Cinco tipos de crimes digitais devem dominar a internet brasileira em 2019

Especialista em segurança virtual prevê uma tendência de aumento nos crimes de vazamento de dados e uso de robôs na internet para este ano

Um em cada cinco brasileiros já teve a identidade roubada na internet | Foto: Senado Federal

A quantidade de crimes digitais no Brasil cresce sem precedentes de acordo com dados de empresas especializadas em segurança na internet. Especialistas do laboratório brasileiro da multinacional Psafe, empresa de antivírus, separaram cinco tipos de crimes digitais, também chamados de crimes cibernéticos, com grande possibilidade de dominar a rede de computadores e celulares do Brasil neste ano.

Em primeiro lugar aparece o crime mais comum praticado na internet brasileira: o roubo de dados pessoais, com destaque para criminosos focados em grandes empresas, e-commerce e governo. Um estudo da empresa revelou que um em cada cinco brasileiros já teve a identidade roubada na internet, o que representa 24,2 milhões de potenciais vítimas em todo o Brasil, em uma projeção baseada na atual população de 131,1 milhões de pessoas com sistema operacional Android no país.

Ainda segundo a pesquisa, 51,3% dos usuários entrevistados pelo estudo apontaram o número de telefone como sendo o dado mais utilizado de forma fraudulenta, seguido de credenciais de redes sociais (44,3%), credenciais de e-mail (37,1%), CPF (26,8%) e número de cartão de crédito (19,3%).

O segundo crime será o avanço no uso de robôs com inteligência artificial. Eles fingem ser pessoas em uma rede social para roubar dados e depois invadir dispositivos das vítimas. O terceiro será o fim das senhas e o uso cada vez mais frequente de sistemas de dupla identificação, uso de digital e reconhecimento facial, principalmente em softwares de bancos, provedores de e-mail e redes sociais.

O quarto é um crime crescente no país: o sextorção, baseado em narrativas de intimidades de uma pessoa para ser usado como extorsão. Por exemplo, quando uma pessoa usa uma foto íntima para pedir dinheiro em troca da não publicação na internet. E o quinto será a sofisticação de golpes, com uso de checagem de dados pessoais das vítimas para criar uma falsa sensação de credibilidade aos sites falsos, onde cliente de bancos são vítimas em potencial. O site da Psafe monitora a internet em tempo real e registrou 387.424 links maliciosos detectados apenas na sexta-feira (27).

Os crimes cibernéticos mais comuns em Goiás são contra a honra, tipificado no Código Penal como calúnia, injúria e difamação por meio das conhecidas fake news. Depois vêm os crimes de difusão de pornografia infantil, sequestro do uso do aplicativo Whastapp e estelionatos.

A Delegada de Polícia Titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC) em Goiás, Sabrina Leles de Lima Miranda, à frente da delegacia há um ano e meio, explica que os crimes digitais são divididos em dois tipos: os próprios e os impróprios.

Os crimes próprios são nativos da internet, normalmente com ataques de negação de serviço e invasão de sistema, onde a ação do autor é voltada para o próprio sistema operacional ou invadir e-mail, impedir transmissão de serviços e sistema, como os ataques DDoS, quando um computador pode gerenciar milhares de outros computadores, chamados de zumbis.

Delegada titular da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos em Goiás, Sabrina Leles | Foto: Reprodução

E os impróprios abrangem crimes que poderiam ser cometidos de outras formas, mas o autor escolhe a internet para cometê-lo, como estelionato, sextorção e fake news.

“Têm muitas ocorrências de sequestro do Whatsapp, em Goiás, onde o autor tem várias maneiras para obter o domínio do perfil da pessoa e começar a mandar mensagens pedindo dinheiro para amigos e familiares”, relata a delegada.

Apesar de as ocorrências de crimes digitais crescerem em Goiás, a delegada alerta que a internet não é terra sem lei. A Polícia Civil tem meios de investigação para chegar ao criminoso e programas de computador específicos para rastrear rapidamente as pistas falsas deixadas por centenas de IPs na internet.

O último dado oficial referente a esse tipo de crime, em Goiás, mostrou crescimento na quantidade de ocorrências registradas de 2017 para 2018: 1,4 mensais para 3,3 mensais, respectivamente. A capital é o principal foco de atuação dos criminosos concentrando 40% dos ataques, Luziânia registrou 20%, Rio Verde, 13%, Anápolis, 6,7%, Cidade de Goiás, 6,7%, Iporá, 3,3%, Jataí e Ceres, ambas com 3,3%.

