É improvável, mas Golias não era o favorito em sua batalha contra Davi

Livro de Malcolm Gladwell narra, por meio de histórias adversas, como o pastor de ovelhas venceu o gigante filisteu. Obra mostra o modo como o mundo é alterado por pessoas que venceram grandes desafios

Representação clássica da batalha entre o pastor Davi e o gigante Golias não é, segundo o  escritor inglês Malcolm Gladwell, exatamente real

Representação clássica da batalha entre o pastor Davi e o gigante Golias não é, segundo o escritor inglês Malcolm Gladwell, exatamente real

Marcos Nunes Carreiro

No centro da antiga Pa­lestina se concentra a região conhecida co­mo Sefelá, uma série de cadeias montanhosas e vales, que li­gam as montanhas da Judeia a leste com a ampla extensão da planície me­diterrânea. Uma área de extrema beleza e importância estratégica, pois os vales guiam os moradores do litoral às cidades de Hebron, Be­lém e Jerusalém. Por isso, inúmeras batalhas foram travadas pelo controle do local ao longo dos séculos.

O vale mais importante é o Ai­ja­lon, ao norte. Mas não é o mais cé­le­bre. Essa característica fica reservada ao vale de Elá: onde o Sa­ladino enfrentou os Cavaleiros Cru­zados no século XII; que desempenhou pa­pel central na guerra entre ma­cabeus e sírios; e onde Israel en­fren­tou o exército dos filisteus. Me­lhor dizendo, onde o pastor de ovelhas Davi derrotou o guerreiro Golias.

Os filisteus eram de Creta, mas haviam se mudado para a costa palestina. Os israelitas, sob a liderança do rei Saul, estavam reunidos nas montanhas. Guerreiros habilidosos e inimigos juramentados dos israelitas, os filisteus começaram a marchar para o leste, seguindo rio acima ao longo do vale de Elá com o objetivo de capturar a cadeia de montanhas perto de Belém e, assim, dividir o reino de Israel em dois.

O rei Saul sabia disso e, apreensivo, mandou reunir seus homens e desceu as montanhas para enfrentar os filisteus, que levantaram acampamento ao longo da cadeia ao sul de Elá. Os israelitas, ao contrário, armaram suas tendas do lado contrário, também nas montanhas. Essa disposição deixou os dois exércitos olhando diretamente um para o outro através da ravina, mas nenhum ousou se mexer, uma vez que subir a montanha contrária significava suicídio.

Finalmente, os filisteus se cansaram e mandaram seu maior guerreiro descer para resolver o impasse cara a cara. A partir daqui, deixo a narrativa para a própria Bíblia:

“Um guerreiro chamado Golias, que era de Gate, veio do acampamento filisteu. Tinha dois metros e noventa centímetros de altura. Ele usava um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas de bronze que pesava sessenta quilos; nas pernas usava caneleiras de bronze e tinha um dardo de bronze pendurado nas costas. A haste de sua lança era parecida com uma lançadeira de tecelão, e sua ponta de ferro pesava sete quilos e duzentos gramas. Seu escudeiro ia à frente dele.

“Golias parou e gritou às tropas de Israel: ‘Por que vocês estão se posicionando para a batalha? Não sou eu um filisteu, e vocês os servos de Saul? Escolham um homem para lutar comigo. Se ele puder lutar e vencer-me, nós seremos seus escravos; todavia, se eu o vencer e o puser fora de combate, vocês serão nossos escravos e nos servirão’. E acrescentou: ‘Eu desafio hoje as tropas de Israel! Mandem-me um homem para lutar sozinho comigo’.

