Associação Batista recebe R$ 14,7 milhões e é a maior beneficiária de emendas parlamentares em Goiânia
17 janeiro 2026 às 21h00

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A Associação Comunidade Batista (ACB) está no centro do debate sobre a destinação de emendas parlamentares impositivas indicadas por vereadores de Goiânia. A entidade foi a que mais recebeu recursos desse tipo tanto em 2025 quanto na previsão orçamentária para 2026.
No ano passado, a ACB foi contemplada com R$ 14 milhões em emendas impositivas. Para 2026, o valor destinado à associação deverá chegar a R$ 14,7 milhões, conforme as projeções incluídas na Lei Orçamentária Anual (LOA).

Vereadores e a destinação das emendas
Neste ano, dez vereadores destinaram emendas parlamentares à ACB. A lista inclui Markim Goyá (PRD), Léia Klebia (Podemos), Ronilson Reis (Solidariedade), Sargento Novandir (MDB), Léo José (Solidariedade), Oséias Varão (PL), Luan Alves (MDB), Welton Lemos (Solidariedade), Lucas Vergílio (MDB) e Daniela da Gilka (PRTB).
A LOA 2026, enviada pelo Executivo municipal, estima receita e despesa totais de R$ 10,8 bilhões para o próximo exercício fiscal. Um dos pontos centrais do projeto é justamente a definição das emendas impositivas dos vereadores. Ao todo, cerca de R$ 185 milhões serão distribuídos entre os 37 parlamentares, o que garante aproximadamente R$ 5 milhões para cada vereador indicar prioridades no orçamento.
Esse montante corresponde a cerca de 1,7% da receita total projetada, percentual alinhado ao limite constitucional, que autoriza a destinação de até 2% da Receita Corrente Líquida para emendas impositivas.
Prioridade para associações civis
Levantamentos apontam que a maior parte dos recursos previstos para 2026 continuará sendo direcionada a associações civis e organizações da sociedade civil, em detrimento da liberação direta ao Executivo municipal.
De acordo com essas análises, aproximadamente 89% das emendas impositivas têm como destino entidades sem fins lucrativos, enquanto apenas R$ 21,7 milhões — o equivalente a 11,7% do total — foram alocados diretamente à Prefeitura de Goiânia para execução de políticas públicas.

Perfil da ACB
A campeã de recebimento desses recursos é a ACB, uma associação privada, sem fins econômicos, de caráter educacional, científico e cultural. A entidade foi constituída em 18 de setembro de 2010, em Goiânia, e possui estatuto registrado no 1º Tabelionato de Protestos e Registro de Pessoas Jurídicas, Títulos e Documentos da capital. A última reforma estatutária ocorreu em novembro de 2021. A associação está inscrita no CNPJ sob o número 13.592.558/0001-55.
Em 2016, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) aprovou uma lei, posteriormente sancionada pelo governo estadual, que declarou a ACB de utilidade pública em âmbito estadual. Já em 2024, a Câmara Municipal de Goiânia aprovou legislação semelhante, de autoria da vereadora Léia Klebia (Podemos). A lei foi sancionada pelo Executivo, conferindo à entidade o título de utilidade pública municipal.
A vereadora Léia Klebia, inclusive, destinou, no ano passado, R$ 2 milhões à ACB. Já em 2026, a vereadora é a campeã em relação ao valor destinado à associação, com R$ 3,2 milhões.

Estrutura e atendimento
Atualmente, a ACB funciona em uma clínica compartilhada localizada na Rua R-12, nº 297, no Setor Oeste, em Goiânia. O espaço é modesto e conta com uma sala que funciona o administrativo, um banheiro e apenas uma sala destinada a atendimentos nas áreas de fisioterapia e ortopedia.
No período das 15h às 17h, em que a reportagem esteve no local, apenas cinco pacientes de fisioterapia compareceram para atendimento, com apenas um fisioterapeuta realizando os atendimentos.
Depoimentos dos pacientes
Cely Heloísa Kansog, de 72 anos, moradora de Goiânia, estava em tratamento por conta de artrose, artrite e problemas na coluna. Ela contou que conheceu a associação por intermédio de um vizinho e afirmou estar satisfeita com o atendimento.

