“Goiás está preparado para qualquer tipo de exportação”

Superintendente-executivo de Comércio Exterior, Bill O’Dwyer explica o cenário da área, que está cada vez mais consolidada no Estado

Bill O’Dwyer espera que os próximos governantes deem continuidade ao trabalho realizado em prol do comércio exterior em Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

William Leyser O’Dwyer, mais conhecido como Bill O’Dwyer, é um expert em comércio exterior. Nascido em Ipameri, cursou Direito pela Pontifícia Universi­dade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e, logo após ter se formado, foi estudar na Alemanha, país de seus avós. Morando atualmente em Anápolis, é diretor da Anadiesel, concessionária de veículos Mercedes Benz.

No governo estadual, vem atuando desde o início dos anos 2000. Já foi titular da extinta Secretaria de In­dústria e Comércio (SIC) e, hoje, ocupa a Superintendência Exe­cutiva de Comércio Exterior, vinculada à Secretaria de Desenvol­­vimento Econômico, Científico e Tecnológico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação (SED).

O trabalho realizado por Bill e sua equipe dá atenção especial ao micro, pequeno e médio empresário por meio do Programa de Qualificação para Exportação (Peiex), cujo objetivo é inserir produtos goianos no mercado internacional.

Cônsul honorário da Ale­manha em Goiás, Bill destaca o papel do governador Marconi Perillo (PSDB) no fomento ao comércio exterior. “Ele sempre teve a noção da importância da internacionalização de Goiás. Espero que os próximos governantes também tenham essa mesma sensibilidade.”

Nesta entrevista ao Jornal Opção, o superintendente-executivo de Comércio Exterior, que tem ótima relação com embaixadores dos mais diversos países, comenta sobre a balança comercial do ano passado e faz prospectivas para 2018, entre outros assuntos. Para ele, Goiás está no caminho certo.

Já estamos encerrando o primeiro bimestre de 2018, mas gostaria de começar a entrevista voltando rapidamente ao ano passado. Qual é a sua avaliação da balança comercial de Goiás em 2017?

Tivemos um ano muito bom em razão de todos os esforços do governo estadual e de empresários. Registramos praticamente US$ 7 bilhões em exportações, atingindo a meta previamente estabelecida. Isso significa que as previsões deram certo mesmo em um ano difícil, com a economia retraída, mas que, de alguma maneira, apresentou sinais de melhora.
Nosso produto tem sido cada vez mais conhecido no exterior. Exportamos para mais de cem países mensalmente. Em dezembro, foram exportados 318 produtos diferentes para 101 países, o que evidencia a nossa diversidade, que vai desde um carro a uma peça simples de artesanato, além, é claro, do complexo da soja, que sempre foi o nosso carro-chefe, e da carne, que ocupou o primeiro lugar no referido mês.

Analisando a balança comercial, percebe-se que, de setembro a dezembro, houve um decréscimo nas exportações, ou seja, quatro meses consecutivos. Qual é a explicação para isso?

Essa é uma sazonalidade dos produtos em si. Isso é muito normal. Basta uma seca em algum país ou excesso de chuvas em outro para que haja uma alteração. Lembro-me de uma época em que houve uma temporada de muita seca na Flórida e o Brasil nunca exportou tanto suco de laranja para os Estados Unidos como nessa ocasião. E Goiás não ficou para atrás, porque temos grandes exportadores de laranjas. Nas importações, acontece a mesma coisa. A variação é muito grande tanto de mês para mês quanto de produto para produto. O principal é que, no contexto geral, recuperamos o saldo comercial, que cresceu consideravelmente em 2017.

Qual é a importância do porto seco de Anápolis [Porto Seco Centro-Oeste] para o comércio exterior de Goiás?

O porto seco tem desempenhado um papel muito importante. É uma referência nacional de boa gestão e de liberação imediata das mercadorias. O desembaraço, aqui, ocorre em metade do tempo do porto de Santos. Isso reduz custos. A praticidade e acessibilidade também contribuem para a eficiência do porto seco. E agora há a pretensão de dar uma ênfase maior ao aeroporto de cargas. Vai ser a gota d’água que faltava para impulsionar mais ainda o comércio exterior. É uma visão extraordinária do governador Marconi Perillo e ele vai deixar esse grande legado para Goiás. Vamos falar do aeroporto de cargas daqui a algum tempo e podemos já fazer a previsão de resultados praticamente dobrados.

