Asilo abriga homossexuais na capital da Suécia

“Chega um dia em que não se tem mais a energia para sair sozinho para um café, uma ópera. A comunidade que criamos é para este grupo”, explica um dos moradores do local

Foto: Marina Reis/Folhapress

Foto: Marina Reis/Folhapress

Um local onde homossexuais na terceira idade podem expressar sua individualidade e encontrar pessoas com histórias de vida semelhantes e interesses em comum sem temerem a discriminação. Foi com esse objetivo que surgiu em Estocolmo, na Suécia, um asilo voltado para este público em um prédio de oito andares em uma região arborizada da cidade. Fundado em 2013 pela Regnbågen (“arco-íris”, na língua local), primeira associação de moradores idosos LGBT da Europa, o projeto teve início na Parada do Orgulho de 2009.

O asilo foi tema de uma reportagem no jornal “Folha de S. Paulo” nesta semana, que evidenciou os motivos que levam idosos a procurarem o local. Segundo Christer Fällman, fundador da associação, o preconceito sofrido por esta parcela da população, mesmo em um país tão liberal quanto a Suécia, é um dos principais motivadores.

“Perguntaram-me sobre a necessidade de se ter uma moradia como essa. Creio que, enquanto houver preconceito em nossa sociedade, haverá razão para nos separarmos da massa”, explica Fällman. Além disso, é comum que homossexuais entrem na terceira idade sem uma família estabelecida. “Chega um dia em que não se tem mais a energia para sair sozinho para um café, uma ópera. A comunidade que criamos é para este grupo.”

Fällman atua como relações públicas da associação e, aos 55 anos, é o morador mais jovem do local. Ele relata que a vida para os homossexuais nem sempre foi tão fácil como é hoje em um dos países com os melhores índices educacionais e de desenvolvimento humano do mundo. “Homossexualidade era ilegal na Suécia até 1944. Depois, fomos classificados como doentes, mas não podíamos tirar licença médica. Essa medida só foi abolida em 1979, então também estamos atrasados aqui, apesar de haver países onde o atraso é ainda maior.”

Os três andares ocupados pela associação, abrangendo 27 apartamentos, um espaço de lazer comunitário e um terraço com jardim e vista para o mar, abrigam 33 moradores, cuja faixa etária média é de 67 anos. Outros 70 membros aguardam por uma vaga na fila de espera.

Um dos habitantes Björn Lundstedt, de 73 anos, tem o passado atrelado ao Brasil. Décadas atrás ele veio para o Rio de Janeiro, onde conheceu Hélio em um clube de samba para homens. “Perguntei se ele queria vir comigo para a Suécia, e ele veio”, declarou.

Eles viveram juntos por dez anos, até que Hélio morreu aos 46 anos em decorrência de um infarto. “Foi pesado”, desabafa Lundstedt.

Ele relata que passou por momentos difíceis também quando se assumiu para a família, aos 20 anos de idade. “Meu pai me levou a um médico que sugeriu que eu me castrasse. Isso foi nos anos 60”, conta, ressaltando que nunca foi aceito pelo seu genitor. “Procurei pelo amor dele, mas nunca o encontrei. Já minha mãe sempre me apoiou, meu irmão também.”

Lundstedt falou sobre sua integração no Brasil. “Foi ótimo, a maioria das pessoas que conheci eram receptivas”, diz. Quando questionado sobre medidas retrógradas adotadas no país, como o projeto de lei que ficou conhecido como “cura gay” – aprovado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e arquivado em seguida pela Casa no ano passado – ele frisa que também na Suécia também há aqueles que atuam contra a causa LGBT, ainda que sejam minoria. “O partido Democrata Cristão e o Democratas Suecos foram os únicos que não compareceram à Parada do Orgulho LGBT de Estocolmo neste ano.”

Sobre medidas para minimizar o preconceito, Fällman alerta que medidas legislativas não são a solução. “Com leis podemos construir alguma segurança, mas o indivíduo muda por meio da educação. São os pais que podem fazer um grande trabalho pelas próximas gerações.”

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