Especialistas sugerem que transferência de votos será baixa nestas eleições

Efeito não acontece da noite para o dia e obedece a observações específicas de quem quer doar voto, de quem vai receber o voto e o tempo que o eleitor tem para entender a troca de candidaturas

A manobra de transferência de votos do PT é considerada arriscada devido ao pouco tempo restante| Foto: Ricardo Stuckert

A manobra de transferência de votos não é um fenômeno simples. Ocorreu algumas vezes na história do Brasil e a maneira como se deu pode ser instrutiva em relação ao que pode vir a ocorrer nas eleições de 2018. São duas as transferências de voto mais conhecidas da história do Brasil: o apoio de Getúlio Vargas ao general do Exército Eurico Gaspar Dutra, que definiu o resultado da eleição de 1945, e o apoio de Leonel Brizola a Luiz Inácio Lula da Silva, que definiu a transferência de votos no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul durante o segundo turno das eleições de 1989.

Na história recente, o Brasil assistiu ao ex-presidente Lula da Silva (PT) transferir, em 2010, parte de seu eleitorado a então candidata ao Planalto Dilma Rousseff (PT) de forma suficiente para colocá-la no gabinete mais importante do Executivo. Lula da Silva também conseguiu transferir parte de seu eleitorado para eleger Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo em 2012, considerado pelo professor emérito de Ciência Política da Universidade de Brasília, David Fleischer, como o segundo “poste” eleito por Lula.

O presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos no Distrito Federal (Abcop-DF), Alexandre Bandeira, explica que a façanha de transferir votos ocorre ao observar três cenários: quem doa os votos, quem recebe os votos e o tempo que o partido tem para comunicar ao eleitor a mudança de candidato. E a transferência pode atender a dois aspectos: o positivo e o negativo, ou seja, o político doador pode ceder tanto a imagem positiva dele ao receptador ou quanto a rejeição, que seria a carga negativa.

Bandeira exemplifica o lado negativo com a campanha presidencial do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), afilhado político do presidente Michel Temer (MDB). “Meirelles, por precaução, não levou Temer para sua campanha para não herdar o peso do presidente”, ressalta o cientista político.

Na visão do Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e historiador da Universidade Federal de Goiás (UFG), Nars Fayad Chaul, os cenários políticos atuais precisam de avaliação diferente da história política brasileira. “Não dá mais para pensar eleição no Brasil sob a ótica comum das últimas eleições. O motor de mudança na sociedade foram as redes sociais, que não existiam há alguns anos e, diariamente, as pessoas são bombardeadas por conteúdos”, analisa Chaul. As exceções apontadas pelo historiador estão nos bolsões políticos tradicionais do Nordeste brasileiro. “Lá, ainda é possível pensar em transferência de voto em algum grau, mas, de forma geral, as pessoas estão informatizadas e o voto mudou muito nesta eleição”.

Em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, a transferência de votos serão esquecidas pelos publicitários eleitorais, como estima Chaul a partir do resultado da eleição deste ano. “Neste momento, afirmo que não acontecerá mais alienação de votos, principalmente à Presidência da República. É chutômetro defender algo nessa perspectiva”, reforça o docente.

Em Goiás, Chaul garante que não haverá transição de eleitorado para os candidatos ao Palácio das Esmeraldas. “Maguito Vilela e Iris Rezende não conseguirão ajudar Daniel Vilela neste pleito. Marconi Perillo também não conseguirá ajudar o governador José Eliton ou o ajudará timidamente. Como Lula não transfere voto para o sucessor presidencial, a candidata em Goiás também não será agraciada como espera”, arremata Fayad.

Outro quadro crítico para analisar, segundo Chaul, é a quantidade expressiva de eleitores indecisos em Goiás — beira os 60% nas últimas pesquisas quantitativas de diversos institutos. “Um candidato já tem 40% da intenção de voto e outros dois estacionaram em 10%. É muito difícil avaliar a conjuntura goiana.”

