Augusto Diniz
Augusto Diniz

Que me desculpem os DJs, mas quem lacrou mesmo foi o Liniker

Ele nem era o headliner de sábado (14/5), mas pela reação do público, que cantou junto e se apertou em frente ao Palco Construtora, ninguém teve dúvida de quem era a estrela da noite

Liniker Barros não só mostrou toda sua potência vocal como encantou com sua energia e simpatia no palco | Foto: Bruna Aidar

Liniker Barros não só mostrou toda sua potência vocal como encantou com sua energia e simpatia no palco | Foto: Bruna Aidar

Liniker Barros, a senhora é uma lacradora de verdade. “Mas peraí, ele não é do homem ‘do sexo masculino’.” Meu amigo, ele já te respondeu isso no palco: “Nós estamos aqui hoje pela liberdade”. Porque o Liniker é um cantor de um timbre de voz grave maravilhoso, encantador, que fez a plateia arrepiar em cada segundo do seu show na noite de sábado (14/5) na Esplanada JK do Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON).

Sobre os questionamentos sobre o sexo do garoto, sim, um jovem de Araraquara (SP) de apenas 20 anos, que acabou de lançar seu EP Cru com três músicas: Liniker é poderosíssima, lacradora e tem, como qualquer pessoa, tem o direito de ser o que bem entender e você não tem nada a ver com isso.

Não foi do nada que o mestre de cerimônias do festival, o produtor musical Carlos Miranda, chamou Liniker e sua banda, os Caramelows, ao anunciar seu show, como um dos artistas que daqui a algum tempo será uma das grandes estrelas da música brasileira. Ao ver o show já fica a ansiedade pelo disco completo dele. QUE VOZ!

Me desculpe os que foram para ver os DJs Omulu (RJ), Anderson Noise (MG), Renato Cohen (SP) e Mau Mau (SP), que fecharam a segunda noite cheia do 18º Bananada, mas não teve para mais ninguém ontem. Liniker é definitivamente o nome do festival em 2016. E vai ser difícil alguém superá-lo hoje. Talvez a volta do Planet Hemp seja algum muito emocionante, só que o talento do paulista de Araraquara é inegável.

Além de Liniker Barros, estavam no palco os Caramelows, que são Péricles Zuanon (bateria), Márcio Bortoloti (trompete e trombone), Paulo Costa (baixo), Rafael Barone (baixo e guitarra), Willian Zaharanszki (guitarra), Bárbara Rosa (backing vocal) e Renata Éssis (backing vocal).

A mistura de soul music com uma voz sensacional já ganharam comparações na imprensa que o colocaram no mesmo patamar de estrelas como o grande síndico Tim Maia. Vacilou? Logo mais ele volta. Liniker prometeu que, depois desses dois shows no Bananada quarta (11) e ontem, em breve estará de novo na capital goiana. E eu agradeço muito por isso.

Quando a plateia puxou o coro “não vai ter golpe”, Liniker respondeu na mesma hora: “Não vai ter golpe. E a gente vai lutar através da arte”. Isso em um show que teve até versos de Isn’t She Lovely, do Stevie Wonder, emendados durante a execução de Zero.

Se o público já cantava bem alto todas as músicas, quando os primeiros versos de Zero começaram, ele podia até largar o microfone que a plateia levaria a música sozinha. E ouvir o Liniker cantando “A gente fica mordido, não fica?/Dente, lábio, teu jeito de olhar” é ter o privilégio de ver um artista de verdade de perto. Muito obrigado, Liniker.

E claro, não poderia faltar, o discurso de uma pessoa que batalha na música pela sua afirmação como pessoa, a oração da lacração:

Há algumas a serem ditas, não é mesmo, Goiânia? A gente está aqui hoje não só para espalhar a palavra do lacre, mas também para espalhar a palavra da liberdade, porque um bando de gente não lutou tanto para eu chegar, negra, mulher, aqui hoje, para ver chegarem e deixar deceparem a nossa democracia dessa forma.

Então, pelo jeito vou ter que lutar pelo meu direito de ser lacradora? Porque eu não posso deixar ninguém me tomar, não é mesmo? Eu acredito que vocês também não.

Então levantem os seus bracinhos, abram os seus coraçãozinhos, porque vai ter o que, Renata Éssis? Vai ter chuva de lacre.

Então repitam comigo: Eu aceito o lacre em minha vida porque eu sou uma lacradora e ninguém me tomba. A partir de hoje vocês são maravilhosos e não podem deixar o lacre cair.

