Isolamento decorrente da pandemia pode ter dificultado denúncias de violência contra crianças

Em Goiás, dados da SSP apontam queda em ocorrências de crianças vítimas de abusos sexuais, maus tratos e lesão corporal. De acordo com Ana Elisa Gomes, titular da DPCA, isolamento social pode ter dificultado denúncias

Redução em índices de violência no ano de 2020 pode significar que a pandemia dificultou denúncias | Foto: Divulgação

Dados apurados pelo Jornal Opção junto à Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SSPGO) apontam que houve redução nos indicadores de violência contra crianças e adolescentes no Estado de Goiás durante o primeiro semestre de 2020 quando comparado ao mesmo período de 2019.

No que tange aos abusos sexuais praticados contra crianças, os índices apresentam queda de -19,17% nesses casos. Já os maus tratos teve redução de -38% em crianças e adolescentes vítimas. Entre as lesões corporais, foram registrados -35% durante os meses de janeiro a junho de 2020, que no mesmo período de 2019.

Embora os dados não estejam errados, de acordo com a delegada Ana Elisa Gomes, titular da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA), eles estão subnotificados. Uma das causas que justifica essa redução nas denúncias seria o próprio isolamento social decorrente da pandemia, que impediu que os casos violência contra a criança e adolescente pudessem ser vistos e reportados.

“Eu acredito que ela está intimamente relacionada ao isolamento. Desde março houve as políticas de restrição e as pessoas deixaram de ir à delegacia. Isso é um ponto importante a ser apontado”, obseva Ana Elisa. “Um ponto tão importante quanto e que pode ter influenciado na redução desses dados é o não funcionamento das escolas. Quando a criança vai à escola, ela relata o problema com o coleguinha, que leva para a professora, ou ela já leva direto para a professora que relata ao Conselho Tutelar, que procura a delegacia”, explica.

“A criança muitas vezes chega com lesões de agressões físicas que a professora e a escola percebem e denunciam. Com esse isolamento de pandemia, perdemos essa parceria, que é da escola. Isso pode ter influenciado muito essa redução. Na delegacia, onde nós recebemos a ocorrência, foi nítida a diminuição. Percebemos uma queda de 23% de nos registros nesse período”, avaliou a delegada.

De acordo com a SSPGO, de janeiro a junho de 2019, foram registrados 730 casos de abuso sexual contra menores de idade. Entre crianças vítimas de maus tratos, as delegacias estaduais receberam 365 ocorrências. Já as lesões corporais praticadas contra crianças e adolescentes somaram 404 casos denunciados.

Podemos perceber uma queda significativa quanto às ocorrências datadas entre janeiro e junho de 2020. Neste primeiro semestre do ano, foram notificados 594 abusos sexuais contra menores, 226 ocorrências de maus tratos e 254 por lesão corporal.

“Nós podemos estar sendo convencidos por um dado expressivo que se apresenta, mas que existem as cifras negras. Da mesma forma que as mulheres foram mais agredidas nesse período em que ficaram em casa, penso eu que naturalmente as crianças e adolescentes também o seriam”, aponta a delegada.

“Eles dificilmente conseguem sair de casa para denunciar agressões, pela própria inabilidade. Como vão pegar o telefone, sair de casa e ir à delegacia?”, argumenta.

Pouca representatividade

A delegada também aponta a pouca representatividade na defesa de crianças e adolescentes agredidos, muitas vezes, porque a própria sociedade não escuta o que uma criança precisa dizer ou por sua própria incapacidade de saber como comunicar uma situação de assédio físico ou emocional.

“A criança e o adolescente sempre foram um público com pouca representatividade. São poucos os defensores de crianças e adolescentes que tem representação civil importante e que dão voz a essas violências que eles sofrem, ao contrário da violência doméstica”, ressaltou Ana Elisa.

“O movimento das mulheres é muito forte, tem muita representatividade. Embora a gente saiba que muito ainda tem que ser feito nessa área, ainda sim a gente debate muito bem a violência contra a mulher. O que não acontece em relação às crianças e adolescentes. O discurso de criança e adolescente não tem qualificação, não é visto como importante para quem deveria ouvi-lo.”

Outras razões

A delegada Ana Elisa também acredita que outro ponto que pode ter ajudado na queda dos índices é o trabalho de repressão da polícia para casos de violência no Estado. “Na DPCA temos apresentado um trabalho estatístico mais eficaz que os anteriores. Acho que isso também influencia, trazendo a tona o problema e mostrado muitas prisões”, apontou.

“As Polícias Civil e Militar têm realizado um bom trabalho no sentido de inibir essas condutas, mas não sou romântica em pensar que as violências deixaram de acontecer. Na verdade, vários fatores influenciaram na diminuição dos registros”, esclarece.


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