Brasil tem muitos modernismos excluídos pela Semana de 1922, diz Luís Augusto Fischer

“A Semana foi construída no processo de afirmação da unidade de São Paulo por meio da economia – a hegemonia do modernismo paulista é o soft power da dominação burguesa no Brasil”, diz Luís Augusto Fischer

Luís Augusto Fischer | Foto: Reprodução/UFRGS/Ramon Moser

Professor Titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luis Augusto Fischer é autor de “Quatro negros” (novela) e “Dicionário de porto-alegrês”, entre outros. Pela Arquipélago Editorial, publicou “Machado e Borges: E outros ensaios sobre Machado de Assis” e “Inteligência com dor: Nelson Rodrigues ensaísta”, vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura, além de “Filosofia mínima – Ler, escrever, ensinar, aprender”, finalista do Prêmio Jabuti.

Em entrevista ao Jornal Opção, o pesquisador explica sua visão original e confrontativa sobre o movimento modernista brasileiro. Contestando o cânone que celebra a Semana de Arte Moderna de 1922 como representante inaugural e excludente da inovação literária, Fischer reúne evidências de que o modernismo existia antes, durante e depois da Semana, de forma independente da produção paulistana. A imagem que temos do evento que completa 100 anos, segundo ele, foi construída no processo de afirmação da unidade de São Paulo por meio da emergente burguesia brasileira – “mas dizer isso não significa afirmar que o modernismo paulista é sem valor”, ele ressalta. 

Italo Wolff – O sr. concorda com o historiador da arte Rafael Cardoso (no livro “Modernidade em Preto e Branco – Arte e Imagem, Raça e Identidade no Brasil, 1890-1945”), que diz que havia uma arte modernista no Rio de Janeiro antes da arte modernista de 1922?

Luís Augusto Fischer – Claro que sim. Tudo é uma questão de conceito. O problema de fundo que precede essa pergunta é o fato de que no Brasil, a crítica e a história da literatura e da cultura privatizaram o termo “modernismo” para significar aquilo que nasce com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, ou aquilo que derivou dela. Se afastarmos do cenário o conceito “paulistocêntrico”, podemos falar de muitos modernismos. 

Na América Hispânica, o mesmo termo “modernismo” designa a arte pós-romântica, que no Brasil equivale à geração que floresceu dos anos 1870 em diante, com a arte intermediária entre parnasianismo, simbolismo e naturalismo. Aqui, o termo ficou restrito ao que tem relação com São Paulo apenas.

Fora da “Urbanofilia” por São Paulo, quem foram os escritores modernistas mais injustiçados do país? Existe um nome que mereça ser destacado, mas que foi esquecido pela Semana de 22?

Se tomarmos a Semana de Arte Moderna de 1922 como centro, a conversa fica enviesada. Entendo que ela esteja no centro das discussões agora porque o centenário é da Semana de Arte Moderna de São Paulo, que foi realmente um evento importante. Apenas não tem a importância que o tempo, a crítica e a intelligentsia paulista atribuíram, mas evidentemente foi importante. 

Na Semana, estiveram presentes figuras importantes. Aqueles que foram canonizados como verdadeiros modernistas, especialmente Mário e Oswald Andrade; secundariamente Anita Malfatti, Tarsila e outros do núcleo. Muita gente esteve na Semana e foi defenestrada com o tempo. São os paulistas que migraram para a direita, como Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida; e também cariocas como Ronald Carvalho e Graça Aranha. 

Anita Malfatti e Mário e Menotti e Oswald e Tarsila | Foto: Reprodução

A Semana em si foi um episódio relativamente restrito. Ocorre que a partir dela, se tem a força de um enunciado de um grupo de artistas e intelectuais de São Paulo fazendo um estilo de vanguarda diretamente associado com as elites – festas, encontros, recepções organizadas com as elites de São Paulo. Essas mesmas elites, no futuro, produziram a Universidade de São Paulo (USP), a primeira universidade moderna brasileira, que produziu pensadores responsáveis por rever a história brasileira a partir dos anos 1930 a 1960 – pensadores como Sérgio Buarque, Antonio Candido, Florestan Fernandes, Fernando Novaes, e outros. Essas pessoas reinterpretam o Brasil a partir de um novo centro, tendo a percepção do modernismo de São Paulo como eixo.

