A onda de violência dentro e fora dos estádios tem se espalhado por todo país, inclusive, em Goiás. Apenas em 2023, conforme a Polícia Civil (PC), foram desencadeadas cinco operações contra integrantes de torcidas organizadas do Goiás e Vila Nova. Ao todo, 44 pessoas ligadas à “Força Jovem” esmeraldina e ao “Esquadrão” vilanovense foram presas. Vale destacar que os dois times, desde 2018, possuem torcida única.

Apenas em outubro, a corporação prendeu 12 torcedores do Vila Nova e apreendeu quatro menores também da “Esquadrão” suspeitos de praticar tentativas de homicídio, além de emboscadas e roubos contra torcedores da rival “Força Jovem”. As ações policiais ocorreram em três cidades: Goiânia, Aparecida de Goiânia e Trindade. 

Nesta semana, por exemplo, um grupo de 23 membros da “Esquadrão” cercou um ônibus para agredir integrantes da “Força Jovem” no Setor Eldorado Oeste, em Goiânia, enquanto se preparavam para o jogo do Goiás contra o São Paulo. Os vilanovenses, no entanto, foram surpreendidos pela PC que havia interceptado a emboscada. Ao todo, seis pessoas foram presas e três menores apreendidos. O resto do grupo foi identificado e segue sendo procurado.

“É uma disputa por território. Eles se conhecem, sabem que quando tem jogo os torcedores se reúnem cedo, bebem cerveja, usam drogas, tocam foguetes e aí armam emboscadas. Quando há uma emboscada realizada contra uma torcida, ela também irá planejar uma emboscada contra o rival. Esse grupo mesmo que foi vítima já fez uma emboscada contra torcedores do Vila Nova. É um ciclo vicioso e a nossa ideia é quebrá-lo”, explicou o delegado Samuel Moura, titular do Grupo Especial de Proteção ao Torcedor (Geprot) da PC.

Samuel explica que os integrantes das torcidas organizadas costumam usar armas brancas para agredir os rivais, como soco-inglês, facas, canivetes, pedras e até pedaços de madeira personalizados. Em alguns casos, há objetos ainda mais surpreendentes como tacos de basebol. Os crimes mais comuns praticados pelos criminosos é a tentativa de homicídio.

“A gente tenta antecipar o ataque e evitar que ele aconteça. Isso é feito por meio de investigações policiais e de monitoramento. O futebol para esses grupos é um pano de fundo, eles não sabem nem a escalação do time deles. Usam as vestimentas como forma de unidade. O futebol pra eles é o que menos importa, o negócio é briga por território. É uma espécie de uma organização criminosa”, disse.

Projetos no Senado

O senador e vice-presidente da Comissão de Esporte (CEsp) do Senado Federal, Jorge Kajuru (PSB), afirmou que a escalada de violência vivenciada no esporte está relacionada às penas brandas contra os torcedores. Segundo ele, o clubista que é punido por algum tipo de conduta criminosa é banido dos estádios e ainda precisa ficar 90 minutos na sala de uma delegacia enquanto o time que apoio está em campo.

O político, inclusive, teve um Projeto de Lei que aumenta as penas para quem causar tumultos, praticar ou incitar a violência em eventos esportivos aprovado pela CEsp em meados de setembro. O projeto original é do senador licenciado Alexandre Silveira (PSD-MG), atual ministro de Minas e Energia. 

O relator Kajuru, porém, manteve o aumento da pena proposto por Silveira, mas incluiu emendas determinando penas ainda maiores caso os distúrbios causados por torcedores acabem levando a mortes ou ferimentos graves em outras pessoas. Agora, o projeto deve ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na próxima quarta-feira, 19.

“Vamos exigir que o VAR tenha mais duas câmeras em cada estádio, que devem ficar exclusivas para monitorar o comportamento dos torcedores nas arquibancadas. Essas imagens vão mostrar se o comportamento foi racista ou agressivo. O projeto também visa uma punição maior. No dia do jogo, ele [torcedor] ficará 48 horas preso em uma cela durante o decorrer de dois anos”, afirmou. 

