Radialista é denunciado por desvio de doação para criança

Pedreiro acusa Cláudio Lima de não repassar todo o valor arrecadado em campanha promovida por rádio da cidade e que visava ajudar em tratamento de saúde de seu filho. O comunicador nega

Radialista Cláudio Lima: "Tenho a consciência limpa em relação às acusações feitas, sou um sujeito trabalhador"

Radialista Cláudio Lima: ”Tenho a consciência limpa em relação às acusações feitas, sou um sujeito trabalhador”

Yago Sales

O radialista Cláudio Li­ma foi denunciado sob suspeita de desviar dinheiro arrecadado para pagar um exame de criança e ameaçar uma família em Catalão, a 260 quilômetros de Goiânia. O imbróglio se deu depois de uma campanha feita por ele na Rádio Nova Liberdade FM, onde trabalha, no programa “Re­pórter Cidadão”, em um quadro de solidariedade. Ele nega as denúncias e se defendeu das acusações ao Jornal Opção.

A família do pedreiro Weverton José da Silva, de 32 anos, pai de quatro filhos, alega ter sofrido um golpe por parte de Lima. Tudo começou há cerca de um mês, quando ele e sua mulher, Débora de Fátima Oliveira, de 29 anos, foram incentivados por um primo de Weverton, identificado apenas como “Carlinhos da Ana Têxtil”, a procurar o programa apresentado por Cláudio Lima, em busca de ajuda para um tratamento do filho de 12 anos, que estaria com problemas no coração.

Segundo Weverton, o radialista teria pedido para o casal afirmar ao vivo na emissora que o filho precisaria fazer um cateterismo cardíaco, o que ele considera que seria uma possível artimanha para aumentar a comoção das pessoas. Na verdade, diz o pedreiro, o menino teria sido “diagnosticado com uma inflamação no sangue”. De qualquer forma, a história impressionou os ouvintes, que não paravam de ligar para a rádio informando valores de doações à criança. Ao término da campanha, Cláudio teria anunciado que o total arrecadado tinha alcançado algo “em torno de R$ 2,6 mil”. Mas Weverton alega que não recebeu todo o montante, mas aproximadamente R$ 1,4 mil.

Além do suposto dinheiro defasado, teria sido desviada uma cesta básica e — o que ele diz ser o mais “absurdo” — Weverton teria sido induzido a assinar um recibo em branco por Carlinhos. “Contei isso na delegacia e um policial brigou comigo. Mas, sabe como é, a gente estava precisando”, justificou.

Débora conta que o convite para participar do programa teria uma contrapartida. “Falaram a mim para ir à rádio falar mal do Jardel [Sebba, prefeito PSDB de Catalão]. Tanto que nossa participação foi no dia do aniversário do prefeito. Era só entrar e mentir e falar mal do Jardel”, revelou.

Boletim de ocorrência apresentado por Weverton José contra Cláudio Lima

Boletim de ocorrência apresentado por Weverton José contra Cláudio Lima

“Maldição”

Antes de o casal formalizar a denúncia na delegacia, o radialista e Carlinhos — que é aliado político do comunicador —, foram à casa da avó da criança e teriam ameaçado o casal de idosos na presença do menino usado para pedir dinheiro na rádio.

Débora conta que uma mulher a insultou na rua, depois de uma retaliação do radialista. “Ele tem o microfone na boca, eu não tenho nada”, desabafa. Segundo ela, depois que o marido denunciou o radialista, uma campanha de difamação foi iniciada por Lima. Quando passou a questionar o valor recebido, o casal teria sido atacado no programa pelo radialista e por entrevistados, inclusive familiares de Weverton. “Falam o nome dos meus filhos no ar, falam o endereço da minha casa, nos chamam até de la­drões”, lamenta. Depois da polêmica, Débora assume: “Esse dinheiro foi uma maldição na minha vida”.

