Bicicleta compartilhada chega para confirmar que espaço para ciclistas em Goiânia é conquista definitiva

Em meio a uma gestão criticada, o trabalho para firmar um novo modal pode dar ao prefeito Paulo Garcia um lugar marcante na história da cidade

O repórter Elder Dias e o diretor-técnco da CMTC, Sávio Afonso, com a Mobike Gyn, a bicicleta compartilhada de Goiânia | Foto: Elder Dias

O repórter Elder Dias e o diretor-técnco da CMTC, Sávio Afonso, com a Mobike Gyn, a bicicleta compartilhada de Goiânia | Foto: Elder Dias

Elder Dias

Durante o texto de hoje, vamos dar um passeio na Mobike Gyn, a bicicleta compartilhada que estará, a partir de dezembro – segundo o compromisso da Prefeitura –, disponível em 150 unidades distribuídas por 15 estações. Antes, é preciso falar um pouco, até por questão de justiça, sobre uma herança que o prefeito Paulo Garcia (PT) deixará para a cidade.

Uma forma de definir mobilidade urbana é como o conjunto de políticas públicas para a área de transporte e circulação de uma cidade. Em outras palavras, uma cidade terá mais ou menos qualificação quanto à mobilidade de acordo com essas diretrizes que estabelece. Como, por exemplo, a priorização para cada um dos meios de transporte, os chamados modais. E aí entra o criticadíssimo prefeito com sua novidade: foi ele quem abriu aqui o espaço físico para um tipo de modal essencial nas grandes cidades modernas: a bicicleta.

É bem verdade que Paulo havia prometido mais de cem quilômetros de ciclovias — corredores restritos para bicicletas —, e vai entregar menos de cem quilômetros de rotas cicloviárias — contando ciclofaixas e ciclorrotas, além das ciclovias. Mas, como gestor, ele tomou uma decisão importantíssima: começar a construir essa malha cicloviária, que ainda é limitada e central, mas muito importante. Por um fator simples e que o personagem da matéria começa a explicar aqui nesta frase: “Dizem que não precisamos de ciclovias porque não tem fluxo de bicicletas. Só que muita gente não anda de bicicleta exatamente porque não tem seu espaço garantido no trânsito. É um círculo vicioso. Quando um prefeito resolve construir ciclovias e ciclorrotas, ele começa a criar um círculo virtuoso.”

Prefeito Paulo Garcia e a bicicleta: a malha cicloviária deve ser seu legado para a Goiânia do futuro | Foto: Divulgação

Prefeito Paulo Garcia e a bicicleta: a malha cicloviária deve ser seu legado para a Goiânia do futuro | Foto: Divulgação

As aspas do parágrafo anterior são de Domingos Sávio Afonso, que nos acompanhará de agora até o fim desta reportagem. Mais do que diretor-técnico da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) e um dos coordenadores do projeto de corredores preferenciais da atual gestão municipal, ele é um cicloativista na acepção da palavra. Quem quiser conversar com Sávio sobre as questões relativas à mobilidade urbana pode encontrá-lo em alguns dos muitos pedais que passaram a existir nos últimos anos pelas ruas de Goiânia, seja nas noites de meio de semana, nas tardes de sábado ou nas manhãs de domingo.

É com a melhor presteza de um agente público que Sávio responde ao pedido de pauta do repórter. Quero experimentar a Mobike Gyn em algum dos trajetos entre as estações. Ele não só atende positivamente como se coloca à disposição para ir junto – mesmo estando de férias.
Marcamos para a Praça do Sol, na terça-feira, 22. É o ponto mais próximo do Jornal Opção no qual haverá uma estação. A intenção é fazer um percurso durante o horário de pico em um trecho que também é feito de carro diariamente, para comparar a desenvoltura da bicicleta no difícil trânsito de Goiânia; por isso, a hora marcada para o encontro é às 17h30. No caso, este repórter aqui faz, todo dia, o trajeto Setor Universitário – Setor Marista – Setor Universitário, como parte da rota entre residência e local de trabalho. Um pedaço de chão em que, de carro e por volta das 18 horas, gastam-se geralmente entre 20 e 25 minutos, da Rua 26 (Marista) à Alameda Botafogo (Universitário).

