Embora esteja formatando a base de sustentação dentro do Congresso Nacional, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a convergir com parte dos deputados federais caiadistas, de Goiás. O União Brasil (UB), partido do governador Ronaldo Caiado ganhou espaço governo federal. Como lembra o vice-presidente da sigla no Estado, o deputado federal Delegado Waldir, apesar de votar a favor na maioria dos projetos do governo atual, o partido não integrava a Esplanada dos Ministérios de Jair Bolsonaro (PL). 

Caiado assume o segundo mandato melhor do que o petista e com uma base mais ampla em relação à que encontrou em 2019. Após as eleições de 2018, dos 41 deputados estaduais, menos da metade declaravam veemente apoiar o político. Cerca de sete sinalizavam ser situação neutra, seis não haviam decidido e nove formavam o bloco de oposição. Quando completou a marca de cem dias de governo, Caiado havia atraído 24 parlamentares para a sua base de apoio na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). No entanto, o número não era suficiente para garantir aprovação de projetos que exigissem quórum mínimo de dois terços dos deputados. Isto é, 25 votos. Agora, o cenário mudou.

Para o segundo mandato, com a construção feita nos últimos anos, o governo estadual terá uma base mais folgada na Casa. O líder do governo e forte candidato a presidente do Poder Legislativo, Bruno Peixoto (UB), calcula que o bloco da situação terá 33 parlamentares, o mesmo número que ele conta como votos para vencer a eleição para a Mesa Diretora, em 1º de fevereiro de 2023. Apesar de uma renovação com a eleição deste ano, até os novatos vêm se aproximando da base governista. Fred Rodrigues (DC) é um deles. Eleito para o primeiro mandato político, ele disse ao Jornal Opção que quer se inteirar de todos os assuntos da Casa. Por isso, não perdeu tempo e aceitou o convite de almoço fechado de grupo que articulou apoiar a candidatura de Peixoto para comandar o parlamento, na semana passada. O próprio evento partiu de um novato na Alego, o deputado eleito e diplomado Ricardo Quirino (Republicanos).

O PT precisa de uma base. Hoje o PT migra para o centro. Então, houve esses convites e não há razões para não aceitar

Deputado federal Delegado Waldir, vice-presidente estadual do União Brasil – GO

Nesse contexto, enquanto Caiado não tem a mesma preocupação que enfrentou há quatro anos, agora é Lula que tenta juntar forças para não passar aperto no Congresso Nacional. Apesar de divergências históricas, será justamente os deputados caiadistas que podem fortalecer a base petista. Cabe ressaltar que a aproximação do partido e, consequentemente, dos parlamentares com o novo governo não sofre retaliações do governador goiano, que, por ventura, foi um dos primeiros chefes das Unidades Federativas a reconhecer a vitória de Lula.

Há exceções dentro do grupo caiadista, como o deputado federal Dr. Zacharias Calil, que deve ser oposição ferrenha de Lula. “Eu já comuniquei a eles que, realmente, eu sou oposição. Seria muita incoerência da minha parte, eu passar estes quatro anos, sendo governo. Agora que houve mudança de governo, eu vou para a oposição. Minha ética não permite esse tipo de comportamento. É claro que as pautas que forem benéficas para Goiás e para o Brasil, nós vamos votar juntos. Como eu fiz anteriormente, com várias pautas, votei contra indicação do meu próprio partido, tanto do DEM quanto do União Brasil”, salienta.

Delegado Waldir pontua que o primeiro sinal de confluência entre os dois governos foi a votação que aprovou a Proposta de Emenda à Constituição, a PEC da Transição, na terça-feira, 20, que contou com a ajuda dos goianos. Dos 17 deputados, dez deles foram favoráveis. Votaram com o novo governo, além do petista Rubens Otoni, e de parlamentares de partidos a esquerda, como Flávia Morais (PDT) e Elias Vaz (PSB), aqueles que são alinhados de Caiado ou próximo dele; como Adriano do Baldy (pP), Célio Silveira (MDB), Zé Mário (MDB), Lucas Vergílio (SDD), Francisco Júnior (PSD), José Nelto (pP) e Delegado Waldir (UB). Cabe ressaltar, que todos são de partidos que já estão aliados ao futuro governo Lula. Contrários à proposta foram Alcides Rodrigues (Patriota), Zacharias Calil (UB), Glaustin da Fokus (PSC), João Campos (Republicanos), Magda Mofatto (PL), Major Vitor Hugo (PL) e Professor Alcides (PL).    