Olhe para o seu amiguinho do lado e diga: Você é um maravilhoso; você é um lacrador; você é uma lacradora; não importa a roupa que você veste; não importa com quem você dorme; não importa o seu peso. Não importa se você tem cabelo ou não, querida, porque a sua feminilidade não está nos seus cabelos. Porque ninguém é obrigado a nada nessa vida, não é mesmo?

Vocês são? Lacradoras. Vocês são o que? Lacradoras. Tomem essa bênção de lacre na vida de vocês.

Liniker Barros, Renata Éssis e Bárbara Rosa

Mais do sábado

Eu ainda estava na redação do Jornal Opção e perderia as primeiras três atrações, que se apresentariam no Palco Casa do Mancha entre 17h10 e 19h10. Mas a chuva que caiu em Goiânia ontem deixou muitas poças d’água por toda a Esplanada do CCON. A parte mais afetada foi o Palco Casa do Mancha, que ficou tão encharcado que até os plugs e tomadas foram atingidos.

Protegido por apenas uma tenda no final da estrutura do festival, entre a área de alimentação e as lojinhas, os shows só começaram três horas depois do previsto na programação. Na correria, o palco foi remontado e tinha técnico de som secando tomada com secador de cabelo. Mas no final deu tudo certo e ao invés de três bandas foram quatro as que passaram por lá ontem.

Mahmed provou no Palco Skol que música boa nem sempre precisa de vocalista | Foto: Bruna Aidar

Mahmed provou no Palco Skol que música boa nem sempre precisa de vocalista | Foto: Bruna Aidar

A noite de domingo foi aberta por volta das 19h30 com o rock instrumental do Mahmed (RN). Uma das melhores atrações do Bananada. Assim como show na Diablo Pub quinta (12), os potiguares botaram o público que já tinha chegado para pirar com seu experimentalismo e agressividade.

Em seguida veio Martin (BA), que, agora em carreira solo, usa a mesma banda, que ele faz parte, da cantora Pitty em suas apresentações. Um bom show, com melodias bem encaixadas e letras de amor. Um pop rock legal. Miranda, ao chamar o Martin ao palco, lembrou de quando, em 2004, ele tocou com a banda Cascadura no Bananada. “Eu sou muito fã desse festival”, disse Martin.

Aí veio o Matias Cena, no Palco Skol, que trouxe um indie rock misturado com rock’n’roll. No início do show, parte da plateia não aceitou bem a proposta de músicas mais depressivas, mas logo a coisa ficou mais animada com guitarras mais estridentes e o público começou a chegar mais perto. E teve até convite vindo do palco: “Vamos bailar”.

Riviera Gaz. Guarde esse nome. Foi um dos shows de rock noventista mais legais do festival. Quando eles subiram no Palco Construtora, todo mundo esperava para ver o baterista do Sonic Youth, Steve Shelley, que faz parte da banda formada com dois integrantes do Forgotten Boys — Gustavo Riviera (guitarra e vocal) e Paulo Kishimoto (baixo). Diversão e rock do puro. Muito bom.

Steve Shelley, do Sonic Youth, foi a grande estrela internacional do sábado no Bananada | Foto: Bruna Aidar

Steve Shelley, do Sonic Youth, foi a grande estrela internacional do sábado no Bananada | Foto: Bruna Aidar

E aí veio a volta do Killing Chainsaw aos palcos e muito rock sujo dos anos 1990. Tinha muito marmanjo da minha idade ou mais velho batendo cabeça e cantando do início ao fim. Até o cantor Liniker arriscou entrar na roda e curtiu bastante a apresentação da banda de Piracicaba (SP). E o vocalista e guitarrista Ricardo Gozo fechou o show falando sobre o momento político nacional: “Vai ter luta pra caralho”.

Guitarrada da boa

Quando Felipe Cordeiro subiu ao palco com sua banda, a Esplanada JK se tornou uma pista de dança em Belém do Pará. Que guitarrada safada, viu! Músicas como Tarja Preta, escrita com Arnaldo Antunes, e Problema Seu não ficaram de fora do set do paraense. O melhor de tudo é apreciar a habilidade nas guitarras do pai de Felipe, Manoel Cordeiro, da banda Warilou, no palco. Simplesmente sensacional.