“Ao ouvirem as palavras do filisteu, Saul e todos os israelitas ficaram atônitos e apavorados. Davi era filho de Jessé, o efrateu de Belém de Judá. Jessé tinha oito filhos e já era idoso na época de Saul. Os três filhos mais velhos de Jessé tinham ido para a guerra com Saul: Eliabe, o mais velho; Abinadabe, o segundo; e Samá, o terceiro. Davi era o caçula. Os três mais velhos seguiram Saul, mas Davi ia ao acampamento de Saul e voltava para apascentar as ovelhas de seu pai, em Belém. Durante quarenta dias o filisteu aproximou-se, de manhã e de tarde, e tomou posição. Nessa ocasião Jessé disse a seu filho Davi: ‘Pegue uma arroba de grãos tostados e dez pães e leve-os depressa a seus irmãos no acampamento. Leve também estes dez queijos ao comandante da unidade deles. Veja como estão seus irmãos e traga-me alguma garantia de que estão bem. Eles estão com Saul e com todos os homens de Israel no vale de Elá, lutando contra os filisteus’.

“Levantando-se de madrugada, Davi deixou o rebanho com outro pastor, pegou a carga e partiu, conforme Jessé lhe havia ordenado. Chegou ao acampamento na hora em que, com o grito de batalha, o exército estava saindo para suas posições de combate. Israel e os filisteus estavam se posicionando em linha de batalha, frente a frente. Davi deixou o que havia trazido com o responsável pelos suprimentos e correu para a linha de batalha para saber como estavam seus irmãos.

“Enquanto conversava com eles, Golias, o guerreiro filisteu de Gate, avançou e lançou seu desafio habitual; e Davi o ouviu. Quando os israelitas viram o homem, todos fugiram cheios de medo. Os israelitas diziam entre si: ‘Vocês viram aquele homem? Ele veio desafiar Israel. O rei dará grandes riquezas a quem o vencer. Também lhe dará sua filha em casamento e isentará de impostos em Israel a família de seu pai’.

“Davi perguntou aos soldados que estavam ao seu lado: ‘O que receberá o homem que matar esse filisteu e salvar a honra de Israel? Quem é esse filisteu incircunciso para desafiar os exércitos do Deus vivo?’ Repetiram a Davi o que ha­viam comentado e lhe disseram: ‘É isso que receberá o homem que matá-lo’.

As palavras de Davi chegaram aos ouvidos de Saul, que o mandou chamar. Davi disse a Saul: ‘Ninguém deve ficar com o coração abatido por causa desse filisteu; teu servo irá e lutará com ele’. Respondeu Saul: ‘Você não tem condições de lutar contra esse filisteu; você é apenas um rapaz, e ele é um guerreiro desde a mocidade’. Davi, entretanto, disse a Saul: ‘Teu servo toma conta das ovelhas de seu pai. Quando aparece um leão ou um urso e leva uma ovelha do rebanho, eu vou atrás dele, dou-lhe golpes e livro a ovelha de sua boca. Quando se vira contra mim, eu o pego pela juba e lhe dou golpes até matá-lo. Teu servo pôde matar um leão e um urso; esse filisteu incircunciso será como um deles, pois desafiou os exércitos do Deus vivo’.

“Diante disso Saul disse a Davi: ‘Vá, e que o Senhor esteja com você’. Saul vestiu Davi com sua própria túnica, colocou-lhe uma armadura e lhe pôs um capacete de bronze na cabeça. E disse a Saul: ‘Não consigo andar com isto, pois não estou acostumado’. Então tirou tudo aquilo e em seguida pegou seu cajado, escolheu no riacho cinco pedras lisas, colocou-as na bolsa, isto é, no seu alforje de pastor, e, com sua atiradeira na mão, aproximou-se do filisteu.

“Enquanto isso, o filisteu, com seu escudeiro à frente, vinha se aproximando de Davi. Olhou para Davi com desprezo, viu que era só um rapaz, ruivo e de boa aparência, e fez pouco caso dele. Disse ele a Davi: ‘Por acaso sou um cão, para que você venha contra mim com pedaços de pau?’ E o filisteu amaldiçoou Davi, invocando seus deuses, e disse: ‘Venha aqui, e darei sua carne às aves do céu e aos animais do campo!’. Davi, porém, disse ao filisteu: ‘Você vem contra mim com espada, com lança e com dardos, mas eu vou contra você em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem você desafiou. Hoje mesmo o Senhor o entregará nas minhas mãos, eu o matarei e cortarei a sua cabeça. Todos os que estão aqui saberão que não é por espada ou por lança que o Senhor concede vitória; pois a batalha é do Senhor, e ele entregará todos vocês em nossas mãos’.

