“Esse festival que tem esse nome tão peculiar” dá as caras

Primeira noite da 15ª edição do evento foi marcada pelo reencontro do Martim Cererê com um festival de música independente da capital

Salma Jô encanta o público na primeira noite do Festival Vaca Amarela | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Salma Jô encanta o público na primeira noite do Festival Vaca Amarela | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Augusto Diniz

Passada a polêmica da arte do festival que usou uma estátua de uma santa pintada de vaca amarela, a 15ª edição do Festival Vaca Amarela teve seu início no final da tarde sexta-feira (23) no Centro Cultural Martim Cererê, no Setor Sul. Como a discussão da liberdade artística contra o respeito à fé alheia tomou proporções imagináveis e raivosas, foi de bom tom a retratação feita pela Fósforo Cultural, que evitou problemas à programação do evento e ainda mostrou à Igreja Católica que a intenção não era a de ofender ninguém.

Resolvida essa discussão, o festival adotou uma nova arte, sem a imagem pintada pela artista plástica Ana Smile, e abriu as portas ao público na sexta. Como era dia de fechamento da edição semanal, não consegui sair do jornal antes das 22 horas, o que me fez perder as apresentações das bandas goianas Sheena Ye, Urumbeta do Espaço, Two Wolves, Components e a paulista Meia Noite Em Marte.

Dessas atrações, há algum tempo eu tento assistir a um show da instrumental Urumbeta do Espaço e não consigo. Infelizmente ficou novamente para uma próxima oportunidade. Mas foi a chance de ver um dos festivais mais tradicionais da capital voltar ao Martim Cererê com a preferência nos últimos anos por realizar o evento no Centro Cultural Oscar Niemeyer, assim como aconteceu com o Goiânia Noise e o Bananada em 2016.

Shows

Americano Billy Pilgrim mostrou a força de seu rap no teatro Yguá | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Americano Billy Pilgrim mostrou a força de seu rap no teatro Yguá | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

O rapper Billy Pilgrim (EUA), de Pittsburgh, fez um show forte para poucas pessoas no teatro Yguá. O músico enfrentou alguns problemas de som, como as caixas que não paravam de chiar. As bases eram reproduzidas pelos DJ Alan Honorato.

No final, o Junior Meomack, ou apenas MC MMK, do grupo goiano Faroeste, cantou com o americano. Essa parceria foi anunciada por MMK nas redes sociais, que produziu uma música do Billy Pilgrim que usou com sample a canção Kilariô, do cantor pernambucano Di Melo.

Calmaria e pancada

Às 23 horas, foi a vez do trio carioca Ventre, formado por Gabriel Ventura (vocal e guitarra), Larissa Conforto (bateria) e Hugo Noguchi (baixo). Um teatro quente, como tem sido há mais de um ano dentro do Pyguá. Mas que não impediu o público de se empolgar com o rock que alterna a melancolia e a explosão. O show foi aberto com a canção Bailarina, seguida de FR. “Mas eu gosto quando tudo fica quente/Gosto de quando me falta o ar” era bem a cara de suor do público durante a execução de Quente.

As jams entre as músicas se tornaram mais frequentes, coisa que nos dois shows anteriores da banda em Goiânia não aconteceu tanto. Carnaval deu espaço para a música Mulher, que contou com a participação de Juliana Strassacapa, do Francisco, el Hombre (SP), atração que fecha a noite de sábado (24). Gabriel e Juliana cantaram, no meio de Mulher, os versos “Quando eu soltar a minha voz por favor entenda/Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando” de Sangrando, do Gonzaguinha.

Pernas, Peso do Corpo, Ali e a fala da baterista Larissa Conforto sobre a necessidade de existir aquele encontro de pessoas, de troca de experiências, de união, de respeito às mulheres, com um “Fora, Temer” emendado e a crítica a um “sistema político eleitoral podre por dentro” finalizaram mais uma apresentação grandiosa do Ventre em Goiânia.

Larissa, do Ventre, destacou a importância do encontro de pessoas para fazer algo melhor, muito além do "Fora, Temer" | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Larissa, do Ventre, destacou a importância do encontro de pessoas para fazer algo melhor, muito além do “Fora, Temer” | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Diversão

Era hora de voltar ao teatro Yguá e conferir mais um atrativo e engraçado show de Rafael Castro (SP). É um show que precisa ser visto sem a preocupação de ser levado a sério. A voz de locutor de Rafael, o visual com caras pintadas e calça colada mostra um pouco do que esperar de músicas como Víbora, composta por Tulipa Ruiz, e Gostosa.

