Agir contra a ditadura da felicidade pode reduzir número de suicídios

Grupo cria espécie de rede de proteção para evitar ou pelos menos reduzir o número de suicídios em Goiás e no Brasil. Trabalho difícil mas necessário

Imagem: Melancolia, de Edvard Munch

Uma mãe em luto, uma professora, uma psicóloga e mais duas profissionais de saúde fundaram um subgrupo com foco no bem-estar das mulheres, um braço de um guarda-chuva do grupo Mulheres do Brasil. Os integrantes se uniram no início de setembro, em Goiânia, a fim de conversar e propor ideias para melhorar o cotidiano das mulheres que sofrem algum tipo de transtorno físico ou psíquico. A primeira causa abraçada pelo subgrupo, sobre suicídio juvenil, surtiu efeito em pouco tempo e ocupou as agendas das integrantes com palestras e debates em escolas públicas e privadas da capital goiana. O grupo reúne-se, neste mês, com membros da Secretaria de Educação e Cultura de Goiás para agendar contato com docentes da rede pública para montar o calendário de atuação.

Os dados sobre “morte voluntária” tomou proporções inesperadas no Brasil ao ponto de o Conselho Federal de Medicina, em parceira com o Centro de Valorização da Vida (CVV) e a Associação Brasi­leira de Psiquiatria (ABP), lançar a campanha Setembro Amarelo em 2015, ano em que se registrou um aumento assustador de suicídio na faixa etária de pré-adolescentes, entre 10 e 14 anos. O Ministério da Saúde divulgou relatório, em 2017, com registros de mortes por suicídio no Brasil entre 2011 e 2015 e em todas as idades.

O Brasil registrou 11.433 mortes por suicídio em 2016 – em média, um caso a cada 46 minutos. O número representa um crescimento de 2,3% em relação ao ano anterior, quando 11.178 pessoas tiraram a própria vida. “O aumento da taxa de suicídio cresce mais que o aumento da população no Brasil, que é de 40%”, lamenta a Diretora do subgrupo goiano de saúde do grupo Mulheres do Brasil, Sônia Braga. O grupo ao qual Sônia pertence reúne 20 mil mulheres em todo o País e está subdividido em áreas temáticas de Empreen­dedorismo, Cultura, Educação, Igualdade Racial, Saúde e outros.

Novos dados foram apresentados na quinta-feira, 20, em Brasília, pelo Ministério da Saúde. A diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Minis­té­rio da Saúde, Fátima Marinho, no entanto, estima que o numero seja maior. Em entrevista coletiva, ela citou “um subdiagnóstico de 20%”. “O desemprego também tem sido um fator de risco das tentativas de suicídio. Uma análise que a gente ainda vai melhorar é a de determinadores sociais, como também é a da violência de gênero contra as mulheres”, disse Fátima Marinho. A divulgação faz parte das ações da campanha Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.

O suicídio representa, atualmente, a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Entre os homens nesta faixa etária, é o terceiro motivo mais comum. Entre as mulheres, o oitavo.

Em todo o país, foram registradas 106.374 mortes por suicídio entre 2007 e 2016. No período analisado, constatou-se um aumento de 16,8% no número total de ocorrências – entre homens, o aumento chegou a 28%.

Segundo o relatório apresentado pelo governo federal, as tentativas de suicídio por intoxicação intencional, de 2007 a 2017, resultaram em 12 mil internações por ano, que tiveram um impacto de R$ 3 milhões anuais no orçamento público. O valor equivale a recursos que cobririam a implementação de oito Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) por ano.

Os CAPs reduziram em até 14% as tentativas de suicídio em vários municípios brasileiros. O relatório do Ministério da Saúde confirmou a construção de 109 novos Caps em 20 estados.
De acordo com o governo, R$ 1,4 milhão foi destinado a projetos desenvolvidos nas Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) nos estados do Amazonas, Mato Grosso do Sul, Roraima, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, considerados prioritários por apresentar taxas elevadas de suicídio.