“Quando o filisteu começou a vir na direção de Davi, este correu para a linha de batalha para enfrentá-lo. Tirando uma pedra de seu alforje, arremessou-a com a atiradeira e atingiu o filisteu na testa, de tal modo que ela ficou encravada, e ele caiu, dando com o rosto no chão. Assim Davi venceu o filisteu com uma atiradeira e uma pedra; sem espada na mão, derrubou o filisteu e o matou. Davi correu, pôs os pés sobre ele, e, desembainhando a espada do filisteu, acabou de matá-lo, cortando-lhe a cabeça com ela.

Quando os filisteus viram que o seu guerreiro estava morto, recuaram e fugiram.”

A história narrada no capítulo 17 do primeiro livro de Samuel, no Velho Testamento, é o ponto central utilizado por Malcolm Gladwell em seu livro “Davi e Golias: A Arte de Enfrentar Gigantes”. O título, assim como as palavras iniciais da obra, dão a impressão de que se trata de um livro de autoajuda –– além disso, o trabalho foi publicado no Brasil pela Editora Sextante, que publica os livros de Paulo Coelho. Um erro, uma vez que o livro é inteligentemente escrito, além de ser um trabalho de pesquisa, leitura e incontáveis entrevistas. O inglês Gladwell é colunista da “The New Yorker”, uma das revistas de maior prestígio intelectual do mundo.

Davi e Golias é um clássico que mostra que nem sempre o maior e mais forte vence. Porém, para Gladwell, a história de superação de Davi não foi tão grande assim. Aliás, segundo ele, quem estava em desvantagem na luta era Golias. Narrarei algumas histórias para introduzir o argumento de Glad­well a respeito do assunto. No final, as razões para a diferença entre Gladwell e a interpretação que usualmente se faz da história bíblica serão apresentadas.

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É possível dizer que “Impressão, Nascer do Sol” (“Impression, soleil levant” no original em francês), de Claude Monet (direita), deu origem à escola impressionista que marcou época na arte moderna

Como pintores mudaram a arte mundial

Há 150 anos, quando Paris era o centro do mundo da arte, um grupo de pintores costumava se reunir toda noite no Café Guerbois, no bairro de Bati­g­nolles. Seu líder era Édouard Manet. Tratava-se de um dos membros mais velhos e consagrados do grupo, um homem bonito e gregário, com 30 e poucos anos, que trajava a última moda e cuja energia e humor encantavam todos à sua volta. O amigo mais próximo de Manet era Edgard Degas, um dos pou­co capazes de competir com ele. Os dois tinham um espírito ar­dente e uma língua ferina e às ve­zes partiam para discussões a­cirradas. Paul Cézanne, alto e rude, costumava aparecer e sentar-se, taciturno, no canto, suas calças sustentadas por um barbante.

Participavam das reuniões também: Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pis­sar­ro, etc. Dá para imaginar o nível das conversas? Acontece que praticamente nenhum marchand estava interessado nos quadros desses pintores. Quando os críticos de arte mencionavam os impressionistas –– e havia um pequeno exército de críticos de arte em Paris na década de 1860 –– era quase sempre para depreciá-los. Manet e seus amigos sentavam-se no sombrio Guerbois, bebiam, comiam e discutiam política literatura, arte e, mais especificamente, suas carreiras. Todos os impressionistas se defrontavam com uma questão crucial: o que deveriam fazer em relação ao Salon.

