Temperatura média em Goiás fica até 2,1⁰ acima da média

Levantamento feito por geógrafo da Universidade Federal de Goiás mostra que elevação ocorreu em todas as regiões do Estado em 2019

Diego Tarley, professor da Universidade Federal de Goiás | Foto: Pessoal

Assim como ocorreu na maior parte do planeta, as temperaturas em Goiás ficaram acima da média histórica em 2019. Levantamento realizado a pedido do Jornal Opção, o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Diego Tarley Nascimento, doutor em Geografia, mostra que a maior elevação ocorreu em Jataí, Sudoeste Goiano, onde a temperatura média do ano passado foi de 24,5 graus célsius, enquanto a média histórica é de 22,4 graus célsius – mas a tendência de alta foi observada em todas as nove estações distribuídas no Estado.

Conforme o estudo a média da temperatura em 2019 também ficou acima da média apurada desde 1981 em Aragarças, Catalão, Formosa, Goiânia, Ipameri, Pirenópolis, Posse e Rio Verde – esses dois, com as menores variações. Em Goiânia, conforme o professor da UFG, a temperatura média anual foi de 25,4⁰C, enquanto a média histórica é de 24,1⁰C.

Diego Tarley explica que Goiás não foi uma exceção no País. “Houve, de fato, um aumento na temperatura no Brasil, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)”, diz. “Goiás, inclusive, se destaca, apresentando o predomínio de anomalias positivas (elevação) das temperaturas médias, variando entre 1°C e 1,5°C, mas podendo ultrapassar os 2ºC em algumas localidades no extremo Sul do Estado” (veja quadro).

 

Estação Média Anual (1981/2010) Temperatura anual (2019) Elevação
ARAGARCAS 25,60 26,65 1,05
CATALAO 22,80 24,5 1,70
FORMOSA 22,30 24 1,70
GOIÂNIA 24,10 25,4 1,30
IPAMERI 22,50 24,4 1,90
JATAI 22,40 24,5 2,10
PIRENÓPOLIS 22,90 24,3 1,40
POSSE 24,10 25,1 1,00
RIO VERDE 23,00 24 1,00

 

Na visão do professor, contudo, essa elevação não chega a ser uma surpresa. “Ano após ano percebe-se elevadas temperaturas em nossa região, a ponto da população já se encontrar habituada com o desconforto térmico”, lembra.

Diego Tarley é autor de um estudo que mapeou os episódios de temperatura extrema em Goiás ao longo dos anos, assim como suas causas. O dia mais quente da história da capital, conforme o levantamento, foi o 15 de setembro de 2015, quando os termômetros registraram 40⁰C. A pesquisa demonstra, ainda, que desde 2014, todos os anos tiveram registros de temperaturas acima de 39⁰C – fenômeno que só havia ocorrido uma vez desde 1961, no dia cinco de novembro de 2007.

O pesquisador demonstra que houve coincidência entre a ocorrência de anomalias climáticas os fenômenos El Niño (como nas altas temperaturas de 2014 e 2015) e La Niña (como em 2007 e 2016), tanto em relação às altas ou às baixas temperaturas. Tais elevações ocorrem mais comumente em setembro (52% delas) e outubro (35%). Ainda assim, ele ressalta, em seu estudo, que “com relação à Região Centro-Oeste do Brasil não há consenso acerca dos efeitos dos fenômenos El Niño e La Niña para as temperaturas e precipitações”.

Pelo mundo

As altas temperaturas em Goiás e no Brasil repetem o que ocorreu em todo o planeta em 2019. De acordo com o serviço Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, a elevação da temperatura média, em relação ao período de referência (1981-2010), foi de 0,59°C. O ano mais quente, de acordo com a agência, foi 2016, com elevação de 0,63°C em relação à média.

O professor Diego Tarley analisa com cautela os dados. “Tais dados se referem a uma média global, que não considera a diversidade climática e os desvios de temperatura de todas as localidades do globo. Por exemplo, no centro-norte dos Estados Unidos, centro-sul do Canadá e no sul do Peru houve diminuição da temperatura no referido ano”, afirma.

Contudo, ele afirma que, “infelizmente”, há um predomínio de elevação da temperatura na maior parte do planeta. “O que comprova as suspeições do aquecimento global, ano após ano”, afirma.

Erosão na GO-070 antes das chuvas da última semana / Foto: Defesa Civil

Volume de chuva no início de 2020 surpreende

Se, por um lado, a elevação das temperaturas não causa nenhuma surpresa, por outro o volume de chuva no início de 2020 foi bem acima do esperado. De acordo com o estudo feito para o jornal Opção pelo professor da UFG Diego Tarley Nascimento, em janeiro choveu 82 milímetros a mais que a média história para o mês em Goiânia (329,8 milímetros, diante da média de 247,8 milímetros). “O elevado volume de precipitação surpreendeu e trouxe repercussões negativas para a população, como enchentes dos rios, inundações e alagamentos em áreas urbanas etc”, diz.

Além de Goiânia, onde ocorreram casos de enchente, o professor analisou também Catalão e Pirenópolis. No município do Sul Goiano, choveu 78,1 milímetros a mais que a média histórica (361 e 282,9, respectivamente). Em Pirenópolis, no Entorno do Distrito Federal, choveu 66,5 milímetros a mais que a média histórica, que é de 285,9 milímetros.

O resultado é que o número e a gravidade das ocorrências relacionadas à chuva também aumenta. Em Catalão, três represam se romperam, duas tiveram de ser monitoras e casas foram alagadas no dia 29 de janeiro. Apenas nesse dia, a chuva registrou 134,6 milímetros – quase metade do que choveu no mês inteiro. Na época, o secretário de obras do município, Leonardo Martins, afirmou que o volume ultrapassou o registrado em 1972, quando a precipitação foi de 130 milímetros.

Conforme Diego Tarley, “houve anomalias consideráveis de precipitação nas porções Central, Centro-Sul, Leste e Sudeste de Goiás, com registros que demonstraram até 300 milímetros acima da média”. Fevereiro deve repetir a tendência. “A precipitação acumulada nos últimos 15 dias retrata algumas localidades em que já choveu o que é esperado para todo o mês, conforme visto em Goiás, Minas Gerais e Pará”.

Além do volume elevado, para o qual a infraestrutura da capital não está preparada, há uma concentração delas em poucos dias. “As chuvas fortes apenas dão a falsa ideia de que os níveis dos rios, lagos e reservatórios se elevam. Na realidade, as chuvas fortes criam problemas como inundações e, cessado o efeito do pico de vazão, o nível da água pouco se altera”, disse a coordenadora do Laboratório de Climatologia (Climageo) da UFG, Gislaine Cristina Luiz, ao Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.