Um crime crescente em Goiás neste ano foi o Sextorção, onde uma pessoa cobra dinheiro de outra para não divulgar imagens íntimas obtidas de modo ilícito ou não. Esse caso se enquadra também como crime de extorsão.

Segundo o estudo da Psafe, uma das técnicas mais usadas pelos hackers é inserir um programa chamado de malware, que consiste em qualquer software mal-intencionado com o objetivo invadir computadores. Dentre suas variações mais conhecidas e usadas, está o phishing, prática voltada para obter informações sigilosas, como dados pessoais e financeiros.

A aposentada Maria Fernanda, nome fictício, residente em Brasília (DF), acessou um link enviado por mensagem SMS, supostamente de seu banco, com pedido de atualização cadastral. Ela acessou o link da mensagem que a direcionou para uma página falsa do banco. Em seguida digitou o número da conta e a senha, mas a página não foi redirecionada para lugar nenhum. Em poucos minutos ela recebeu mensagens no celular do banco informando pagamento de boletos e transferências bancárias. Quando a aposentada conseguiu acessar a conta corrente, os criminosos usaram todo o saldo disponível, bem como o cheque especial.

O dinheiro foi devolvido pelo banco após apresentação de um boletim de ocorrência e a verificação da movimentação atípica na conta. “Mas fica o medo de acessar a página do banco tanto pelo celular quanto pelo computador”, relata a aposentada.

Para este tipo de consulta e movimentação financeira, a delegada Sabrina Leles orienta o uso de aplicativo de celular ou visita pessoal ao banco. “Os aplicativos de banco, geralmente são programados com um cuidado muito grande na segurança digital do usuário”, explica, e diz não haver, até o momento, registro de fraudes em aplicativos bancários para smartphones.

Outra recomendação da delegada é uma mensagem direta aos pais: “Não deixem crianças e adolescentes sozinhos no computador ou celular sem supervisão. Eles podem até parecer seguros mexendo em dispositivos móveis, dentro de casa, mas podem estar sendo aliciados por um pedófilo”.

Têm chegado casos à delegacia de suicídios relacionados ao uso de internet por pessoas com depressão. “Me preocupa o uso constante da internet por pessoas com depressão. Há uma tendência dessas pessoas serem atraídas por criminosos que incentivam suicídio. Houveram casos de adolescentes goianos que se suicidaram incentivados por desafios lançados na internet e grupos de mensagens no celular”, alerta Sabrina Leles.

Em Goiás, o comércio é o mais explorado por criminosos digitais, principalmente na compra e venda de produtos. “É extremamente comum casos de golpes no comércio com pessoas comprando produtos que não vão pagar e outras vendendo produtos que não vão entregar”, diz a delegada.

A delegada também destaca a falsificação de sites originais e orienta as pessoas a terem atenção ao receber e-mails com faturas e ao realizar compras online. A recomendação ao consumidor é que procure entrar em contato com o seu banco antes de qualquer movimentação via internet na conta.

O advogado Wanderson Tolentino, especialista em Direito do Consumidor, alerta para a frequência de golpes bancários, principalmente com cartões de crédito envolvendo obtenção de dados e compras não autorizadas pelo titular. “Atualmente existe um mecanismo mais seguro para compra na internet que é o uso do cartão digital. Nele, a pessoa pode fazer uma compra online e bloquear o limite logo em seguida para não correr o risco de ter dados roubados e usados posteriormente de forma maliciosa”.

Advogado Wanderson Tolentino | Foto: Arquivo pessoal

Quando se trata de uma compra na internet, mesmo que o site redirecione para outro endereço na web, fica registrado o IP em um servidor, que pode ser rastreado depois pela polícia, segundo Wanderson Tolentino. “Esse processo de rastreamento não é tão simples e demora em torno de seis meses para chegar à pessoa que cometeu o crime na internet”.

O advogado reforça a orientação da delegada quanto à preferência por uso de aplicativos a computadores convencionais. “Normalmente, esses aplicativos são mais seguros do que os computadores pela própria construção do programa e pela verificação de segurança que os sistemas operacionais fazem antes de o colocarem à disposição. Alguns aplicativos oferecem reembolsos caso a compra não seja de acordo com o que o cliente pediu, como um produto de cor diferente ou tamanho diferente”.