No tocante às exportações, chamaram a atenção dois países que estão entre os principais compradores de produtos goianos. Primeiramente, a Holanda, que, em 2017, figurou na 2ª posição entre dois gigantes — a China, em 1º, e a Índia, em 3º. Como se dá essa relação entre Goiás e Holanda?

Além do nosso bom relacionamento com a Holanda, a explicação para isso é logística. Pergunta-se sempre o porquê da Holanda, mas é lá que está o porto de Roterdã. Quando se fala Holanda, fala-se também em União Europeia. E, a partir da Holanda, as exportações são escoadas para o restante do continente.

Já tivemos duas missões excelentes para lá. Aliás, teve um dia dedicado a Goiás no Brazilian Day, um grande encontro realizado em Amsterdã, quando mais de 300 empresários tiveram a oportunidade de ouvir apresentações sobre o nosso Estado. Ademais, o governador esteve há dois anos na Holanda em uma missão empresarial que trouxe a Heineken para Goiás. Esses são alguns dos resultados práticos que permitem dizer que Goiás está na vanguarda do comércio exterior. Nunca se fez tantas missões no Estado. Conseguimos aproveitar a pouca distância para Brasília e nos aproximamos do Itamaraty e de embaixadas.

O outro país que chamou a atenção foi o Irã, considerado fechado para o comércio até em virtude das sanções a ele impostas. Como funciona a relação entre Goiás e Irã?

Sempre olharam para o Irã como inimigo, mas, aos poucos, isso vem mudando. Participei há alguns anos de uma visita do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues à embaixada do Irã. Naquele momento, abriram-se as portas do Brasil e de Goiás para o país do Oriente Médio. Exportamos muita carne e grãos para lá. E esse trabalho foi feito de maneira gradativa, mostrando ao Irã que somos um Estado com condições de suprir algumas de suas necessidades.

O Irã envia alguém para fiscalizar a maneira com que o abate é feito, já que é um país majoritariamente muçulmano e, para os praticantes do islamismo, a carne precisa ser halal [tipo de alimento que segue as normas do Alcorão e não contém ingredientes considerados proibidos]?

Sim, exatamente. Temos frigoríficos capacitados para isso. Goiás está preparado para qualquer tipo de exportação. Exportamos carne halal para outros países muçulmanos, como a Indonésia. Reunimos, há três anos, em Brasília, o grupo Asean [Associação de Nações do Sudeste Asiático] para eles pudessem conhecer as potencialidades de Goiás. Vários desdobramentos se deram a partir desse jantar e começamos a ter mais proximidade com Indonésia, Tailândia, Filipinas, entre outros países da região.

O que se pode esperar de Goiás em 2018 no que tange à exportação e importação?

Em 2018, esperamos um resultado ainda melhor das nossas transações comerciais. Vamos colher frutos de todos esses contatos obtidos por meio dos esforços feitos nas missões. Os empresários têm tido um papel preponderante e, em 2018, não será diferente. Eles procuram se especializar e participar dessas missões para que seus produtos se tornem cada vez mais qualificados.

Falando especificamente da importação, às vezes pode ser mal-entendido quando se importa demais, mas importar muito também é um bom sinal. Quanto mais se importa, mais vagas de trabalho e condições para aprimorar o produto são criadas.

Já há missões comerciais agendadas?

Para nossa surpresa, a Índia ocupou o 2º lugar no mês de dezembro e isso nos animou a já organizar uma missão em maio para lá. Fizemos contato com as autoridades de lá e a viagem já está autorizada pela SED. Houve, já no ano passado, uma pequena missão para detectar investimentos e trouxemos uma fábrica de tratores que se instalou em Anápolis. Agora, queremos implementar essa relação nas áreas farmacêutica, automotiva e de TI [tecnologia da informação]. O encarregado de negócios da Índia esteve recentemente conosco. Na UEG [Universidade Estadual de Goiás], foram oferecidas oportunidades de intercâmbio para alunos e professores conhecerem o polo indiano em TI, que se tornou referência mundial.

De 2015 para 2016, houve um acréscimo no número de países com os quais Goiás manteve relações comerciais. De 2016 para 2017, também. Foram 154 países só no ano passado. Em 2018, a tendência é que esse número cresça? Quais países podem entrar nessa lista?

