 400 produtores cadastrados no Sistema de Defesa Agropecuária de Goiás (Sidago).

De acordo com a consultora Gabriella Sousa, o avanço ocorre por dois fatores principais: o aumento da capacitação e da profissionalização dos produtores, e a regularização da atividade junto aos órgãos públicos. “Antigamente, produtores que colhiam em torno de 11 ou 12 kg por caixa hoje produzem entre 30 e 35 kg — e alguns chegam a 40 kg aqui no nosso Estado. Os estudos na atividade, como cursos profissionalizantes, aumentaram muito, e isso está se refletindo nos resultados”, afirmou à reportagem.

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Colmeias de abelhas sem ferrão | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Ao mesmo tempo, ela destaca que a pandemia teve um efeito impulsionador no consumo de mel e de produtos à base do alimento, motivado pela busca por itens naturais que pudessem colaborar para o fortalecimento da imunidade. “Na pandemia tivemos um aumento no consumo de mel e de produtos voltados para a imunidade. Com isso, cresceu a atividade, pois muitas pessoas enxergaram a apicultura como uma forma de atender esse mercado.”

Relatos dos produtores

O cenário é confirmado pelo produtor rural Alexandre Januário, que trocou a criação de gado pela instalação de 80 colmeias de abelhas africanizadas em Bela Vista de Goiás, a cerca de 50 quilômetros da Capital. Já familiarizado com a atividade, Alexandre fez a mudança no início da pandemia como forma de expandir e qualificar sua produção. “Uma colmeia de abelha é muito mais produtiva do que um boi no pasto ou uma vaca de leite”, disse.

Para ele, o grande atrativo do setor é a possibilidade de diversificação e expansão da comercialização além do mel e da própolis, produtos tradicionalmente vendidos. Entre os exemplos estão cera, geleia real, cachaça com mel e óleo de copaíba com mel.

A produtora Neusa Bandeira, de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal, reforça o cenário. Ela encontrou no mel uma oportunidade de verticalizar sua produção ao investir em cosméticos. “Trabalhar com abelha é vida. Existe o ditado de que ‘sem abelha o mundo morre em pouco tempo’”, afirmou.

Neusa pondera, porém, que a atividade ainda é considerada novidade em Goiás, enquanto outras regiões, como o Nordeste, já estão consolidadas na área. Mesmo assim, avalia que a busca crescente por produtos veganos e naturais tem sido o principal motor da cadeia produtiva.

Extensão universitária

Entre os destaques do setor está o Encontro de Meliponicultores e Apicultores de Goiás (AMAPI), realizado na Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), entre 13 e 15 de novembro. O programa é coordenado pela técnica da UFG Gisana Cristina, que integra dois projetos de extensão da instituição voltados à atividade: o Meliponário Escola e o Apiagro.

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Espaço da Emapi | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Segundo Gisana, o encontro nasceu como um projeto para oferecer assistência técnica aos produtores, por meio de 24 especialistas da área, além de promover conscientização sobre apicultura e meliponicultura à população em geral. Ao todo, 66 alunos — incluindo futuros engenheiros agrônomos, florestais, veterinários e zootecnistas — atuaram na organização, que recebeu mais de 1.300 pessoas cadastradas.

Temos palestras dedicadas tanto para quem está iniciando quanto para quem já atua na área. Os temas vão desde iscas para abelhas sem ferrão — voltadas à meliponicultura — até a produção de rainhas, que envolve questões de fenótipo e genética”, explicou.

Além das palestras, o encontro conta com espaço dedicado para produtores, como Alexandre e Neusa, comercializarem os produtos feitos artesanalmente.

Entre as entidades parcerias que oferecem assistência técnica estão a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sutentável (Semad), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Goiás (Senar-GO), Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Agrodefesa e a Agência goianiense de Meio Ambiente (Amma).

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