Campanha sem povo não é campanha e metaverso de candidatos não devem deslanchar

Em busca de espaço na mídia, políticos buscam a exposição do pioneirismo ao aderir a novas ideias como o Metaverso. A ferramenta multiplica as possibilidades de campanha. Entretanto, especialistas em marketing eleitoral afirmam que tecnologia ainda é recente demais, e investir nela em 2022 pode ser um desperdício de tempo, esforço e recursos. 

Mais do que uma tecnologia, o metaverso é o conceito de universo híbrido entre o mundo físico e o mundo digital (ou mundo “figital”). Essa mistura entre os dois mundos acontece quando o usuário se imerge no virtual, com ferramentas como o óculos VR, e quando ele encarna uma persona, um avatar personalizável. 

A ideia é infinitamente promissora. Especialistas prevêem que pessoas terão empregos no metaverso, onde produzirão bens e serviços para serem consumidos dentro do metavers. “Vão existir processos econômicos dentro da rede – não só com empresas do varejo fazendo vendas como hoje fazem na rua – mas estamos falando de uma economia ativa no mundo virtual. Em termos de imersão, isso é forte porque a receita das pessoas pode estar integrada: criptomoedas, mais a renda do trabalho tradicional, mais ativos digitais como NFTs”, afirma Celso Gonçalves Camilo Júnior, doutor em Inteligência Artificial e professor na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Apesar de as promessas parecerem improváveis agora, são na verdade apenas desdobramento de fenômenos que já acontecem.O professor afirma que, em média, já passamos um terço de nosso tempo acordados nas redes sociais ou editando conteúdo para publicar nas redes sociais. Além disso, jogos de videogame já misturam os universos através da imersão dos sentidos. Neste sentido, o metaverso promete estender o que está restrito ao digital para abarcar também o que fazemos no mundo empresarial, social e político. 

Avatar de Mark Zuckerberg em apresentação do metaverso / Reprodução/Facebook

Enquanto muitas empresas planejam e anunciam expandir suas atividades para um universo híbrido, poucas pessoas hoje se interessam em participar do processo. Isso se deve à incipiência da tecnologia e ao custo de equipamentos como o óculos VR. Os gráficos de videogame do milênio passado, a baixa taxa de atualização de quadros, a falta de um equipamento que capture expressões faciais; tudo isso colabora para a impressão de que o pioneirismo no metaverso seja mais marketing do que uma inovação vantajosa.

Recentemente, o Jornal Opção publicou matéria ouvindo pré-candidatos que apostam no metaverso para converter votos em suas campanhas. Agora, ouvimos o que o estrategista eleitoral e especialista em marketing político Maurício Coelho pensa da decisão. “A campanha eleitoral é prioritariamente de massas”, afirma Maurício Coelho. “O candidato precisa estar onde as pessoas estão, e o metaverso ainda é um conceito que tem de ser explicado à maioria das pessoas; logo, é restrito.”

Maurício Coelho vê como limitante o fato de que, frequentemente, nem os eleitores e nem os próprios responsáveis por campanhas compreendem a definição de metaverso. Segundo ele, o que existe em geral são plataformas que cumprem o papel de websites tradicionais, mas com gráficos de jogos antigos. “Eu perguntaria: você quer fazer sua campanha no metaverso? Qual metaverso? Não existe uma rede que reúna usuários disso aqui no Brasil.”

O que existem, comenta o estrategista eleitoral, são pequenos programas desenvolvidos para eventos, empresas e políticos que se assemelham a um mundo “figital”. Mas, pela abundância de metaversos isolados e pela falta de ambição de fazer o mundo viver para além de uma campanha de marketing, os esforços têm vida curta. 

Maurício Coelho | Foto: Reprodução

“Do ponto de vista de manejo de recursos, de tempo e de esforço”, diz Maurício Coelho, “é muito mais vantajoso que o candidato faça seu comício virtual em lives, em qualquer rede social que já seja difundida. A campanha eleitoral propriamente dita dura 45 dias. Nesse curto período, é impossível ensinar as pessoas a usar essa tecnologia; não dá para criar hábito na população. Você tem de ir aonde os eleitores já estão”, diz Maurício Coelho. 

O estrategista eleitoral afirma: “Na realidade, a maioria das pessoas ignora o santinho de político, que está fisicamente impresso na frente delas – que dirá de um QR code no verso de um santinho que te levará a uma página para baixar um baixar o aplicativo de metaverso para assistir mais propaganda eleitoral. Um eleitor ou outro pode ficar curioso, mas é impossível conquistar grande número de votos assim.”  

Se uma campanha no metaverso é tamanho despropósito de marketing, o que explica a aposta de alguns candidatos na ferramenta? Segundo Maurício Coelho, dois fenômenos. Primeiro, a exposição midiática pelo ineditismo. Em segundo, um entendimento equivocado acerca de estratégia eleitoral: “Muitos candidatos não compreendem que não são plataforma de mercado; ele não tem de criar tendência pro futuro. Ele tem pouco tempo para alcançar as pessoas onde elas estiverem e convencê-las lá.”

Os publicitários que vendem metaversos de bolso para cada campanha de marketing também sofrem de um entendimento equivocado da ideia. Mais do que o desenvolvimento de um programa isolado, a definição de metaverso é justamente a integração entre o mundo físico e o universo digital de forma holística. Ao contrário de redes sociais ou jogos, que têm uma função na vida das pessoas, os eleitores não buscam ativamente consumir mais propaganda política – por isso, é improvável que um mundo unificado surgisse de uma plataforma que só tem função para o anunciante. 

Celso Camilo | Foto: Reprodução

Além disso, parte indissociável da definição de metaverso é o manejo da atenção do usuário, que as campanhas políticas não dispõem. “Para tornar a experiência mais envolvente, se integra a maior quantidade de sentidos do usuário quanto for possível, pois há diversos estudos que comprovam que este procedimento reduz a probabilidade de churn, de saída, de dispersão da atenção”, afirma Celso Camilo.