Professor emérito de Ciência Política da UnB, o cientista político David Fleischer observa a disputa presidencial com mais cautela, já que apenas um candidato tem um patrono político — Fernando Haddad. “Jair Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles estão sozinhos. Não tem ninguém de significância política para pegar na mão deles e pedir voto. O Lula ainda tem redutos eleitorais e pesquisas mostraram já que ele deve levar o Haddad ao segundo turno”, avalia. A influência eleitoral de Lula da Silva na campanha petista poderá, para Fleischer, acontecer em menor incidência, dada a condição de presidiário do petista, mas o ex-presidente ainda tem capacidade de ajudar “postes” a chegar ao poder.

David Fleischer, Alexandre Bandeira e Nasr Chaul | Fotos: Divulgação

O precedente de 2010

Os dirigentes petistas que apostam em uma transferência de votos integral de Lula da Silva para seu substituto citam a eleição de 2010 como um precedente que confirmaria a tese.

Naquele momento, om ex-presidente quase elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, ainda no primeiro turno. As intenções de voto de Dilma foram subindo mês a mês à medida em que ficava claro para o grande público que ela era o nome escolhido por Lula da Silva. Seu principal opositor, José Serra (PSDB), registrava movimento oposto nas pesquisas.

No entanto, os percentuais de intenções de voto em Dilma e de eleitores que diziam desejar votar no candidato de Lula da Silva só se encontraram em agosto de 2010, quando teve início a propaganda eleitoral gratuita na televisão.

Àquela altura, já fazia ao menos dois anos que Lula viajava com Dilma a tiracolo, chamando-a de “mãe do PAC”, o megaprograma de infraestrutura da gestão petista.

“Havia mais de um ano que não pairava dúvida sobre o fato de que ela seria a candidata do PT no pleito e fazia mais de um mês que a então ministra estava oficialmente registrada como a presidenciável petista. Isso sugere que o eleitor pode levar algum tempo para depositar o voto no candidato que realmente deseja”, diz Alexandre Bandeira.

A manobra de transferência de votos do PT é considerada arriscada devido ao pouco tempo restante. “O Lula de hoje não tem mais os 42% de aprovação da sociedade quando deixou o Planalto. Transferir votos não se faz da noite para o dia. A tática do PT de segurar o Lula candidato foi muito arriscada e a preocupação é se ele vai conseguir ajudar Haddad e Manuela [candidata a vice] em tão pouco tempo”, explica Bandeira.

Em meados de 2006, Lula da Silva ainda era o presidente mais popular da história, com mais de 80% de aprovação, tinha o controle da máquina da União e podia fazer campanha abertamente na TV e em viagens pelo país. O marqueteiro da equipe publicitária do PT, João Santana, gravava imagens com qualidade cinematográfica de Lula da Silva e Dilma para levar à TV.

Agora preso, o ex-presidente está proibido de gravar vídeos ou subir em palanques. Há intensa controvérsia entre dirigentes do PT sobre se o ex-presidente deixou material filmado indicando sucessores antes de ir para a cadeia.

Nos últimos dias, as páginas sociais de Lula têm divulgado conteúdo audiovisual inédito do petista, em que o político se diz vítima de perseguição e explica sua conexão com o povo mais pobre. Em nenhum deles, no entanto, há pistas sobre sucessão. O diretório nacional do PT não confirma oficialmente se tais vídeos existem.

Dá tempo de transferir voto?

Ao contrário da estratégia adotada em 2010, o PT jogará, desta vez, contra o tempo. Se há oito anos Lula da Silva se esforçou para indicar sua sucessora meses antes do início da campanha — para torná-la conhecida e facilitar a transferência de votos —, Fernando Haddad não terá seu patrono lado a lado nas ruas e palanques.

O eleitor tem pouco mais de 20 dias para ser informado de que Lula não é mais candidato e que o PT oferece um substituto. “Qual é o ponto favorável dessa situação? Tirando o Bolsonaro, temos entre Ciro Gomes e Geraldo Alckmin uma diferença pequena de intenção de voto e o Haddad entrou nesse bolo. Pode ser que, por essa diluição de votos, dê para jogar o Haddad no segundo turno. O Lula não precisa transferir todo o seu potencial de voto”, cogita Bandeira.