Em uma gravação que a reportagem teve acesso, Weverton diz estar envergonhado. “Tem dia que tenho vergonha até de sair na rua. Cláudio Lima usa a rádio para comover as pessoas e não repassa o dinheiro. Naquele programa é tudo falso. Ele se senta em uma cadeira e usa o nome de Deus. Mas continuamos, minha família e eu, na mesma situação, ou até pior”, disse na gravação.

Comunicador nega acusações de casal

Agora as denúncias do casal Weverton e Débora pesam sobre o radialista e são empecilhos no caminho entre o estúdio da rádio, na Rua Nassim Agel, e a Câmara de Ve­readores. O boletim de ocorrências registrado pela Delegacia Distrital de Catalão também chamusca a imagem solidária de Cláudio Lima e ajuda a solidificar denúncias espalhadas pela internet.

Mas a polêmica ainda é desconhecida pelo eleitorado em geral, que enxerga em Lima um defensor dos minoritários, “aquele que tem coragem de falar a verdade”. O ra­dialista seria um dos favoritos entre os possíveis pré-candidatos a ve­reador em Catalão. No site www.vereador2016.com, ele é citado como proponente a uma cadeira na Câmara. O radialista, no entanto, nega a intenção de se candidatar. “Eu nunca disse que seria candidato”, afirmou à reportagem.

Lima é natural de Caldas Novas, onde tem um irmão vereador —Rodrigo Lima (PTB) também se envolveu em uma polêmica em 2013; ele teria insultado mulheres de Caldas Novas.
Filiado ao PMDB, o radialista tem ligação política com o ex-prefeito e atual deputado estadual Adib Elias (PMDB), mas afirma que sua única defesa é a “opinião pública”. “Eu não tenho acesso a dinheiro da rádio. Isto é jogo político, já que sou o principal candidato a vereador, embora ainda não tenha declarado isso”, disse pelo telefone.

Lima nega as acusações em en­tre­vista ao Jornal Opção. Ele re­gis­trou boletim de ocorrência por ca­lú­nia contra Weverton, que gravou um áudio sobre o caso e que circula nas redes sociais. Para esta re­por­tagem, o pedreiro confirmou as de­núncias reiteradas pela mulher, Débora de Fátima Oliveira.

A respeito da denúncia de “in­ventar” exame para criança, o radialista afirma que a mentira partiu do casal. “Tenho a consciência limpa em relação a isso, sou um sujeito trabalhador. Isto tem de ser tratado junto à direção da rádio, sou apenas um funcionário”, defende-se Lima, frisando que não tem acesso a dinheiro arrecadado no programa.

Para a polícia, o radialista justificou que o dinheiro, além de ser entregue aos participantes, também ajuda a pagar o serviço do motoboy que busca as doações nas casas e também duas funcionárias da rádio. Essa rotina seria comum, segundo Lima, nas campanhas de doações promovidas. O radialista informou à polícia que, quando foi à casa da avó da criança, buscava esclarecimentos para entender o motivo que levou Weverton a gravar as denúncias. Lima diz que “entrou com processo contra Weverton por calúnia e difamação”.

O diretor responsável da rádio Nova Liberdade, Valdeci Barros, defende o radialista. “A gente faz aquilo que o prefeito não faz. A gente faz a solidariedade. Tudo o que se tem falado do Cláudio é mentira”, disse. Barros diz ainda que a rádio é campeã em audiência e isso irrita os concorrentes. “A rádio não tem política e está disposta a ajudar, inclusive, o Weverton e sua família”. O diretor da rádio afirma ainda que a situação é toda “politicagem” e acredita que Weverton teria “recebido dinheiro da oposição”.

Ainda segundo o diretor da rádio, “as doações que chegaram foram de R$ 1,4 mil e não de R$ 2,6 mil”. Ele ainda afirma que o radialista “é muito importante, muito conceituado e não tem opinião pessoal na programação”.

A reportagem procurou Car­linhos, primo de Weverton, ami­go e aliado do radialista, mas não o encontrou; o mesmo ocorreu em relação ao delegado que apura as denúncias. Já o deputado Adib Elias não respondeu às ligações e questionamentos da reportagem.

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