O senador explicou que teve um outro projeto aprovado pelo senado em setembro, onde obriga os estádios do país a implantar o reconhecimento facial do torcedor na bilheteria e na catraca. O objetivo da ação é impedir que torcedores banidos por crimes dentro dos estádios continuem a frequentar os locais. O prazo para a aquisição da nova tecnologia se encerra em março de 2024.  

O Goiás, frequentemente ligado às ações violentas por parte da torcida, foi o primeiro clube brasileiro a adotar a medida no Estádio Hailé Pinheiro (Serrinha). Ao Jornal Opção, o time informou que os novos aparelhos de segurança já estão em uso e que, durante os jogos, contam com o auxílio da Polícia Militar (PM). 

A corporação disponibilizou o banco de dados em uma parceria com o clube, a fim de identificar foragidos da Justiça que podem frequentar a Serrinha. Caso sejam identificados, os criminosos podem ser presos em pleno jogo.

“O torcedor que já cometeu algum tipo de violência no estádio e que não foi punido ou que recebeu uma punição leve, não será permitido no local. Ele será barrado na bilheteria ou na catraca. Isso nunca aconteceu na história do Brasil, é a primeira vez. Por isso a violência voltou a acontecer, não tinha projeto rigoso”, reforçou o senador.

Leis são suficientes 

O advogado especialista em direito esportivo, Victor Amado, conta que o Brasil possui o Código Brasileiro de Justiça Esportivo, o Estatuto do Torcedor, a Lei Pelé e a Lei Geral do Esporte. Para ele, as leis são eficazes, mas falta apoio por parte das entidades que compõem o esporte, como por exemplo, as federações futebolísticas.

Victor explica que a violência no esporte, principalmente envolvendo o futebol brasileiro, é cultural. O torcedor rival para determinadas torcidas organizadas, conforme ele, não é visto como um adversário, mas como um inimigo em potencial. 

“A violência nos estádios foi e ainda é tratada como uma situação de responsabilidade do poder público. Na verdade não deveria, é uma responsabilidade de todos os players do futebol, por exemplo. É direito do torcedor ter segurança para entrar e sair de um estádio”.

Conforme o especialista, os clubes também podem ser penalizados pelo Código de Justiça Esportivo por condutas praticadas pelos torcedores ou mesmo pelos próprios jogadores dentro de campo. Brigas generalizadas, por exemplo, entram na lista de crimes puníveis. 

“Estamos em um cenário brasileiro de falta de segurança, que reflete quem é o brasileito no estádio de futebol. Temos uma outra situação muito preocupante que é quando determinado time perde, a uma incidência muito grande de violência doméstica”, disse Victor.

“A violência nos estádios é uma situação recorrente, que há muitos anos o poder público não consegue reprimir. Falta educação e a conscientização de que o futebol é um espetáculo esportivo”, concluiu o advogado.

Torcedor morto por policial 

Como mencionado por Victor, a violência no esporte, especialmente o futebol, se entende por todo país, não só em Goiás. Na última semana, um policial militar foi apontado, oficialmente, como o responsável pela morte de um torcedor do São Paulo após a final da Copa do Brasil, no dia 24 de setembro, no Estádio do Morumbi. Rafael Garcia, de 32 anos, foi atingido na cabeça por uma munição “bean bags”, que vem sendo usada para substituir as balas de borracha. 

A família do são-paulino entrou com uma ação na Justiça de São Paulo pedindo uma indenização de R$ 1 milhão por dano moral ao governo do estado. O processo está em segredo de Justiça.

As “bean bags” estão sendo usadas desde 2021 pela corporação para conter distúrbios urbanos, como grandes aglomerações, a exemplo do tumulto ocorrido após a final da Copa do Brasil, com o título do São Paulo sobre o Flamengo. Esse tipo de munição é utilizado por instituições de policiamento em países como os Estados Unidos e México.

Segundo a PM paulista, trata-se de munição de menor potencial ofensivo e menos letal. Ela é utilizada para causar distração a um possível agressor. Ao atingir o suspeito, a força policial ganha alguns segundos – parece pouco, mas pode ser tempo suficiente para solucionar um sequestro, por exemplo.