Família e redes sociais

Sônia Braga conversa há anos com jovens e adultos “em caminho de suicídio” para entender a raiz da cau­sa. Ela aponta a “ditadura da felicidade” como o principal motor de infelicidade e incidência de suicídio na população jovem e adulta.

“Entre os jovens, acontece quando eles veem os colegas se mostrando felizes na vida e eles não entendem o por quê. É triste aos jovens essa obrigação de ser feliz. A partir daí, começam a sentir uma dor interna e é quando se desencadeia o caminho ao suicídio.”

As escolas de ensino fundamental e médio da capital ganharam o foco do grupo coordenado por Sônia Braga por ter maiores condições de detectar sinais de depressão em jovens e conseguir interferir no quadro do estudante a caminho de um suicídio. A entrada nos estabelecimentos de ensino visa amparar tanto o estudante quanto o docente. “Os professores conseguem perceber quando algo está errado com um de seus alunos, mas, às vezes, não têm conhecimento para abordar o estudante e conversar sobre o problema e é aí que nós queremos ajudar.”

A diretora do projeto explica que os pais são os primeiros a serem alertados pela diretoria da escola e, mais uma vez, os familiares podem piorar a situação ao não saber lidar com o problema. “É bem complexo esse trabalho. Se o professor não faz nada em relação ao aluno, ele fica com sentimento de omissão depois. Os pais também precisam participar das conversas sobre o tema na escola para atuarem em conjunto.”

Sonia Ferreira, Auriane Rissi, Sônia Braga, Cynthia Cunha e Nelly Achkar: Agenda de compromissos das integrantes do grupo de prevenção ao suicídio já está cheia em escolas públicas e privadas | Foto: reprodução

A falta de rede de apoio familiar e a desilusão com a vida são outras duas fagulhas que ajudam a acender o projeto de suicídio na cabeça de um indivíduo. As gerações passadas mantinham vínculos familiares mais consistentes, aponta Sônia Braga, com os pais, tios mais próximos, primos e avós. “Hoje, tais laços estão perdidos e longe do convívio cotidiano das pessoas. As redes sociais têm parcela de culpa na questão do distanciamento familiar. As famílias não conversam mais e as pessoas gastam mais tempo no celular vivendo outras vidas do que a sua própria.”

As pessoas “em caminho de suicídio” não querem morrer, afiança Sônia Braga, citando dados da Organização Mundial da Saúde. A OMS revela que 90% das pessoas pesquisadas sobre suicídio não querem tirar a própria vida.

Outro fator é o que se pode denominar de “desilusão com as ideias”. Falta ao jovem uma causa — emocional, profissional, financeira — pela qual lutar. “Isto acabou com a esperança dos jovens — que não conseguem mais enxergar um futuro”, sustenta Sônia Braga.

Rede de acolhimento

A psicóloga clínica Auriane Rissi, do grupo de Saúde Mulheres do Brasil em Goiás, sublinha que o suicídio é abordado como tabu pelos pacientes atendidos em seu consultório, mas prevê uma abertura maior para conversar sobre o tema com o engajamento da sociedade em campanhas vigentes pelo Brasil, como o Setembro Amarelo.

Auriane Rissi foi convidada a fim de colaborar com os trabalhos do grupo. “Naquele momento percebi que o tema deveria ser tratado de forma mais contundente e não apenas ficar explicando e explicando. Eu entrei para ajudar a fazer diferença de forma prática evitando mais casos de suicídio.”

Após atender diversos casos de familiares com casos de suicídio na família e pacientes em caminho de tirar a própria vida, a psicóloga entendeu que a melhor forma de prevenir é ajudando os atores que estão diariamente na formação educacional dos jovens: os professores. “O grupo quer promover integração nas escolas com oficinas e atividades eficazes para ajudar os jovens com sintomas de depressão e suicídio. Por intermédio da escola, podemos convocar a família para ajudar, porque lá é onde o jovem lida com várias questões sociais, como bullying. A ideia é formar uma rede de acolhimento para a juventude.”

Depressão grave

Segundo dados do Ministério da Saúde, em 95% dos casos de suicídio registrados no país as pessoas mantinham quadros graves de depressão ou outra doença patológica.