“Esse festival que tem esse nome peculiar. Vaca Amarela. Eu comeria ela”, brincou Rafael Castro antes de tocar Pra Vender Mais, Agradar Mais, Se Falar Mais. Quando a banda de Rafael puxou o refrão “Chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp/Até o dia clarear/Chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp, chopp/Pendura a conta que eu não vou pagar” da canção Vou Parar De Beber, quem não conhecia a música acompanhava com risadas a repetição fácil de decorar.

Antes teve participação da banda Cabezas Flutuantes (MG) na música Rela. Preocupado e Ciúme deram fim ao show com guitarra jogada para o alto.

Queda de qualidade

Na saída do show do Rafael Castro, alguns pararam para assistir à apresentação de Diego de Moraes com guitarra ligada em um amplificador na frente dos estandes. Ele cantou sem usar microfone. Ao mesmo tempo, 0h45 de sábado, a banda goiana Ara Macao mostrava sua mescla de vozes moduladas, saxofone, programação de computador, eletrônico e saxofone no teatro Pyguá. Se a ideia era colocar o público para dançar, alguns compraram a proposta.

Pegar músicos tão bons como Pedro Falcão (saxofone), Bruno Roque (guitarra) e Luis Calil (vocal) em um projeto tão chato dá ainda mais saudade do Cambriana e do Caffeine Lullabies. A salvação do show foi a execução de The Sad Facts, do Cambriana.

Mesmo palco

Carne Doce e o público da primeira noite | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Carne Doce e o público da primeira noite | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Como o palco do teatro Yguá receberia a pernambucana Mombojó para fechar a noite, os goianos da Carne Doce esperaram o público sair do Pyguá para passar o som depois do show do Ara Macao. A plateia ficou até 1h40 para ver o quinteto goiano que há um mês lançou seu segundo disco, que foi batizado com o nome de uma das canções: Princesa.

Meu jeito de olhar vai te conquistar.” E foi bem isso que o verso de Princesa diz que aconteceu. Uma conexão entre plateia e banda do início ao fim. Carne Doce era a banda mais esperada da noite, fato que fez o Mombojó tocar para pouca gente na sequência. E essa sedução causa pela banda goiana no público só aumentava com Cetapensâno e Sertão Urbano.

A postura da vocalista Salma Jô no palco, de ser a líder cativante que dança e seduz e parece saber bem o que fazer para manter o público fixo nela é parte mais do que importante na relação de conexão das pessoas que vão ao show com a banda. E acompanhada da qualidade de músicas tocadas na sequência Açaí, Eu Te Odeio, Artemísia e Falo.

Aliás, Falo é um fenômeno rápido e inexplicável entre o público. Talvez muito bem compreensível pelo conteúdo forte e de afirmação da mulher como um ser independente do homem, nem pior nem melhor, mas igual em importância e qualidade. A forma como a canção agride essa tentativa de retirada do protagonismo de uma mulher atrai a atenção. O discurso em forma de letra se torna um hino ao ver a plateia cantar mais alto do que as outras músicas e com tanta empolgação.

Passivo, do primeiro disco, que ao vivo ganha trechos de funks cariocas, desta vez incluiu Baile de Favela, do MC João, com um verso parodiado, que na versão de Salma é “mexeu com essa buceta vai voltar com o pau ardendo”. Em Fruta Elétrica, a vocalista foi para o meio da plateia. A pedido do público, Macloys Aquino (guitarra), João Victor Santana (guitarra), Ricardo Machado (bateria), Aderson Maia (baixo) e Salma voltaram e fecharam o show com Adoração.

Depois da apresentação, a vocalista contou, bastante emocionada, que foi para o meio do público para abraçar a irmã, com quem não conversava há muito tempo. Sobre a histeria com a canção Falo, Salma disse que em São Paulo, antes mesmo de o disco ser lançado, as pessoas começaram a decorar a letra de vídeos gravados com celular nos shows.