Tivemos há duas semanas a visita do embaixador do Azerbaijão, que ainda não tem relações com Goiás e dispõe de um potencial enorme. Também vamos ter a visita de Botswana em breve. Então, a tendência é aumentar esse número. Devido a problemas burocráticos, não realizamos uma missão que já estava programada para a África do Sul, Moçambique e Angola, mas temos a intenção de estreitar laços com alguns países da África, o que pode trazer grandes resultados. É importante dizer ainda queremos nos aproximar mais dos Estados Unidos. A política externa brasileira nos últimos anos nos distanciou dos EUA, especialmente durante os anos do governo Dilma Rousseff (PT).

Em 2017, a Alemanha foi o 2º principal parceiro de Goiás nas exportações e o sr. é cônsul honorário deste país. Como essa proximidade do sr. com a Alemanha ajuda na relação com Goiás?

Hoje, há mais de 1,7 mil empresas alemãs operando no Brasil. Noventa por cento delas em São Paulo. As outras estão, em sua maioria, na Região Sul. O restante do Brasil sempre foi visto distante dos principais portos e aeroportos e com uma infraestrutura mais precária. Isso não dava à Alemanha a certeza de que poderia ser instalada uma grande empresa fora do circuito Sul-Sudeste do País. Com o passar do tempo, essa realidade foi mudando. Em 2003, realizamos, em Goiânia, provavelmente o maior encontro entre Brasil e Alemanha, que contou com a presença de ministros alemães. Um amigo que era presidente da Câmara Brasil-Alemanha do Rio de Janeiro veio me visitar e dar uma palestra da PUC [Pontifícia Universidade Católica], gostou do que viu em Goiânia e daí organizamos esse evento, que foi o maior do âmbito internacional que Goiás já sediou. Tivemos mais de mil empresários alemães e brasileiros e, assim, as portas se abriram mais facilmente.

Posteriormente, fundou-se a Câmara Brasil-Alemanha em Goiás, da qual fui presidente, e, logo depois, veio o consulado em Anápolis. Vamos inaugurar, nos próximos meses, uma fábrica no Daia [Distrito Agroindustrial de Anápolis] chamada Gerresheimer, que vai produzir embalagens para a indústria farmacêutica. Temos também a Shering, que já está atuando em parceria com laboratórios em Anápolis. Estamos trazendo a Alemanha para mais perto de Goiás. Algumas missões de lá já nos visitaram e o governo alemão anunciou recentemente um investimento de 6 bilhões de euros no Brasil em 2018, ou seja, mais uma perspectiva de trazer investimentos da Alemanha para Goiás.

Números que mostram a relevância de Goiás: o rebanho goiano, de 22 milhões de cabeças, é o mesmo da Austrália | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Qual é a fatia das exportações e importações de Goiás na comparação com todo o comércio exterior do Brasil?

Em Goiás, já chegamos a 4% na participação do comércio exterior brasileiro. Pode parecer insignificante, mas estamos em crescimento. Como dito anteriormente, atingimos aproximadamente US$ 7 bilhões em exportações no ano passado. Se voltarmos a 2000, veremos que esse número era de apenas US$ 300 milhões. O crescimento desde então foi extraordinário.

Outra coisa interessante que tenho falado nesses visitas e apresentações de Goiás é a comparação do nosso rebanho, de 22 milhões de bovinos, com o da Austrália, um grande exportador de carne que também tem 22 milhões de cabeças. Esses números mostram a relevância do nosso Estado. A Indonésia depende das exportações de carne australiana. Daí esse esforço para que Goiás exporte para lá. Se a Austrália pode exportar, por que Goiás também não pode?

Mercosul e União Europeia estão prestes a assinar um acordo após quase 20 anos de negociação. Na França, muitos produtores se mostraram contrários. Eles alegam que isso pode quebrar seus respectivos negócios e, além disso, reclamam da fiscalização sanitária do Brasil. Quais são as possíveis consequência desse acordo tanto para os produtores brasileiros quanto para os europeus? Goiás pode ser beneficiado de alguma maneira?

Mesmo sem a presença do Mercosul, sempre houve conflitos, especialmente com a França e a Inglaterra. Os franceses têm um perfil muito protecionista, mas esse acordo está sendo tão bem elaborado durante todos esses anos que é praticamente impossível não ter um consenso e não tem como a França ficar fora. Inevitavelmente, teremos questionamentos constantes da febre aftosa e da qualidade do nosso rebanho. Acredito que vá doer na carne deles, sim. Por outro lado, isso pode beneficiar Goiás, porque vamos ter mercados com uma visão maior de quem somos e o que podemos produzir. É uma questão de adaptação às novas regras.

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