Arte era um assunto importante na França do século XIX e a pintura era uma profissão nos mesmos padrões que medicina ou direito exercem hoje. E o pináculo de um pintor era conseguir um espaço no Salon, a mais importante exposição de arte de toda a Europa. Anualmente, cada pintor da França submetia duas ou três de suas melhores telas a uma banca examinadora de especialistas. Artistas do mundo inteiro empurravam seus carrinhos de mão repletos de telas pelas ruas calçadas com pedras de Paris, levando suas obras ao Palais de l’Industrie, um salão de exposições construído para a Feira Mundial de Paris, entre a Champs-Élysées e o Sena.

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Claude Monet

O Salon era a exposição de arte mais importante do mundo e todos no Guerbois concordavam com isso. Mas ser aceito por ele tinha seu preço: exigia criar o tipo de arte que não consideravam significativa –– com cenas da história francesa, cavalos, mulheres bonitas meticulosamente pintadas, etc. –– e ainda corriam o risco de se perder em meio a profusão de trabalhos dos outros artistas. Assim, a grande discussão em voltas das mesas de mármore do Guerbois era: continuar batendo às portas do Salon ou criar sua própria exposição? Isto é, “eles queriam ser um Peixe Pequeno na Lagoa Gran­de do Salon ou um Peixe Grande na Lagoa Pequena escolhida por eles?”, pergunta Gladwell.

No fim, os impressionistas fizeram a melhor escolha para eles: acharam um espaço no Boulevard des Capucines e inauguraram sua própria exposição no dia 15 de abril de 1874. Durou um mês e foi vista por 3.500 pessoas, sendo 175 apenas no primeiro dia. Havia 165 obras expostas, incluindo três Cézannes, dez Degas, nove Monets, cinco Pissarros, seis Renoirs, etc. Na história da arte moderna, não houve uma exposição mais importante e, por isso, as obras desses pintores estão expostas nos principais museus atualmente.

Essa história foi narrada por Gladwell em seu livro com o objetivo de traçar o problema do “Peixe Pequeno na Lagoa Gran­de versus Peixe Grande na La­goa Pequena”. “A lição dos im­pres­sionistas”, diz o escritor es­ta­du­nidense, “é que existem ocasiões e lugares em que é melhor ser um Peixe Grande em uma Lagoa Pequena do que um Peixe Pe­que­no em uma Lagoa Gran­de. Pis­sarro, Monet, Renoir e Cé­zanne pesaram o prestígio e visibilidade, seletividade e liberdade, e concluíram que os custos da Lagoa Grande eram altos demais”.

Uma história bastante semelhante à de Davi e Golias, assim como a do húngaro Jay Freireich.

O médico que encontrou o caminho para a cura da leucemia infantil

Jay Freireich, médico: de uma infância traumática à descoberta para salvar vidas

Jay Freireich, médico: de uma infância traumática à descoberta para salvar vidas

Após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, a família de imigrantes dos Freireich pre­cisou enfrentar o suicídio do pai. Com a morte do marido, a mãe de Jay precisou trabalhar 18 horas por dia, sete dias por semana em uma confecção escravizante de Chica­go, cidade onde moravam. Ga­nhava dois cents por aba de chapéu costurado. Assim, com 2 anos de idade, pode-se di­zer que Jay virou órfão. Foi criado por uma imigrante ir­lan­desa que sua mãe arrumara.

Foi esse o grande desafio de Jay. E seus primeiros contatos traumatizantes com a sociedade o tornaram uma pessoa dura. Porém, mesmo muito pobre, ele conseguiu se formar em medicina pela Universidade de Illinois e, em 1955, deu início à sua batalha contra o seu Golias. Quando chegou ao Instituto Nacional do Câncer, foi escalado para a enfermaria de leucemia infantil no segundo andar do prédio principal do hospital. Era um lugar horrível, onde se via crianças com dores insuportáveis se revirando em seus leitos.