Deputado Delegado Waldir, vice-presidente do União Brasil – GO | Foto: Câmara dos Deputados

“Na votação da PEC da renda mínima o União Brasil votou integralmente para a aprovação junto com o presidente Lula”, desta Delegado Waldir. “Então, já tem um convite formal e oficial para o União Brasil fazer parte da base do presidente Lula. Para isso, eles ofereceram ao União Brasil dois ministérios e o União Brasil vai compor o governo Lula, vai fazer parte do governo Lula, vai votar com o governo Lula”, sinaliza. “O PT precisa de uma base. Hoje o PT migra para o centro. Então, houve esses convites e não há razões para não aceitar”, emendou.

Nesta primeira formação do primeiro escalão, Lula ofereceu ao UB dois grandes ministérios, o da Integração Nacional e, possivelmente, o das Cidades, se não ficar com o MDB. Um será direcionada para indicação da bancada do partido na Câmara dos Deputados e outro da bancada do Senado. A partir de fevereiro, a legenda passa a contar com 59 deputados (terceira maior bancada na Câmara) e 10 senadores (também terceira maior bancada). Inicialmente, a ideia é que a Integração Nacional fique com o deputado Elmar Nascimento (BA). Ele foi o relator da PEC da Transição na Câmara e é o líder partidário. O segundo ministério deve ficar sob o comando do ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (AP).

O cientista político Guilherme Carvalho tem expectativas que a tendência seja do União Brasil ganhar mais relevância no governo Lula. “Acho que o União Brasil deve ganhar mais espaço, após os seis primeiros meses de governo. Haja vista que as indicações para as pastas com maior relevância orçamentária já foram distribuídas e foram distribuídas para dentro de casa, para o PT e PSB, que vão para os ministérios com orçamento de fato”, disse. Para ele, há uma sinalização dos deputados goianos em “construir algumas pontes” que jamais foram possíveis com o PT e com Lula. “O governo Lula vai precisar de base de apoio, mas eu cito que nestes seis primeiros meses, ao que tudo indica, ele (Lula) vai prestigiar quem esteve na eleição com ele, para depois, quando ele precisar fazer algumas reformas de maior avulta, ele vai precisar de maior apoio no Congresso. Vai precisar de uma maior constância. De uma base mais obediente às indicações do Palácio do Planalto e até por isso, há uma tendência de que o União Brasil ganhe mais espaço”, analisa.  

Harmônia

Líder da bancada goiana na Câmara dos Deputados, Flávia Morais afirmou que já está sendo feito um trabalho de aproximação entre os governos federal e estadual. Para alcançar a afinidade, ela destaca que o “trabalho será de forma republicana, respeitando a posição de cada um, mas defendendo, enquanto bancada, os interesses do Estado de Goiás”. Ela observa que há uma sinalização de diálogos de boa parte dos goianos para com o novo governo. “A maioria dos parlamentares estão abertos à conversação, essa parceria institucional, que é muito importante para Goiás”, frisa.

Nome novo como eleito, Ismael Alexandrino (PSD) aponta como será a atuação dele na Câmara, perante o governo federal. “Com diálogo franco, construtivo, parcimonioso e pragmático. Evitarei a senda puramente ideológica. Apoiarei o que for bom para o Brasil e refutarei o que julgar prejudicial”, projeta. Fiel aliado ao ex-chefe, ele garante que irá atentar pelos interesses do Estado. “Procurarei ajudar o governador Ronaldo Caiado no que ele tem planejado para Goiás, promovendo a interlocução necessária nos ministérios, sobretudo nas áreas fundamentais que ele tem apontado: combater o ciclo da pobreza e estimular a renda, melhorar a infraestrutura de escoamento da produção, consolidar a regionalização de saúde e lutar por uma educação cada dia mais qualificado e estruturante”, pontua.