Lá vou eu de carro, no dia marcado, à tarde, até a Rua 229, no Setor Universitário. Invariavel-mente, naquele horário (por volta das 15h30), a dificuldade é encontrar por ali uma vaga para estacionar. Na sequência, feita essa parte, pego uma bicicleta emprestada com a advogada Maria do Socorro Silva, que retomou há alguns meses o hábito de pedalar. Dela, levo também o capacete e as luvas, tudo gentilmente cedido para um ciclista sazonal. A partir dali, são cerca de quatro quilômetros até a sede do jornal, onde chego em menos de 17 minutos.

Foi, nesse trajeto, uma maior parte em subida. Assim se gastaria mais tempo, obviamente, do que o mesmo trecho ao contrário. Lamento informar que não respeitei plenamente os “pare!”, aproveitando as brechas, ainda que de forma segura, para cruzar vias. Tive a surpresa de encontrar um bom número de ciclistas durante o percurso. Olhando para o futuro, por que não pensar em encher a cidade de bikes? Ultimamente é algo que pode se considerar promissor.

Segui também um pequeno pedaço fora de ciclovias. Uma coisa que é necessário ressaltar: quase todo esse trajeto foi feito por elas. A partir do Eixo Universitário — a primeira ciclovia implantada em Goiânia —, cruza-se a Praça Cívica pelo meio, toma-se a Rua Dona Gercina Borges Teixeira e segue-se pela Avenida Assis Chateaubriand.

Realmente é um tanto desconfortável andar nesta última via. É que a Assis, em sua maior parte, vira “pista dupla” para bicicletas. Vê-se bem que a melhor solução seria uma pista de rodagem maior, em vez de duas (uma para cada sentido). Isso foi uma queixa relatada em uma oficina que a direção do Plano de Mobilidade de Goiânia promoveu com representantes de grupos de ciclistas, há algumas semanas. Se houver qualquer desequilíbrio, há um risco de cair na avenida e sofrer um sério acidente. A questão pode ser remediada, com mais educação e respeito às normas. O número de pedestres e até motos que ainda usam a via é prova de que isso é necessário.

Dois ciclistas descendo

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Às 17h25, Sávio liga. Já está no ponto de encontro, o display “I love Goiânia” que tomou o centro da nova Praça do Sol. Peço-lhe mais um tempo: tenho de me “montar” novamente (pôr a camiseta, calçar as luvas, colocar o capacete). Como sou prático demais para me vestir, tenho de começar a contabilizar isso como tempo extra para não me atrasar ao ir pedalar (são de três a cinco minutos para essa rotina).

Chego já faltando 15 minutos para as 18 horas. Do jornal até lá, um trecho que de bicicleta se faz em dois minutos. Se fosse para ir de carro… no mínimo cinco minutos, naquele horário. Antes da saída, a bicicletinha com a marca Unimed Goiânia, em tonalidades vivas de verde, já chama a atenção. Um rapaz nos vê e pergunta “ué, mas já está funcionando?”. E Sávio o convida a dar uma volta na praça com a bike. “É muito leve, muito boa”, diz o rapaz. Sávio encontra também Rivadávia, um geólogo ex-colega de trabalho na Metago, que acaba de chegar de São Paulo e fala das mudanças na Avenida Paulista para implantação da ciclovia. Ele elogia o corredor da T-63 e Sávio aproveita para o intimar a acompanhá-lo uma noite ao Pedal Tamandaré, que ocorre às quartas-feiras, a partir das 19h30.

Saímos da Praça do Sol virando à direita na Rua 9 com a Avenida João de Abreu. Logo na Rua 15, um semáforo fechado. Sávio guia a Mobike e eu sigo em minha bicicleta emprestada. A ideia é obedecer totalmente a sinalização para a marcação do tempo, embora a tentação natural do ciclista seja a de se aproveitar das brechas no trânsito. Descemos a 15 e pegamos a Rua 11 até a ciclovia da Assis Chateaubriand. Nesse ponto, encontramos o terceiro sinal vermelho.