Para dar certo essa engenharia de transferência de votos, não precisa de muito esforço, já descartando a turma do terceiro pelotão na disputa, que inclui Meirelles e os candidatos abaixo de 3% de intenção de voto, sugere o cientista político. “A pesquisa do BTG/Pactual confirma que 20% dos eleitores do Lula votariam em qualquer candidato indicado por ele, mas o índice seguro de alienação dos votos deve ser entre 7% e 8%. O Lula é maior do que o PT hoje. Se os votos dele integrarem a cesta de voto do Haddad, ele poderá estar no segundo turno com Bolsonaro.”

O eleitorado de Lula da Silva é basicamente composto por dois blocos, cada um deles com modos específicos de se orientar na hora de votar. Uma parte é o eleitor petista, que tem identificação com as pautas e propostas da legenda. A depender da pesquisa analisada, entre 16% e 19% dos eleitores brasileiros indicam ter simpatia pelo PT. Nesse grupo, o realinhamento de apoio para qualquer outro candidato petista seria mais facilmente assimilado.

A segunda parte do eleitorado são os lulistas: brasileiros de baixa renda e baixa escolaridade, de pequenas e médias cidades e que, no geral, experimentaram alguma ascensão social durante a gestão do petista. “Para além do partido, o Lula tem um eleitorado mais pessoal, que não necessariamente se alinha a questões partidárias”, explica Nasr Chaul. O historiador da UFG acredita que o ex-presidente cederá apenas os votos fiéis ao PT — os pessoais não serão transferidos.

Para tentar reduzir a imprevisibilidade dos eleitores não filiados ao petismo, o partido tenta se colocar como mediador entre Lula da Silva e o eleitor. Como o ex-presidente está preso e incomunicável, cabe ao partido denunciar as supostas perseguições contra Lula e mantê-lo em evidência. Gleisi Hoffmann, presidente da legenda, e os demais dirigentes falam continuamente em nome do ex-presidente. Com isso, o partido busca colar a imagem de Lula da Silva à sua imagem institucional, avalia Bandeira.

A transferência da transferência

Vencedor das últimas quatro eleições presidenciais, o PT precisa ao menos chegar ao segundo turno em 2018 para evitar o que dirigentes da sigla, como Jacques Wagner (BA), chamam de “tragédia” e manter sua hegemonia do campo da esquerda.

“O PT é um partido majoritário no campo da esquerda. Abrir mão desse protagonismo que tem hoje seria abrir mão de sua própria história”, explica o cientista político David Fleischer.

Isso explica por que o partido é tão refratário a conversas com lideranças de centro-esquerda, como Ciro Gomes (PDT), que poderiam tirar do PT a primazia sobre a agenda no campo.

Em um cenário com Bolsonaro e Marina no segundo turno, por exemplo, Haddad tem afirmado reservadamente que abriria mão da candidatura em favor do candidato esquerdista mais bem colocado nas pesquisas. Jaques Wagner já afirmou publicamente que o PT deveria abraçar “um dos candidatos que estão aí”, sem necessariamente indicar um nome.

Para David Fleischer, essa seria uma tentativa da transferência da transferência, ou seja, transferir votos petistas a outro candidato num segundo turno sem PT. “É difícil, mas pode acontecer em grau baixo para desidratar o candidato do outro espectro político.”

Alexandre Bandeira acrescenta que Jair Bolsonaro é uma espécie de Lula da Silva. “Ainda filhote, mas é. Ele caminha para tomar proporções eleitorais maiores e mais densas e um dia, quem sabe, transferir votos aos seus sucessores.”

Em qualquer cenário, os especialistas avaliam que a transferência de eleitorado nunca é totalitária. “Ninguém consegue despejar todo o seu potencial de votos para o indicado”, conclui Bandeira. O cientista político aposta que a campanha de Bolsonaro continuará como a de Lula da Silva — recluso no hospital Albert Eistein para se recuperar do atentado — e por meio de seus porta-vozes: os filhos gerindo as redes sociais, o candidato a vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), na campanha de rua e o senador Magno Malta (PR-ES) transitando no ambiente político a seu favor.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.