A leucemia infantil era, na época, uma doença assustadora, principalmente porque causava terríveis hemorragias. Mesmo um sangramento nasal poderia ser fatal. “Comprimia-se o nariz da criança e colocava-se gelo nele. Não funcionava. Enfiava-se gaze nas narinas. Também não funcionava. Chamava-se um otorrinolaringologista para enfiar uma gaze pela boca até a passagem nasal A ideia era pressionar os vasos sanguíneos de dentro da cavidade nasal. Dá para imaginar quão doloroso isso deve ser para uma criança. Além disso, raramente adiantava, de modo que retirava-se a gaze e o sangramento recomeçava”, narra Gladwell.

O objetivo do segundo andar era achar uma cura para aquela doença. Porém, era tão difícil controlar a hemorragia, que 90% das crianças morriam em seis semanas. Assim, a maioria dos médicos não durava muito tempo no segundo andar. Não foi o caso de Jay Freireich. O duro médico se uniu a um pesquisador do hospital chamado Tom Frei. Juntos, convenceram-se de que o problema era falta de plaquetas. A leucemia estava destruindo a capacidade das crianças de produzi-las. Por consequência, sem elas, o sangue não coagulava, o que provocava as hemorragias.

Após pesquisas incessantes, Jay e Frei concluíram que as crianças precisavam de plaquetas novas em grandes doses. Porém, o banco de san­gue do hospital negou a Jay o ma­terial para as transfusões. A resposta do médico foi gritar que eles es­tavam matando pessoas. Depois disso, Jay saiu em busca de doadores e os encontrou, mas acabou en­frentando outro problema: o método normal de transfusão de sangue na época não funcionava para o o­b­jetivo que o médico queria alcançar.

“O procedimento-padrão nas transfusões de sangue em meados da década de 1950 incluía agulhas de aço, tubos de borracha e garrafas de vidro. Mas se constatou que as plaquetas aderiam àquelas superfícies. Assim, Freireich teve a ideia de mudar para uma tecnologia nova em folha: agulhas de silício e bolsas plásticas. As bolsas eram enormes”, conta Gladwell. Por conta dos riscos envolvendo os procedimentos –– se uma transfusão não é feita corretamente, a criança pode ter insuficiência cardíaca –– o diretor clínico do hospital ameaçou demitir Jay, caso ele continuasse com os procedimentos. Ele não se importou. “Os sangramentos cessaram”.

É certo que a ação de Jay foi u­ma revolução, pois permitiu que as crianças vivessem mais tempo para que a causa subjacente da doença fosse encontrada, o que também não seria uma tarefa fácil. Poucos medicamentos eram capazes de exercer algum efeito contra a leucemia e todos eram potencialmente tó­xicos. Por isso nunca eram utilizados juntos. Eis o que Jay e Frei fizeram: propuseram um tratamento utilizando os três remédios disponíveis na época –– 6-MP, metotrexato e prednisona –– e ainda acrescentaram um quarto medicamento: a vincristina.

A luta para conseguir autorização para os testes foi grande, mas conseguiram. E os testes eram feitos como? Nas próprias crianças. “Eu tinha 25 crianças morrendo. Não havia nada para lhes oferecer. Meu pensamento foi: vou testar. Por que não? Elas vão morrer de qualquer jeito”, disse Jay a Gladwell. “Havia 13 crianças na rodada inicial do teste”, narra Gladwell. “A primeira testada foi uma menina. Freireich começou com uma dose que se mostrou alta demais, e ela quase morreu. Ele ficou sentado com ela durante horas, alternando antibióticos com respiradores. Ela sobreviveu, mas morreu depois, quando seu câncer voltou”.

Eles aperfeiçoaram as dosagens até que conseguiram expulsar as células cancerígenas do organismo das crianças. Porém, 12 delas tiveram recaídas. Foi quando Jay resolveu que continuaria o tratamento mensalmente, durante um ano. Foi outra loucura, pois o tratamento “destruía o sistema imunológico das crianças. Elas ficavam indefesas. Para os pais, era uma agonia. Para seus filhos terem uma chance de viver, eles teriam que ser levados, violenta e repetidamente, à beira da morte”.