Então, existem muitos nomes que merecem ser colocados em destaque, mas que foram esquecidos nesse processo de reavaliação. Posso destacar nomes anteriores à Semana mas que já eram modernos, como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, João do Rio, Júlia Lopes de Almeida. Existem também os contemporâneos à Semana cuja produção era moderna, mas que são de fora de São Paulo e escreviam outras formas, como Augusto Meyer, Ernani Fornari, Tyrteu Rocha Vianna – para ficar apenas nos exemplos do Rio Grande do Sul. Estes são poetas que tiveram carreira local (viabilizada pela Editora Globo, que nos anos 1920 passou a publicar a nova geração), e que nunca foram reconhecidos pelo cânone modernista paulista como sendo válidos. 

Luis Augusto Fischer | Foto: Reprodução/UFRGS/Flavio Dutra

Alfredo Bosi foi o crítico responsável por determinar que alguns escritores eram pré-modernistas? Por qual razão os pré-modernistas foram separados do grupo dos legítimos modernistas?

Sim. Bosi publicou em 1966 um ensaio chamado “Pré-Modernismo” no qual fez uma interpretação equivocada em que afirma que Alceu Amoroso Lima já havia definido o termo “pré-modernismo” anteriormente. Isso não é verdade, pois o livro chamado “Pré-Modernismo” de Alceu Amoroso Lima apenas reúne textos anteriores à 1922, e não faz avaliação ou definição do que seria um movimento pré-modernista. 

Então, Alfredo Bosi introduziu essa noção de que o pré-modernista seria um escritor mais ou menos bom, mas não tão bom quanto os verdadeiros modernistas. Esse conceito é de uma injustiça atroz, porque não avalia os escritores pelo que escreveram, mas pelo que não escreveram. Julgamos autores pelo que não conheceram, pelo que estava fora de seu horizonte histórico. Dizer “ah, eles eram bons, mas não chegaram a ser modernistas” é incrivelmente injusto, pois não se pode exigir que o autor antecipe uma escola literária que não é a dele, e incorpore valores históricos de fora do seu tempo.

Esse pré-modernismo centraliza o modernismo como sendo um marco do novo. Na visão de Alfredo Bosi e outros paulistas, o modernismo está ancorado na Semana de Arte Moderna, e o que quer que venha antes é meramente “pré”. Corresponde ao que não chegou lá. 

Escritores com ideias modernas, como Hugo de Carvalho Ramos, da região de vocês, têm uma produção literária muito interessante, que avança em relação ao que já existia (portanto é moderno). São autores, como Afonso Arinos, que reproduzem o imaginário das pessoas simples do sertão e colocam na literatura as terras desconhecidas do Brasil. Toda essa gente é colocada em uma gaveta de coisas secundárias chamada pré-modernismo.

O modernismo brasileiro, de 1922, manteve contato com escritores da América Latina? Procede que o poeta nicaraguense Rubén Darío influenciou parte dos escritores modernistas brasileiros?

Não. Rubén Darío está em algum lugar entre parnasianismo e simbolismo. Como afirmei, o modernismo dos hispano-americanos não equivale ao nosso conceito de modernismo – que está ligado às vanguardas europeias no período da Primeira Guerra Mundial. O modernismo dos latinoamericanos falantes de espanhol é anterior: data de 1870. Com o tempo, se desenvolveu alguma relação, porque Mário de Andrade veio a ler Jorge Luis Borges, mas não era uma relação de troca em 1922.