Relatório aponta que 46% de toda população Android no Brasil recebeu, acessou ou compartilhou links maliciosos

A sexta edição do Relatório da Segurança Digital no Brasil, elaborada pela Psafe em julho de 2019, retrata um cenário preocupante considerando dados compilados de 2018. O levantamento estima que 46% de toda população que usa o sistema android no Brasil recebeu, acessou ou compartilhou links maliciosos, o que representa 60,4 milhões de potenciais vítimas em todo país.

Cada usuário de android foi vítima, em média, de 31 ataques. A tendência dos relatórios anteriores da fabricante de antivírus diz que o roubo de dados pessoais via aplicativos de mensagens foi a principal estratégia utilizada por criminosos digitais para difundir links maliciosos no ano passado, correspondendo a 49,6% do número de detecções realizadas. Ao todo, 29,9 milhões de brasileiros foram potenciais vítimas desse tipo de golpe.

O aplicativo WhatsApp continua sendo a plataforma mais usada para disseminar ataques virtuais. Em 2018, o aplicativo representou 64,1% do total de registros realizados pelo laboratório de estudos da multinacional.

O levantamento destaca também que 2018 foi marcado pela forte tendência ao direcionamento de golpes para o público masculino. “No período, percebemos um aumento significativo de ataques que utilizavam temas relacionados a conteúdo adulto. Como resultado, registramos que 75% dos homens brasileiros receberam ou acessaram links maliciosos contra 25% das mulheres”, diz o estudo.

Entre os três ataques digitais mais populares do ano passado, dois usavam temas de conteúdo adulto para atrair vítimas. “Ao todo, foram 14,2 milhões de acessos e compartilhamentos ao golpe mais registrado no período, que consistia em convites para participar de um site pornográfico de encontros”, mostra o levantamento.

Em segundo lugar, os ataques mais comuns abordaram supostos temas de futebol para o WhatsApp, o que totalizou 13,4 milhões de detecções, seguido do falso convite para participar de grupos no mesmo aplicativo, com 4,2 milhões de acessos. “No geral, os links maliciosos induziam o usuário a fornecer dados pessoais, realizar pagamentos a serviços fraudulentos e a conceder permissões de envio de notificações”, revela.

A SaferNet, uma associação civil brasileira fundada em 2005 com foco na promoção e defesa dos Direitos Humanos na internet, divulgou um levantamento em 2019 onde recebeu e processou 4.059.137 denúncias anônimas em 13 anos, envolvendo 750.526 páginas na web distintas escritas em nove idiomas e hospedadas em 67.224 domínios diferentes.

A associação atendeu 24.201 pessoas em todos os estados brasileiros e, destes, 2.315 foram crianças e adolescentes; 1.947 eram pais e educadores e 19.939 definidos como outros adultos em seu canal de ajuda e orientação. Além disso, foram realizadas 715 atividades de sensibilização e formação de multiplicadores de 297 cidades brasileiras diferentes contemplando diretamente 66.861 crianças, adolescentes e jovens.

Estudo internacional traça perfil dos usuários da internet

Um estudo da Symantec, empresa do grupo Norton de segurança digital, indica que quase metade de todas as pessoas mundialmente conectadas à internet ficam felizes em contar mentiras sobre seus detalhes pessoais, incluindo nome, idade, situação financeira e estado civil; sua aparência e até mesmo sua nacionalidade. E um terço dos adultos já assumiu identidades falsas online – desde um nome falso até uma identidade totalmente fictícia. Os dados mostram que 33% dos adultos já utilizaram um nome falso e 45% mentiram sobre seus dados pessoais.

Os alemães são os melhores em fingir: mais da metade já adotou uma identidade falsa online ou já mentiu sobre detalhes pessoais online (53% e 51%, respectivamente). Mais da metade dos adultos chineses, brasileiros e indianos já admitiu ter mentido sobre as suas informações pessoais online (58%, 56% e 55%, respectivamente).

Aproximadamente quatro em cada 10 italianos, brasileiros e neozelandeses já usaram identidades falsas online (41%, 41% e 38% respectivamente). Mas as pessoas no Reino Unido sentem-se relutantes em fazer o mesmo — elas são as menos propensas a utilizar uma identidade falsa online (18%) ou mentir sobre as informações pessoais (33%).

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