Atualmente, o câncer é ro­tineiramente tratado com “co­quetéis” de remédios. São com­binações complicadas de dois, três, às vezes, quatro ou cinco medicamentos simultaneamente. Em 1965, Jay Frei­reich e Tom Frei publicaram “Progress and Perspe­ctives in the Chemotherapy of Acute Leu­ke­mia” (Progresso e perspectivas na quimioterapia de leucemia aguda) num famoso periódico — Ad­van­ces in Chemotherapy — anunciando que haviam en­con­trado um tratamento eficaz no combate à leucemia in­fantil. Hoje, o índice de cura des­sa forma de câncer supera 90%.

O que isso significa? Para Gladwell, a resposta vem de duas perguntas: “Será que isso significa que Freireich deveria estar contente por ter tido a infância que teve? A resposta é um simples não. A pergunta certa é se, como uma sociedade, precisamos de pessoas que emergiram de algum tipo de trauma –– e a resposta é sim. Não se trata de um fato agradável de contemplar. Há momentos e lugares, porém, em que todos nós dependemos de pessoas que ficaram calejadas por suas experiências. Freireich teve a coragem de pensar o impensável. Ele fez testes em crianças. Sub­meteu-as a uma dor que ne­nhum ser humano deveria sofrer. E o fez, em grande parte, porque entendia, baseado na própria experiência de infância, que é possível emergir curado e restaurado mes­mo do pior dos infernos.”

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Considerado por muitos como um gênio, Malcolm Gladwell é colunista da revista “The New Yorker” desde 1996

Davi era o gigante da batalha

As batalhas entre exércitos antigos ficaram imortalizadas pela literatura épica e por escritos históricos como a Bíblia. Atualmente, estudiosos apontam que esses exércitos contavam com três tipos de guerreiros: cavalaria –– homens armados a cavalo ou carros de guerra; infantaria –– soldados a pé, com armaduras, espadas e escudos; e artilharia –– arqueiros e fundibulários, que tinham como arma uma bolsa de couro ligada a um corda comprida em dois lados, isto é, uma funda.

A funda era uma arma excepcional nas mãos de guerreiros habilidosos. Há pinturas do período medieval que mostram fundibulários atingindo pássaros em pleno voo. Segundo Malcolm Gladwell, fundibulários irlandeses eram habilitados, inclusive, para atingir uma moeda de qualquer distância em que fosse visível. O capítulo 20 do livro bíblico de Juízes descreve alguns homens capazes de atirar “com a funda uma pedra em um cabelo” e não errar. “Um fundibulário experiente conseguia matar ou ferir gravemente um alvo a uma distância de quase 200 metros”, diz Gladwell.

O escritor inglês aponta que, segundo o historiador Baruch Halpern, a funda era tão importante na guerra dos tempos antigos que os três tipos de guerreiros se equilibravam com em um jogo de “pedra, papel e tesoura”. “Com suas lanças compridas e armaduras, a infantaria conseguia resistir à cavalaria. Esta conseguia, por sua vez, derrotar os guerreiros de projéteis, porque os cavalos se moviam rápido demais para a artilharia conseguir mirá-los. E os guerreiros de projéteis eram mortais contra a infantaria, porque um grande soldado carregando muito peso, prostrado pela armadura, constituía alvo fácil para um fundibulário lançando projéteis a 90 metros de distância”.

Com essas informações, voltemos à descrição bíblica feita de Golias: “Tinha dois metros e noventa centímetros de altura. Ele usava um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas de bronze que pesava sessenta quilos; nas pernas usava caneleiras de bronze e tinha um dardo de bronze pendurado nas costas. A haste de sua lança era parecida com uma lançadeira de tecelão, e sua ponta de ferro pesava sete quilos e duzentos gramas. Seu escudeiro ia à frente dele.” Ou seja, um guerreiro típico de infantaria. E Davi? De acordo com a Bíblia, ele “pegou seu cajado, escolheu no riacho cinco pedras lisas, colocou-as na bolsa, isto é, no seu alforje de pastor, e, com sua atiradeira na mão, aproximou-se do filisteu.” Isto é, um guerreiro da artilharia.

