Especialistas alertam para risco de jovens passarem tempo demais conectados

Autoridades dão dicas de medidas que podem evitar prejuízos à educação, saúde e segurança dos filhos

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Jovens e suas famílias não medem os riscos da exposição excessiva ao uso de dispositivos eletrônicos | Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

O Brasil tem dois dispositivos eletrônicos (celulares, computadores, tablets) por habitante, segundo a 30ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas. Enquanto 70% da média da população está conectada à internet, esse percentual dentro do grupo de crianças e adolescentes sobe para 86% do total. São 24,3 milhões de jovens com idade entre 9 e 17 anos que acessam a rede, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, publicada em 2019 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil.

O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), “Los niños y niñas de la brecha digital en España” (os meninos e meninas da abertura digital na Espanha), revela que o acesso crianças à internet está acontecendo cada vez mais cedo. Adolescentes de 15 e 16 anos de idade começaram a usar a rede digital quando tinham 10 anos; e crianças atualmente com 10 anos iniciaram a prática com 7 anos. O relatório também aponta que, todos os dias, mais de 175 mil crianças acessam a internet pela primeira vez no mundo. 

Naturalmente, surge a preocupação se as novas mídias digitais causam prejuízo social, psicológico ou à saúde dos jovens. Os especialistas entrevistados afirmam que, como a geração mais recente nasceu depois da popularização dos smartphones, esses dispositivos não são nem ao menos percebidos como novas tecnologias pelos jovens. Entretanto, todos concordam as novas tecnologias são novas no sentido de que seus efeitos no desenvolvimento do comportamento e do corpo estão sendo descobertos agora, de forma que participamos uma espécie de um grande experimento para observar os efeitos da tecnologia na formação das pessoas. 

Velha preocupação

A preocupação dos mais velhos quanto aos efeitos nocivos das inovações existe desde que o avanço da ciência propiciou mudanças num ritmo acelerado, que podem ser percebidas dentro do período de uma vida. Segundo o Dr. Raphael Cardoso, psicólogo professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), estuda-se os efeitos das mídias desde a década de 1920, quando havia receio nos Estados Unidos com jovens que frequentavam o cinema. O temor com efeitos negativos no desenvolvimento de crianças ganhou nova força e novas publicações mais tarde, com a popularização da televisão.

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Psicólogo Raphael Cardoso afirma que sempre houve preocupação com exposição dos jovens à novas mídias, mas as mudanças tecnológicas que vemos têm suas particularidades | Foto: Reprodução

Entretanto, Raphael Cardoso, que investiga o tema com sua pesquisa Impacto da Tecnologia Digital no Desenvolvimento Infantil e coordena o Projeto APP (Aplicativo Primeiros Passos), afirma que vemos uma mudança inédita, diferente das passadas porque tem como uma de suas características a interatividade. O psicólogo afirma: “Atualmente, pode-se consumir o que quiser quando quiser. Esse aspecto é bastante novo. Com essas novas tecnologias, consegue-se colocar crianças cada vez mais jovens como consumidoras, essa é uma preocupação ética recente”.

Quanto a questão de saber se há ou não prejuízos das tecnologias à saúde, Raphael Cardoso responde: “existe uma série de pesquisas que apontam efeito deletério, especialmente no desenvolvimento da atenção e autocontrole ligada à primeira infância”. Existem duas hipóteses que explicam o prejuízo observado nestas áreas, concordando que o dano tem relação entre exposição à mídias de tela interativa em geral na primeira infância. 

A hipótese de deslocamento afirma que muito tempo envolvido com essas mídias resulta em menor tempo dedicado à atividades for a de tela, atividade físicas e interação social, por exemplo. Nesta etapa da primeira infância, o cérebro está em formação e necessita de diversas formas de estimulação, dependo da qualidade de experiências. Já a hipótese de sobrecarga cognitiva justifica que a mídia de tela afetaria negativamente o desenvolvimento cognitivo devido a estimulação excessiva, típica das novas tecnologias. Na primeira infância, o cérebro não estaria preparado para processar simultaneamente informação de diversas modalidades e fontes.

Entre adolescentes também existem riscos, mas a associação entre o tempo de tela e o prejuízo do bem estar psicológico é mais fraca. “Não é um efeito geral, alguns adolescentes, na verdade, terão benefícios com o uso da tecnologia”, afirma Raphael Cardoso. “Mas existe o que chamamos de prejuízo ao bem estar psicológico. Não é depressão, mas sintomas depressivos, como a apatia, o estresse, o prejuízo na avaliação da auto imagem. Apresentam maiores risco de serem prejudicados com uso excessivo de tecnologia aqueles que já sofrem com um aspecto negativo em sua vida social, como o bullying”, relata. 