Fim de festa

Felipe S manteve a empolgação ao vivo mesmo depois da 2h30 de sábado | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Felipe S manteve a empolgação ao vivo mesmo depois da 2h30 de sábado | Foto: Bruna Aidar/Jornal Opção

Missão difícil teve o Mombojó, escalado pela produção do Vaca Amarela para fechar a primeira noite do festival, já às 2h40 de sábado, segurar a animação e conseguir fazer um show de cerca de 1 hora e 20 minutos de duração para os resistentes que conseguiram esperar acordados à apresentação da banda pernambucana. Alguns, na tentativa, acabaram dormindo sentados.

O vocalista Felipe S usava uma camiseta preta do Levante Popular da Juvetude e o baixista Missionário José uma branca com a frase “Temer jamais”. O show foi encerrado com gritos de “Fora, Temer” da banda e da plateia. A melhor parte da apresentação aconteceu quando Felipe convidou o músico de São Paulo que “salvou a banda” na capital paulista há cerca mais de sete anos, quando eles se mudaram para lá e descobriram que não tinham onde morar. “O cara que salvou a nossa vida está aqui. Ficamos na casa dele em São Paulo.”

O “cara” era Daniel Belleza, vocalista da banda Daniel Belleza e os Corações em Fúria, que sempre está em Goiânia para acompanhar os festivais de música independente. Os dois cantaram juntos algumas canções. E Daniel Belleza foi ficando no palco até o fim do show. Deixe-se Acreditar, Adelaide e Discurso Burocrático fecharam muito bem a primeira noite do Vaca Amarela às 4 horas de domingo. Era hora de ir para casa e dormir um pouco porque hoje tem mais.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Programação completa

Sábado (24)

01:00 Francisco El Hombre (MEX/BR)

00:15 As bahias e a cozinha mineira(SP)

23:45 Muntchako(DF)

23:00 Johnny Suxxx n´the Fucking Boys

22:15 Porcas Borboletas(MG)

21:30 Pó de Ser

21:00 Ludovic(SP)

20:30 Peixefante

20:00 Vitor Brauer(BH)

19:30 Brvnks

19:00 Lutre

18:30 Lista de Lily (DF)

18:00 Almost Down

17:30 Bolhazul (DF)

17:00 Lorranna Santos

16:30 Sótão

16:00 El Pato Loco

PALCO FALANTE RECORDS/CAFOFO ESTUDIO

21:00 – Manso

20:00 – Vintage Vantage(DF)

19:00 – La Morsa(ANP)

18:00 – Kastelijns

17:00 – Gregor

Dj Set Obsoleto

PROGRAMAÇÃO DE ARTES INTEGRADAS + RODAS DE CONVERSA

17:00 – Roda de Conversa – Jovem Negro Vivo – Anistia Internacional

19:00 – Oficina de Drags

21:00 – Batalha de Drags

 

Domingo (25)

23:30 Gabriel, O Pensador(RJ)

22:45 Hellbenders

22:15 Faroeste

21:30 Overfuzz

21:00 Milkee(SP)

20:30 Dogman

20:00 Jade feat. Kafé VMG

19:30 Evening(Anápolis)

19:00 Rollin Chamas

18:30 BBGG(SP)

18:00 Atomic Winter

17:30 Piscadela Verde(PA)

17:00 Sixxen

16:30 G9 Gang

16:00 Mausoléu de Helena

PALCO FALANTE RECORDS/CAFOFO ESTUDIO

21:00 – Sã Consciência

20:00 – Clann

19:00 – PRVN

18:00 – Naipe Vagabundo

Dj set Rodrigo Lagoa

PROGRAMAÇÃO DE ARTES INTEGRADAS + RODAS DE CONVERSA

16:00 – Batalha de MCs – Batalha de Poesia – Rimanação APGO

16:30 – Debate: Quebrando o Gênero

17:00 – Batalha de MCs – Batalha de Sangue – Rimanação APGO

17:30 – Pocket Show – Eduardo Genuíno

18:30 – Roda de Conversa – Jovem Negro Vivo – Anistia Internacional

20:00 – DJ CeciliaOui

Local: Centro Cultural Martim Cererê (Rua 94-A, Quadra 18, Lote 1, Setor Sul – Goiânia)

Data: Sábado (24) e domingo (25)

Ingressos: R$ 20 reais antecipado (por dia) ou R$ 50 reais passaporte (limitado a 200 unidades)

Pontos de venda: Ambiente Skate Shop Centro e Bueno, Shufle Mix e Hocus Pocus

Pela internet: Clique aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.