O que explica o preocupante início dos times goianos no Campeonato Brasileiro?

Juntos, os três principais clubes do Estado somam apenas uma vitória em 10 partidas

Felipe Albuquerque, gestor de futebol do Vila Nova: “Nem sempre o que a gente faz fora de campo reflete dentro dele em curto prazo” | Osmar Lucindo, diretor de futebol do Goiás: “É muito mais difícil ganhar do Vila e Atlético em uma final do que qualquer partida da série B” |
Adson Batista, diretor de futebol do Atlético: “Temos um poder de investimento muito menor em relação aos demais clubes da Série A”

Marcelo Mariano

O desempenho das equipes goianas da capital no início da principal competição nacional não é nada satisfatório e já traz uma preocupação evidente. Juntos, Atlético, Goiás e Vila Nova tiveram apenas uma vitória nas dez primeiras partidas que disputaram. O feito foi do Vila, que venceu o time reserva do Boa Esporte (MG) – o clube resolveu priorizar as finais da 2ª divisão mineira.

O Jornal Opção procurou dirigentes em busca de explicações para o baixo desempenho. Trocas de treinador, elenco limitado para o nível da competição e a baixa estrutura financeira são alguns dos fatores. Para cada caso, um desafio: por exemplo, é preciso que a diretoria tenha conhecimento do elenco – e uma sorte considerável – para acertar na contratação de um novo treinador. Do contrário, pode ocorrer o que houve com Sérgio Soares no Goiás, dispensado após apenas quatro partidas na Série B.

Começando pela Série A, o Atlético parece ser o que está em situação mais complicada. Com um orçamento bem inferior a praticamente todos os concorrentes, o diretor de futebol Adson Batista tem tido um grande desafio. “Temos um poder de investimento muito menor em relação aos demais clubes, não podemos errar nas contratações. De qualquer forma, creio que estamos progredindo e que vamos reagir”, diz. No Estadual, o Dragão nem chegou à final, disputada entre Goiás (tricampeão) e Vila Nova. Adson admite que o clube resolveu priorizar a competição nacional. “O Campeonato Goiano não nos dá qualquer embasamento para enfrentarmos a Série A e tem sido, no máximo um laboratório para remontarmos a equipe.”

As contratações de jogadores precisam ser certeiras para quem tem pouco dinheiro. É o caso do Vila Nova, que tem Felipe Albu­querque à frente da direção defutebol. “O torcedor brasileiro é muito imediatista, mas nem sempre o que a gente faz fora de campo reflete dentro a curto prazo”, assinala. Ele está prestes a completar um ano à frente da direção da equipe e se diz “tranquilo” no tocante às metas que conseguiu atingir até o momento. “Ao longo deste ano houve muitas evoluções, principalmente em relação ao departamento médico, utilização dos campos e definição do perfil dos atletas que queremos contratar. O Vila era um clube que não tinha nenhum desses processos definidos.” Dos times goianos, o Tigrão é o que está em situação menos lastimável, em posição intermediária na Série B.

Do lado oposto, quem está sob maior pressão é o Goiás Esporte Clube, agremiação de maior estrutura e com maior poder econômico no Estado. Mesmo chegando ao terceiro título consecutivo, o péssimo início de Brasileiro pôs tudo abaixo: o time está na zona de rebaixamento à Série C, não venceu ainda e já teve treinador demitido.

Osmar Lucindo, diretor de futebol alviverde, diz que só existe uma palavra dentro do futebol: resultado. “Somos contra a troca de treinador, mas, se não ganhamos, começa a ter uma pressão muito grande”, justifica. Osmar garante que a equipe esmeraldina vai brigar pelo topo da tabela e, consequentemente, para voltar à Série A.

Serra Dourada

O estádio onde os clubem mandam seus jogos também é algo essencial para o desempenho. Nesse sentido o Serra Dourada se tornou um peso: os times goianos tinham como trunfo suas grandes dimensões – era o maior campo do País em largura e extensão –, mas uma determinação da Con­federação Brasileira de Futebol (CBF) padronizou o tamanho de todos. Outro fator que ajudava as equipes da capital era a grama, muito fofa e que extenuava os adversários no segundo tempo. Agora, ela está sempre bem aparada, de acordo com a padronização.

O baixo público no Serra Dourada também é outro entrave. Osmar Lucindo acredita que, quando o Goiás voltar a jogar bem, a torcida voltará a comparecer em maior peso novamente e lotará as arquibancadas. Já o dirigente colorado, Felipe Albu­quer­que, argumenta que “o Serra Dourada ficou parado no tempo e é um dos mais obsoletos do Campeonato Brasileiro”. Com capacidade para 13 mil pessoas, o Estado Olímpico se apresenta como uma alternativa. É novo, confortável, bem localizado e comporta tranquilamente a demanda. O Atlético deve realizar lá a maioria de seus jogos, reservando ao Serra Dourada apenas os de maior apelo de público, como ocorreu contra Flamengo e Corinthians.

Os campeonatos estaduais são tema de polêmica em qualquer região do Brasil. Há quem considere que eles são dispensáveis e diga que prejudicam a agenda dos clubes das sériea A e B. Alguns defendem até sua extinção, outros pedem reformulação do calendário. Mas o baixo nível técnico tem sido questionado como um fator que “engana” os clubes durante o período que deveria prepará-los para as competições mais importantes do ano.

Enquanto Adson Batista diz que o nível técnico e financeiro é “deficitário”, Felipe Albuquerque, ressalta que, apesar de não ser rentável, não se pode dizer que o Campeonato Goiano não seja interessante. “A FGF organiza um bom campeonato e se mostra comprometida em manter o nível.” Osmar Lucindo remete às rivalidades locais ao defender o Estadual. “É muito mais difícil ganhar do Vila ou do Atlético em uma final do que qualquer partida da Série B”, diz. Em nota à reportagem, a Federação Goiana de Futebol (FGF) expressou seu empenho em valorizar o Goianão, dando condições aos clubes de viabilizarem recursos, como parceria comercial, acordo de televisão, disponibilização de uniformes para treino e jogo, além de transporte e hospedagem quando a equipe joga a mais de 100 quilômetros de sua sede.

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