Quando foi cantar Problema Seu, Felipe Cordeiro disse: “Essas pessoas que chegam com ameaça, canalhice, todas essas coisas que estão em voga no nosso País. Cante uma canção para essas pessoas agora”. Com letras que tratam de temas como “eu gosto de ver homem beijando homem e de ver mulher beijando mulher”, Felipe se apresentou “contra o sistema estabelecido” e foi muito bem recebido.

Hora de ver outras coisas

Silva foi uma boa oportunidade para fazer qualquer outra coisa; e não faltou opção | Foto: Bruna Aidar

Silva foi uma boa oportunidade para fazer qualquer outra coisa; e não faltou opção | Foto: Bruna Aidar

Quando o capixaba Silva (ES) foi apresentado por Miranda, um bom público o esperava na grade para cantar todas suas músicas de perto, seja do EP 2012 ou dos discos Claridão, Vista Pro Mar ou Júpiter. E Miranda afirmou que Silva faz um “pop sem ser fuleiro, que é para poucos isso” ter coragem e saber executar. Obrigado, Mirada, mas na terceira música eu preferi ver outras coisas.

E ainda bem que fiz isso, porque o show da Vitreaux (SP) com seu disco Pra Gente Poder Passear, pelo menos para mim, foram muito mais divertidos de ver no Palco Casa do Mancha do que o show do Silva inteiro no Palco Skol, muito maior. E ainda deu tempo de pegar o finalizinho da apresentação, que encaixou bem com a iluminação azul bem baixa.

Aí veio o Liniker e em seguida o DJ Omulu, que eu também troquei sem pensar duas vezes pelo poderoso show da Ventre (RJ). Da caminhada curta entre o Palco Construtora e o Palco Casa do Mancha, já peguei o início de Bailarina, primeira música da apresentação, que teve até pedido de “mais um”. E quem ia se cansando do som eletrônico misturado com funk e Wesley Safadão que saia da mesa do Omulu ia se aglomerando perto do palquinho baixo com três músicos.

O melhor dos shows da Ventre é ver o casamento da calmaria e da explosão várias vezes na mesma música. Era uma banda que merecia estar em um dos dois palcos principais, porque é algo fantástico ao vivo. E ver a Larissa Conforto destruir a bateria na pancada com sua dinâmica virada para o lado direito (normalmente o baterista toca virado para o lado esquerdo). Ela é um trator com as baquetas na mão.

As boas composições de Gabriel Ventura (vocal e guitarra) ganham um bom contorno ao lado de Larissa e Hugo Noguchi (baixo). Eu ouvi gente durante o show que comparou a bateria da Ventre com o The Mars Volta. Não sei se concordo, mas são duas bandas muito boas. De Bailarina, Quente, Pernas e Carnaval, o show terminou no bis com Aperto e Um Beijo.

Gabriel brincou com a falta de um mestre de cerimônias anunciando as bandas do Palco Casa do Mancha: “A gente não tem o Miranda para anunciar a gente, mas a gente tem a galera do Hellbenders, da My Magical Glowing Lens (ES), da Lutre. Então a gente está bem pra cacete”.

Já a baterista Larissa, que pegou o microfone para dizer “respeita as mina”, também falou. “Não é mudando de presidente que a gente vai melhorar alguma coisa. A gente precisa ter mais amor, compaixão, apoiar os movimentos sociais, as ocupações das escolas, as bandas locais.”

Eletrônico

Quando o Omulu deixou o Palco Skol e deu lugar ao trio Mau Mau, Cohen e Noise, já tinha passado das 2 horas de domingo (15) e o público começava a ir embora. Na plateia de sábado, segundo a produção do Bananada, um público pagante que ainda não tinha sido calculado de aproximadamente 3,5 mil pessoas.

E menos de uma hora depois, às 3 horas, a apresentação de música eletrônica do trio foi encerrada. Durante o set dos três, a banda The Sinks, um trio com membros de Goiânia, Natal (RN) e de Belém (PA) e muito rock.

Último dia

E a festa já começou neste domingo. Hoje o festival chega ao seu último dia no Centro Cultural Oscar Niemeyer a partir das 16h30 com Wolfgang, Fingerfingerrr, Quarto Negro, Molho Negro, The Helio Sequence (EUA), Autoramas, Hellbenders, Aldo The Band, Rodrigo Ogi e Planet Hemp. Até daqui a pouco.

Veja fotos do sábado do Festival Bananada:

Este slideshow necessita de JavaScript.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.