O psiquiatra Rogério Oliveira atende pacientes com quadro de depressão há 12 anos e a linha tênue entre um paciente que pode evoluir para o suicídio ou não está no aparato social e emocional que recebeu durante a vida. “Cada paciente tem seu tempo e forma de lidar com a depressão. Se o paciente tem condições emocionais de lidar com a tristeza que vive no momento e o que diferencia de um paciente que precisa de ajuda mais profunda ou não é como lida com os eventos que o acometem naquele momento.” O profissional explica que, normalmente, os médicos avaliam que a intensidade da dor sofrida pelo paciente é proporcional ao evento sofrido.

O médico revela que não há um dia sequer que não atenda, no mínimo, um paciente que tem ou teve pensamento de tirar a própria vida. “Geralmente a pessoa vive uma dificuldade relacional, seja amorosa, familiar, emprego ou acadêmica — são sentimentos de isolamento e frustração.” Rogério Oliveira destaca que é bem comum pessoas em situação de luto apresentar alto risco de pensamento suicida.

A psicóloga Auriane Rissi percebe uma conexão entre a hegemonia das redes sociais na vida das pessoas e a chamada “ditadura da felicidade”. Trata-se de um problema presente em todas as camadas sociais. “Neste mundo paralelo, onde nem tudo é real, porém é compartilhado, criou-se a fantasia de que todos são obrigados a serem felizes como os outros aparentemente são.”

A psicóloga pontua que é preciso diferenciar prazer de felicidade. “Um carro novo pode trazer prazer, mas não necessariamente felicidade. Estamos antes uma geração que teve tudo ou quase tudo. O Brasil viveu uma época onde tudo foi permitido, em vários aspectos. A crise atual fechou muitas portas, até em termos financeiros.”

Atualmente, alguns ou vários pais “não gastam energia” para educar os filhos e poucos estão dispostos a isso. “Não tem a ver com dinheiro nem com bens materiais, e sim com a forma como cada um lida com o sofrimento psíquico. É preciso ter a preocupação de criar as crianças para o mundo real, no qual existem alegrias e tristezas. Os jovens precisam aprender a lidar com os dois polos”, assinala Auriane Rissi.

11 mil pessoas se suicidam no Brasil por ano; homens se matam mais

Cerca de 11 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no Brasil. De acordo com o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio divulgado pelo Ministério da Saúde em 2017, entre 2011 e 2016, 62.804 pessoas tiraram suas próprias vidas no país, 79% delas são homens e 21% são mulheres. A divulgação fez parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.

Entre 2011 e 2015, a taxa de mortalidade por suicídio entre os homens foi quatro vezes maior que a das mulheres. São 8,7 suicídios de homens e 2,4 de mulheres por 100 mil habitantes.
Em 2015, houve 1,2 milhão de mortes e 17% tiveram causa externa. Dessas 40% são registradas por causas não determinadas. No Brasil, os idosos, de 70 anos ou mais apresentaram as maiores taxas — com 8,9 suicídios para cada 100 mil habitantes. Mas, anota o psiquiatra Rogério Oliveira, a população idosa vem aumentando. Além disso, eles sofrem mais com doenças crônicas e depressão.

Os dados apontam que 62% dos suicídios foram causados por enforcamento. Outros meios utilizados são intoxicação e arma de fogo. A proporção de óbitos por suicídio também foi maior entre as pessoas que não têm um relacionamento conjugal: 60,4% são solteiras, viúvas ou divorciadas e 31,5% estão casadas ou em união estável.

Entre 2011 e 2015, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil foi maior entre a população indígena, sendo que 44,8% dos suicídios indígenas ocorreram na faixa etária de 10 a 19 anos. A cada 100 mil habitantes são registradas 15,2 mortes entre indígenas; 5,9 entre brancos; 4,7 entre negros; e 2,4 morte entre os amarelos.

Tentativas de suicídio

As notificações de lesões autoprovocadas tornaram-se obrigatórias a partir de 2011 e elas seguem aumentando. Entre 2011 e 2016, foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas; 27,4% delas, ou seja, 48.204 foram tentativas de suicídio.