Golias esperava lutar com outro guerreiro de infantaria, na força, de perto. Davi, entretanto, nunca teve a intenção de respeitar o ritual do combate esperado. Até porque, se o tivesse feito, não contaríamos sua história ainda hoje. Quando Davi diz ao rei Saul que matou ursos e leões em suas funções como pastor, mostrou como iria lutar contra o gigante filisteu: como um guerreiro de artilharia, lançador de projéteis. Aqui, acredito que o leitor já tenha entendido o argumento de Glad­well: artilharia vence infantaria. Dessa forma, na batalha entre o fundibulário Davi e o guerreiro de infantaria Golias, o último era, na verdade, a vítima da situação, mesmo tendo maior altura e força.

Gladwell relata: “Eitan Hirsch, um expert em balística das Forças de Defesa israelenses, recentemente fez uma série de cálculos mostrando que uma pedra de tamanho típico lançada por um fundibulário experiente a uma distância de 35 metros teria atingido a cabeça de Golias com uma velocidade de 34 metros por segundo –– mais que suficiente para penetrar no crânio e deixá-lo inconsciente ou morto. Em termos de poder de penetração, isso equivale a uma pistola moderna de tamanho razoável”. Ou seja, Golias não teve, sequer, tempo para pensar em desviar da pedra lançada por Davi.

artigo_jose maria e silva.qxdEntão, por que tem-se acreditado que Davi era o azarão da história? Segundo o colunista da “New Yorker”, o duelo revela a estupidez de nossos pressupostos de poder. Tendemos a pensar como o rei Saul e os israelitas –– assim como Golias –– que viam apenas um pastor de ovelhas franzino contra um guerreiro enorme. “O rei pensa no poder em termos de força física, então não reconhece que ele pode vir de outras formas também –– ao romper as regras, ao substituir força por velocidade e surpresa”, argumenta Gladwell.

Por outro lado, temos o fato de que Golias era muito mais pesado que Davi, que, além de menor, não estava carregando uma armadura, uma lança, uma espada e um escudo. Davi era rápido e Golias não entendeu isso. Não entendeu que o jogo havia virado. “Os fortes e poderosos nem sempre são o que parecem. Davi, fortalecido pela coragem e pela fé, foi correndo em direção a Golias. O gigante estava cego para sua aproximação”.

A história, desse ponto de vis­ta, é semelhante a dos impressionistas franceses, que venceram o Salon, a exposição de arte mais importante do mundo à época. Monet, Cézanne, Renoir, Pissarro, juntamente com outros pintores decidiram que não deveriam ser “Peixes Pequenos em uma Lagoa Grande”. Tinham talento e estavam à frente de uma tendência de van­guarda –– o impressionismo. Encararam uma exposição alternativa ao Salon e marcaram seu nome na história da arte moderna, influenciando o mundo inteiro.

“Davi e Golias” também é uma história a ser comparada ao húngaro Jay Freireich, o médico que encabeçou os estudos em busca da cura para a leucemia infantil. Ele enfrentou um hospital, o sistema médico dos Estados Unidos e a fúria de alguns pais. Mas, como registrou Gladwell, “Jay não se importava”. Por quê? Jay Freireich foi fruto do suicídio do pai, da ausência da mãe, das dificuldades que enfrentou para sobreviver num país devastado pela depressão pós-1929. Isso fez dele uma pessoa dura, resistente aos desafios. E essa sua resistência fez com que fosse mais forte do que o gigante que enfrentou. Ele era um fundibulário contra um grande guerreiro de infantaria. Era melhor.

E como essas, há infinitas outras histórias. Não são poucos os Davis. É possível dizer, até, que não são minoria. Há vários Monets, Frei­reichs, Luthers Kings por aí. O leitor deve conhece alguns.


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