Nesse sentido, a deputada federal mais votada em Goiás, Silvye Alves, justamente do partido de Caiado, UB, indagada pelo Jornal Opção de como se comportará na Câmara dos Deputados, em relação ao Poder Executivo, ela respondeu que não fará oposição por oposição. Silvye nutre uma amizade com a petista Delegada Adriana Accorsi, a qual será colega em Brasília. “Eu fui eleita pelas pessoas, independente do presidente que foi eleito, eu tenho que trabalhar para as pessoas que me elegeram e, além do mais, as pessoas do meu estado. Então independente de ser Lula ou tivesse sido Bolsonaro, eu ia trabalhar da mesma forma. Eu acho que tem situações que vão ter projetos que, claro, eu vou votar contra e vou votar a favor, independente de ser projeto do PT ou não”, afirmou.  

Para Carvalho, há uma nítida convergência na base do Caiado e a futura base de Lula. “Porque o Caiado já fez algumas declarações, pelo menos para construir esta ‘ponte’. Ele, como um grande nome do União Brasil, isto é até esperado, apesar da rivalidade que ele tem com o Partido dos Trabalhadores, que já é histórica”, recorda. Ele cita que o governador, quando parlamentar, foi um oposicionista do governo petista e, antes, quando foi candidato a presidente da República, em 1989, concorrendo diretamente com Lula.

“Mas é interessante, que o PSD, de Vilmar Rocha [presidente], que compõe a base do governador Caiado, o próprio MDB, que é partido do vice-governador [Daniel Vilela] e o União Brasil, do governador, e até mesmo outros partidos menores e maiores, como o caso do pP, por exemplo, tendem a integrar a base de Lula. Então, a gente tende a assistir alguma convergência, mas isso não vai ser de imediato. Essas relações vão ser construídas com o tempo. Acho que os seis primeiros meses serão onde as ‘pontes’ de fato irão ser construídas e esses diálogos poderão ser confirmados. Se o Caiado já tem uma base consolidada, o Lula ainda precisa consolidar. mas o desenho será muito parecido, a exceção de que Lula conta com partidos à esquerda na sua base”, correlaciona o cientista político.

Senado mais bolsonarista

Kajuru disse gostar do Lula e, assim, como foi com Bolsonaro, não deve fazer oposição por oposição | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Por outro lado, ao menos entre os três senadores goianos, por enquanto, nenhum deles indicou que fará parte da situação. A oposição ferrenha ao Lula foi declarada pelo senador eleito e diplomado Wilder Morais (PL), que foi o candidato do presidente Jair Bolsonaro (PL), em Goiás. “Nós vamos trabalhar para o Estado de Goiás, nós fomos eleitos para ser oposição e nós vamos ser oposição”, enfatiza.

Quando a PEC da Transição tramitou no Senado, os três atuais senadores, Jorge Kajuru (Podemos), Vanderlan Cardoso (PSD) e Luiz do Carmo (PSC/Podemos) votaram a favor. “Eu votei a favor, claro. Se eu votei a favor da PEC do Bolsonaro, como que não vou votar a favor do Lula. É incoerência total”, respondeu Kajuru, ao Jornal Opção. “Eu tenho a minha convicção. Eu voto pela minha convicção”, enfatiza, acrescentando que gosta do presidente Lula. “Eu não sou oposição por oposição. Como eu não fui com Bolsonaro”, compara.

Vanderlan Cardoso (PSD), inicialmente, flertou com o novo governo, após críticas, pois era muito próximo ao bolsonarismo, recuou. Entretanto, foi também a favor do primeiro projeto articulado pelos petistas: a PEC da Transição. Por outro lado, o partido dele está muito próximo de fazer parte do governo federal. Pelas negociações, o senador Alexandre Silveira (MG) vai comandar o Ministério da Infraestrutura, e o deputado Pedro Paulo (RJ), o do Turismo .