As tentativas de suicídios são mais frequentes em mulheres. Das 48.204 pessoas que tentaram tirar a própria vida entre 2011 e 2016, 69% era mulheres e 31% homens. A proporção de tentativas de suicídio, de caráter repetitivo, também é maior entre as mulheres. Entre 2011 e 2016, daqueles que tentaram suicídio mais de uma vez 31,3% são mulheres e 26,4% são homens.

O meio mais utilizado — 58% — nas tentativas de suicídio foi por envenenamento. Seguido de objeto perfurocortante: 6,5%e enforcamento: 5,8%.

Acordo com o CVV

O Ministério da Saúde mantém, desde 2015, parceria com o Centro de Valorização da Vida, que começou com um projeto-piloto no Rio Grande do Sul. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e voip — 24 horas todos os dias.
O objetivo da parceria é am­pliar gradualmente a gratuidade de ligações para o CVV, mesmo que por celular, segundo dados da pá­gi­na na internet do Ministério da Saúde.

De acordo com os índices do Ministério da Saúde, 21% da população brasileira reside nos nove Estados a serem atendidos gratuitamente pelo CVV, o que garante uma ampla cobertura. O acordo já ampliou o número de atendimentos: de 4,5 mil em setembro de 2015, para 58,8 mil em agosto de 2017. Até 2020 todo o território nacional poderá contar com o atendimento pelo 188.

Especialistas dizem que pais precisam ter mais controle sobre os filhos

“O dever do pai e da mãe é controlar os desejos dos filhos.” É o entendimento de Sônia Braga a respeito da evolução tecnológica globalizada e que integra todos — inclusive e maciçamente as crianças.

“É mais fácil dizer ‘sim’ ou ‘não’ para uma criança?”, questiona Auriane Rissi. A psicóloga aprova o uso de tecnologia, para fortalecer a aprendizagem e o conhecimento, mas não o “vício” das crianças. A especialista frisa que os pais não dizem mais “não” aos filhos porque dá trabalho explicar a razão negativa. “Eu vejo muitas famílias ‘silenciando’ as crianças com celulares e joguinhos. Trabalho com muitos jovens no consultório e eles têm intolerância às frustrações da vida.”

O psiquiatra Rogério Oliveira observa que os pacientes jovens têm buscado uma realização na vida de forma instantânea. “Olhando os momentos e os sentimentos que as pessoas apresentam, podemos fazer uma ligação com a procura da felicidade, mas eles querem uma felicidade muito rápida. É preciso verificar que a vida não é linear, reta e ascendente. Os pais têm dificuldades em mostrar aos jovens que a vida é uma estrada com buracos, mas perfeitamente normal. Principalmente os jovens, eles recebem um ônus muito grande da dificuldade que a sociedade tem vivido e não encontram meios de se ajustar a essa presSa de ser feliz, de um futuro que tem que ser conquistado já.”

Dados do Ministério da Saúde registraram aumento de 65% em morte voluntária entre pré-adolescentes de 10 a 14 anos. “É contraditório o suicídio nesta idade — que representa a felicidade e momento de descoberta na vida”, assinala Auriane Rissi.

Debate necessário

Os assustadores índices brasileiros de morte voluntária são uma janela aberta para debater o tema na sociedade mas com a seriedade necessária, afirmam especialistas. “A sociedade está se mobilizando e isso vem acontecendo há anos. Vários segmentos da sociedade e associações têm trabalhado para se fazer algo real para prevenir o suicídio. Podemos falar sobre o tema, mas não glamourizar nem divulgar os métodos”, analisa Auriane Rissi.

Para o médico Rogério Oliveira, que como psiquiatra desde 2006, as pes­soas buscam se informar sobre a morte voluntária por viver experiências pessoais ou assistir casos de pessoas próximas. “O tema tomou uma pro­porção muito grande e a sociedade tem se preocupado com o assunto por ele ‘não escolher’ classe social.” É um problema de todas as classes sociais.

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