Novos problemas

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Estudo de Sabrina Leles revela que proporção significativa de jovens sofre com crimes cibernéticos | Foto: Reprodução

Os potenciais riscos oferecidos por outras pessoas a que jovens se sujeitam quando acessam à rede geram dados mais assustadores. O artigo “Adolescentes como vítimas potenciais para crimes cibernéticos”, escrito por Sabrina Leles de Lima Miranda, revela que, do total de 1291 adolescentes entrevistados nas escolas públicas e privadas de Caldas Novas-GO, de 12 a 18 anos, uma proporção assustadora de jovens entrevistados já foi assediada ou sofreu com crimes cibernéticos. 

Sabrina Leles, que é a delegada titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos de Goiás (DERCC), averiguou que 38.3% dos jovens já recebeu pedido para enviar imagens nuas pela internet; 32.6% conheceu outro jovem que já tenha sido ameaçado de ter suas imagens nuas divulgada na internet; 27.8% já recebeu ou enviou mensagens com conteúdo ofensivo; e 10.6% já recebeu proposta pela internet para se cortar. 

Em seu artigo, a delegada não se limitou a apontar os perigos que jovens correm na internet, mas apontou também características comuns entre os que foram importunados e o que se pode fazer para controlar os assédios. “A questão nevrálgica é a omissão dos responsáveis familiares que, por vontade própria ou por negligência, não observam o conteúdo acessado na Internet por seus adolescentes, potencializa as possibilidades de torná-los alcançáveis pelos autores de cibercrimes”, afirma Sabrina Leles. 

Os pais ou responsáveis de 60.5% dos entrevistados não têm a senha de desbloqueio do smartphone dos jovens; e 63.4% dos pais ou responsáveis não fiscalizam sites ou conteúdos que acessados pelos filhos de forma alguma. “Familiares, nem ao menos possuem conhecimento do que está ocorrendo contra aquele jovem”, afirma ela. “Familiares que, por vontade própria ou por negligência, não observam o conteúdo acessado na Internet por seus adolescentes potencializam as possibilidades de torná-los alcançáveis pelos autores de cibercrimes.”

A principal razão elencada pelos responsáveis para não acompanhar a vida que seus filhos levam na internet é o desconhecimento dos meios digitais onde circulam. Raphael Cardoso admite que os pais geralmente têm controle até os 8 anos de idade dos filhos, pois, após os 11, o tempo de uso desses dispositivos praticamente triplica. “É realmente uma dificuldade dos pais, o pessoal diz que o gênio não volta para a garrafa. Proibir é muito difícil. Mas os pais podem estabelecer programas familiares sobre o uso dentro de casa”, afirma o pesquisador.

Raphael Cardoso ressalta que o mais importante sobre um programa de normas é que os pais também se enquadrem nele. Caso seja estabelecido um acordo familiar de não utilizar o celular durante as refeições, os próprios pais têm de evitar seu uso durante nestes momentos também. “Pode haver um acordo para o uso ser feito num local comum da casa, principalmente para pré adolescentes. Então a dica é elaborar regras de uso da tecnologia claramente”, afirma Raphael Cardoso. “Até porque há evidências de efeitos deletérios também pela tecno interferência – isto é, quando seu filho está conversando contigo e você pára a conversa para checar o smartphone. Tem sido demonstrado que isso reduz a interação pais-e-filhos.”

Ameaça ou ferramenta

Colégio incorpora novas tecnologias como método de ensino | Foto: Reprodução / Cortesia Colégio Agostiniano

Como a escola não é exceção ao restante da sociedade, os conflitos geracionais e as mudanças que chegam com novos hábitos dos jovens estão lá também. Thiago Pinheiro, coordenador pedagógico do ensino médio no Colégio Agostiniano,  afirma que a escola teve de se adaptar aos novos tempos: “Não cabe mais pensar como antes, se o ensino era melhor ou pior. A realidade mudou. Não temos a opção de pensar a aprendizagem em um modelo antigo”.

Na prática, Thiago Pinheiro relata que, no Colégio Agostiniano, nos ensinos Infantil e Fundamental 1 (1º a 5º ano), são poucos os alunos que têm celular, e aqueles que levam têm de manter o aparelho desligado até o fim das aulas. No Fundamental 2 (6º ao 9º ano) e Ensino Médio, o instrumento pode ser utilizado para atividades pedagógicas; caso contrário, não pode ser utilizado em sala de aula. É permitido, entretanto, durante o recreio e intervalos de aula.