Sávio observa que o fluxo é bem maior, nesse momento do dia, no sentido Centro–bairros, inverso ao que faremos. Já na ciclovia, chegamos à Praça Tamandaré, onde há uma cena inusitada: um caminhão a serviço da Prefeitura faz a instalação da decoração natalina, no que será o tradicional “túnel” do local. O problema é onde resolveram o estacionar: em cima do canteiro central, ocupando totalmente a faixa da ciclovia no sentido Setor Oeste – Centro.

Meu guia faz uma observação sobre a falta de cultura – e de respeito – com a bicicleta: “Veja qual foi a prioridade do motorista: em vez de estacionar na parte interna do asfalto, preferiu bloquear a ciclovia.” A infração fez com que tivéssemos de utilizar a pista do outro sentido, que tem nível mais baixo, impossibilitando retorno à original. Coincidência ou não, isso ocorreu no momento em que três ciclistas vinham na mão. Bom sinal, pelo crescimento da utilização da pista, mau sinal pelo desconforto de saber que qualquer contato poderia causar um acidente sério. Mas tudo deu certo.

Descemos pela Praça Cívica e, na Rua 10, enfrentamos um outro problema: o uso da pista por pedestres e a ocupação até mesmo com cadeiras e mesas dos quiosques da via. O passeio termina na parte inferior da Praça Universitária, onde haverá a instalação de uma estação. Foram 18 minutos desde a partida, com velocidade média de 14 km/h, com maior trecho em descida. Apesar da parada em cinco semáforos, o tempo foi menor do que a média do trecho em carro, saindo do mesmo ponto, naquele horário.

Pilotando a Mobike
Faço, então, meu teste com a Mobike: é uma bicicleta que, para se conduzir, se assemelha a uma versão atualizada da velha Monareta, para quem viveu a infância ou a juventude nos anos 70 e 80. O câmbio Shimano tem três marchas que respondem imediatamente ao serem acionadas – muito bom! Há um dínamo no eixo dianteiro que produz energia para gerar automaticamente a iluminação de segurança para os LEDs frontal e traseiro. A cesta cabe uma pequena pasta e o cano rebaixado é ideal para o conforto no uso urbano, especialmente das mulheres. A proteção da corrente e os para-lamas servem para diminuir a chance de o condutor se sujar durante o percurso. A bike tem ainda selim de altura regulável, buzina e retrovisor.

Para ter acesso à bicicleta compartilhada será necessário fazer um cadastro e pagar uma taxa diária (4 reais), mensal (8 reais), semestral (35 reais) e anual (70 reais) para receber o passe. Será necessário ao usuário ter um smartphone para instalar um aplicativo e fazer sua operação via 3G – ou seja, quem não tiver um celular desse tipo não terá como usar as bikes, o que não deixa de ser algo restritivo. Para cada vez que acionar o sistema dará um passe por uma hora para conclusão do percurso, desde o destravamento até a entrega do veículo em outra estação – podendo, porém, haver renovação quantas vezes for necessário.

As “Mobikes” goianienses são de um modelo que está sendo estreado em Goiânia, com um quadro de alumínio de único tubo, reforçado. Foram desenvolvidas pela empresa Samba Transportes Sustentáveis, têm fabricação 100% nacional, pesam em torno de 16 quilos e estão adaptadas às normas do Código de Trânsito Brasileiro.

A entrada em operação será uma prova de fogo para a Mobike. Muitos desconfiam que serão rapidamente depredadas e que o calor da cidade vai fazer o projeto fracassar. Com relação ao clima, Sávio Afonso cita um exemplo clássico. “Numa viagem, o prefeito Paulo Garcia fez essa pergunta, sobre pedalar no calor, para Jan Gehl [arquiteto e urbanista dinamarquês]. Ele respondeu: ‘Vocês são abençoados. Difícil é pedalar aqui na Europa, com neve e um frio cortante batendo no rosto’.” Na vida, tudo é questão de começar. E de tentar. No poder público, também. A despeito das críticas, a gestão que se encerra pode deixar, com as políticas para as bicicletas, um legado valioso para a Goiânia do futuro. l

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