Luís Augusto Fischer | Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Porto Alegre

Quem participou da Semana e mantinha de fato uma relação de troca com escritores da América Latina era Ronald Carvalho, carioca cuja poesia tinha dicção à moda de Walt Whitman. Mas Ronald Carvalho foi posteriormente apagado do movimento pelo cânone modernista paulista.

O senhor já articulou a ideia de uma evolução literária semelhante à evolução biológica. Quais são os paralelos que podemos fazer entre os conceitos? Como se dá a transformação das escolas artísticas ao longo do tempo?

Em meu livro “Duas formações, uma história: Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio” (Arquipélago Editorial, 2021, 381 páginas) eu me valho de algumas ideias da história natural, dos darwinistas, para falar sobre a progressão da Literatura. Também o Franco Moretti, crítico literário italiano, se diz um darwinista, e ele estuda o gênero do romance.

Na evolução natural e na história da literatura temos dois fatores em comum: grande diversidade (de indivíduos, ou de obras) em cada geração, e a transmissão de caracteres daqueles que sucedem em uma tarefa (se reproduzir, ou ser mais lido e influente). No senso comum, é frequente o erro de interpretação dessa ideia com a simplificação “o mais forte sobrevive”. Mas, na natureza e também na literatura existem formas muito primitivas que sobrevivem e passam seus genes adiante.

As afinidades param por aí, porque a história da cultura e literatura é menos linear – antigas formas são frequentemente retomadas.

Fica claro que o senhor é cético quanto às tentativas de organizar toda a produção literária por modelos criados para explicar outros países. Isso significa que a literatura no brasil só pode ser compreendida com a análise de autores individuais?

Não, acho que podemos fazer leitura de conjuntos. É claro que nas artes cada objeto tem sua particularidade. Por outro lado, podemos procurar pontos em comum, temas, formas, procedimentos. Meu ponto não é simplesmente que deixemos de usar as escolas de outros países; meu argumento é que deveríamos ser mais atentos quanto ao que acontece aqui. 

Essa não é uma ideia original minha. Alguns críticos, como Antonio Candido e Roberto Schwarz –  com quem tenho divergências mas que reconheço como grandes figuras –, já falaram que não podemos ler o romance brasileiro querendo encontrar um romance francês. No ensaio “A Dialética da Malandragem”, Antonio Candido afirma que “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, é muito diferente do padrão francês. Parte de outro contexto social e se dirige a outro tipo de leitor. 

A tentativa de reivindicar a origem do modernismo brasileiro fora da Semana de Arte Moderna já foi chamada de “querela localista”. Como o senhor responde a críticas dessa natureza?

Isso é uma bobagem. Em alguns debates de que participei, usaram o termo “bairrismo”. Mas eu respondo perguntando onde realmente está o bairrismo? Pois a superestimação do modernismo paulista tem um viés claramente localista, ou bairrista. Eu não entro nessa conversa porque é uma “cortina de fumaça”. 

Talvez haja uma questão localista no debate, mas eu nunca defendi a remoção de nomes do cânone. Não deveria haver essa competição, pois ninguém exige que se troque Drummond por Augusto Meyer como poeta. Oswald e Mário de Andrade são nomes importantíssimos, sim, essa jamais foi a questão. O que estou dizendo é que eles fazem parte de um processo histórico que foi vitorioso. A imagem de Mário e Oswald foi construída no processo de afirmação da unidade de São Paulo por meio da economia – a hegemonia do modernismo paulista é o soft power da dominação burguesa no Brasil, e dizer isso não significa afirmar que o modernismo paulista é sem valor. 

Eu apenas penso que o modernismo paulista não é tudo que aconteceu de moderno no país. A Semana de 22 está completando cem anos, então é momento de prestigiar a obra de Mário e Oswald de Andrade. Não se trata de diminuir a importância desses pesquisadores e escritores. Para mim, o que não serve é a visão exclusivista que chama de moderno apenas aquilo que for sancionado por São Paulo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.