A instituição já experimentou modelos diferentes desde a popularização dos aparelhos. “Sete anos atrás, considerávamos seu uso dentro do Colégio uma falta disciplinar”, afirma o coordenador. “Mas ele assumiu diversas funcionalidades que não apenas a de comunicação, então mudamos por considerar alguns momentos adequados, em outros deixamos evidente que não se pode utilizar o celular. Isso deixou nossas normas mais eficientes porque anteriormente, quando puníamos jovens utilizando o aparelho durante o recreio, a regra disciplinar era banalizada e isso não contribuía com nosso intuito de manter a concentração nas aulas. Então nos adaptamos e mudamos.”

Thiago Pinheiro afirma que vantagem de inovações pedagógicas compensam aspectos negativos | Foto: Reprodução

Além das regras que dizem respeito a comportamento, Thiago Pinheiro conta que diversas outras iniciativas foram abraçadas pela escola: “Temos uma plataforma digital onde postamos aulas, tarefas, informações para os pais. Não é coisa exótica, faz parte do nosso cotidiano”. O laboratório de informática que existia desde meados da década de 1990 foi substituído por Chrome Books, todas as salas têm quadros digitais, há acesso à internet para o professor. Mais importante ainda, os professores aprenderam a utilizar a ferramenta com propósitos pedagógicos.

“A maioria dos professores têm aulas em versões virtuais, têm exemplos de vídeos ou interativos colhidos da internet”, explica Thiago Pinheiro. “Antes, o professor de biologia gastava um tempão desenhando a célula com suas estruturas, hoje podemos puxar a imagem real da internet. Isso tudo influencia para que as aulas sejam otimizadas com as possibilidades que o digital oferece. “O aluno está mais autônomo, tem mais possibilidade de procurar solucionar suas dúvidas, aprofundar nos seus assuntos de interesse, se fortalecer por meio dessa autonomia”, diz o educador.

O que fazer

Apesar de não ser simples, existem métodos para responsáveis terem maior participação e consciência das atividades dos filhos na internet. Raphael Cardoso enumera algumas estratégias: se preocupar com conteúdo de qualidade, que geralmente é pago; evitem ao máximo o uso solitário da tecnologia pelas crianças; e não utilizar dispositivos como apaziguador. “Quando se entrega a tecnologia para a criança ficar quieta, você tira a chance dela aprender a ter autocontrole. Não há treinamento do controle com a mera distração. O ideal é ensinar a criança a esperar ou inibir uma birra em função de consequência futura que não está presente”, afirma o psicólogo.  Raphael Cardoso ressalta que o uso de telas antes de dormir prejudica a qualidade do sono.

Sabrina Leles de Lima Miranda advoga a necessidade de realização de campanhas públicas de conscientização e prevenção aos crimes cibernéticos, tanto para crianças quanto para adolescentes, buscando a atenção de seus responsáveis familiares e educadores. Além disso, a Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos de Goiás (DERCC) tem uma lista de dicas para evitar que crianças e adolescentes se tornem vítimas de conteúdos criminosos na Internet. Segundo a DERCC, os pais e/ou responsáveis devem:

  • Possuir amplo acesso ao conteúdo virtual acessado por crianças e adolescentes;
  • Verificar quais os nomes dos grupos ou dos perfis que suas crianças seguem nas redes sociais;
  • Alertar suas crianças e adolescentes que, no caso de se depararem com jogos, vídeos, imagens, áudios ou mensagens escritas, que contenham ameaças contra sua segurança ou contra a segurança de seus familiares, as vítimas devem imediatamente informar aos pais e/ou responsáveis para que os mesmos possam ajudá-las a se livrar das ameaças;
  • Estar atentos e orientarem suas crianças e adolescentes a não manterem contato virtual com pessoas desconhecidas, nem mesmo quando o outro perfil seja apresentado como sendo de outra criança ou adolescente;
  • Lembrar que, em regra, os aplicativos e sites para acesso a vídeos, imagens ou áudios virtuais, possuem opção para filtros que selecionam os programas a serem exibidos de acordo com a faixa etária;
  • Monitorar mudanças de comportamento de crianças e adolescentes, tais como medo de ficar sozinho, medo de perseguição ou aversão ao acesso da Internet;
  • Não permitir que crianças e adolescentes se fechem em seus quartos para acessarem a Internet;
  • E, por último, no caso de se verificar que a criança ou adolescente já se tornou vítima de algum criminoso virtual:
  1. a) Em se tratando de crime praticado através de redes sociais, o primeiro passo é salvar a URL do perfil do criminoso, printar as mensagens e imediatamente procurar pela Delegacia de Polícia mais próxima de sua residência;
  2. b) Em se tratando de crime praticado através de jogos eletrônicos ou por vídeos, imagens ou áudio, deve-se preservar o conteúdo ilícito e procurar pela Delegacia de Polícia mais próxima de sua residência.

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