Fui muito bem recebida e estou com apenas três sessões, mas já estou me sentindo melhor.
Adesilda Santana, de 91 anos, também residente em Goiânia, estava realizando sessões para aliviar dores em diferentes partes do corpo. Ela garantiu que o atendimento é 100% gratuito e humanizado.

Me sinto bem quando venho aqui, pois o pessoal é muito legal e o tratamento faz muito bem, sem contar que não pago nadinha, disse.
Erenita Pereira, de 71 anos, moradora de Goiânia, relatou que realiza sessões de fisioterapia por causa de dores no joelho.

“Minha filha descobriu esse local e estamos vindo pela segunda vez, mas já gostei, pois fui bem recebida pela equipe”, observou.
Perfil do fisioterapeuta
O fisioterapeuta Hernane Camilo, com 21 anos de experiência na área, atua na Associação Batista (ACB) e afirma que o público atendido pela instituição é formado, majoritariamente, por pessoas em situação de vulnerabilidade social, que enfrentam dificuldades para acessar o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
São pacientes que realmente precisam de fisioterapia e não têm um poder aquisitivo elevado. Em muitos casos, já aguardaram bastante tempo na fila do SUS, explica.
De acordo com o profissional, as queixas mais comuns envolvem problemas ortopédicos e pós-cirúrgicos, como artrose no joelho, lesões de coluna, hérnia de disco, fraturas, cirurgias de ombro e outras disfunções musculoesqueléticas. Ele destaca ainda que a associação oferece toda a estrutura necessária para a realização dos atendimentos.

A ACB disponibiliza todos os equipamentos e dá o suporte que a gente precisa para oferecer um atendimento de qualidade aos pacientes, afirma.
Além dos atendimentos realizados no consultório da associação, Hernane também participa de ações nos bairros durante mutirões de saúde.
“Nesses eventos, a gente faz atividades de movimento, uma espécie de ginástica laboral adaptada, para estimular a população a se movimentar. Atendemos pessoas de todas as faixas etárias, mas a maioria é de adultos”, relata.
O fisioterapeuta esclarece que o atendimento não é voluntário, sendo custeado pela própria associação.
“O serviço é pago pela ACB, somos profissionais assalariados”, pontua.
Hernane também destaca a disponibilidade de equipamentos considerados de ponta no mercado de reabilitação.
“Temos a fotobiomodulação, que já é mais conhecida, mas ainda restrita a poucas clínicas, e trabalhamos também com ondas de choque, um equipamento caro, presente em pouquíssimos centros de reabilitação, inclusive particulares. Mesmo grandes centros ainda não têm esse recurso, e aqui ele está disponível para os pacientes da associação”, afirma.
Além de atuar na ACB, Hernane Camilo é professor universitário e também trabalha no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer).
Transparência e gestão da associação
O presidente da instituição, Diogo Pereira Marquez, recebeu a equipe de reportagem do Jornal Opção e afirmou que a associação tem interesse em esclarecer quaisquer dúvidas da sociedade, dos órgãos de fiscalização e da imprensa sobre a atuação da entidade e a aplicação dos recursos públicos.
“É do nosso interesse que todos vejam que somos uma entidade séria e transparente em tudo o que fazemos. Trabalhamos com dinheiro público, com recursos da população, e isso para nós é algo muito sério”, afirmou.
Diogo destacou que os atendimentos na clínica não são o carro-chefe da ACB, mas, sim, os mutirões de saúde e de qualificação profissional, que ocorrem ao longo do ano em diferentes bairros da capital.
Vale ressaltar que, em 2024, as carretas da saúde utilizadas por essas associações nos bairros foram alvo de operação policial e de suspensão pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).

História e institucionalização do trabalho social
Diogo Pereira Marquez explica que o trabalho social desenvolvido pela entidade começou de forma voluntária ainda nos anos 2000 e foi institucionalizado em 2010. Desde então, a associação atua em ações filantrópicas, com foco na assistência social, qualificação profissional e atendimentos na área da saúde, especialmente para populações em situação de vulnerabilidade.
“Nós estamos à frente desse trabalho desde o ano 2000. A associação, como instituição formal, funciona desde 2010, mas antes disso já realizávamos ações de filantropia, como atividades no Natal e no Dia das Crianças, sempre com a ajuda de amigos e de forma simples, procurando ajudar o próximo”, afirmou.
Segundo Marquez, a decisão de estruturar a associação surgiu a partir da percepção de que seria possível ampliar o alcance das ações com mais organização e acesso a recursos públicos, sempre com cautela e responsabilidade.
“O primeiro ano de recebimento de emendas parlamentares foi em 2024. De acordo com o presidente, os recursos permitiram a expansão dos projetos, especialmente na qualificação profissional. Fizemos cursos de qualificação, atendemos cerca de 2 mil pessoas e todas as prestações de contas foram aprovadas”, destacou.

Além da qualificação, a associação também atua na área da saúde, com atendimentos em fisioterapia, ortopedia e mutirões de oftalmologia nos bairros.
“Hoje nós temos dois braços: a qualificação profissional, que acontece de forma descentralizada nos bairros, e a saúde, com atendimentos contínuos aqui no instituto e mutirões de visão nas comunidades”, explicou.
Emendas parlamentares e impacto social
Em 2025, a ACB recebeu cerca de R$ 14 milhões em emendas parlamentares. Para 2026, a expectativa é manter o volume de recursos e ampliar o alcance das ações.
“Esse recurso permite fazer muita coisa. Dá para atender muita gente. Só na qualificação profissional conseguimos transformar a realidade de muitas mulheres em situação de vulnerabilidade”, afirmou.
Marquez destaca que os cursos ofertados têm impacto direto na geração de renda.
Quando levamos cursos como alongamento de unhas, cabeleireiro ou estética, muitas mulheres conseguem trabalhar em casa, cuidar dos filhos e gerar renda. Temos relatos de mulheres ganhando de R$ 3 mil a até R$ 8 mil por mês, disse.
O presidente reforça que a escolha dos bairros atendidos não segue critérios políticos, mas dados oficiais de demanda.
“Usamos informações da Prefeitura para identificar onde há maior fila do SUS e maior necessidade. O objetivo é reduzir a demanda reprimida e atender quem mais precisa”, explicou.

Regularidade e transparência
Sobre a regularidade da instituição, Marquez afirma que a associação possui todas as autorizações legais e passa por fiscalizações constantes.
“Temos utilidade pública estadual há 10 anos e municipal há cerca de dois anos. Temos alvará, vigilância sanitária, Corpo de Bombeiros, profissionais credenciados e todas as prestações de contas aprovadas pela prefeitura e pela controladoria”, ressaltou.
Ele acrescenta que a transparência é uma das principais preocupações da entidade.
Tudo é informado à Prefeitura, enviamos relatórios fotográficos, listas de presença e estamos sempre abertos à fiscalização. Trabalhamos com advogado, contadores e assessoria para garantir que tudo seja feito corretamente, afirmou.
Próximos mutirões de saúde
Para os próximos meses, a associação já tem mutirões de oftalmologia programados. No dia 24 de janeiro, a ação ocorre na Vila Novo Horizonte, e no dia 31 de janeiro, no Setor Leste Vila Nova.
“Além da consulta, fazemos a doação dos óculos, com armações de qualidade, e ainda acompanhamos o pós-atendimento para garantir que tudo deu certo”, explicou.
Trabalho social como missão pessoal
À frente da associação desde sua fundação, Diogo Pereira Marquez afirma que o trabalho social é uma missão pessoal.
Eu sou administrador e empreendedor, mas faço o social por paixão. Cresci acompanhando minha mãe em mutirões e acredito que essa é uma forma de retribuir tudo o que recebi. Nossa instituição está de portas abertas para qualquer fiscalização, porque sabemos que estamos lidando com dinheiro público e isso exige responsabilidade, concluiu.
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