A verdade sobre o golpe militar em Goiás

Diz-se que a ditadura em Goiás começou mais tarde. Não é verdade, assim como a queda de Mauro Borges meses depois não significa que o então governador de Goiás foi contra o golpe

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Mauro Borges, em 1960, durante a solenidade de posse como governador do Estado, na Assembleia Legislativa de Goiás | Foto: Reprodução

Marcos Nunes Carreiro

Deputado estadual por quatro mandatos, Eurico Bar­bosa começou na política pela União Democrática Nacional, o mesmo partido que deu suporte político à ditadura deflagrada com o golpe do dia 31 de março de 1964. Porém, o deputado goiano se considerava da ala progressista da legenda, a chamada “bossa nova” da UDN. Mas eram poucos no país que, mesmo na UDN, aderiam a essa linha mais de esquerda desse partido de centro-direita. Fora ele, havia o deputado federal por Minas Gerais Celso Passos, e o deputado federal pelo Pará Ferro Costa, entre outros. E para justificar seu posicionamento, utiliza de um argumento: quando o golpe aconteceu, ele foi contra. Quando começaram as torturas, rompeu com a UDN.

Hoje, com mais 80 anos, Barbosa mora no Setor Sul de Goiânia, onde recebeu a reportagem do Jornal Opção. Ele ainda fala do golpe de 64 com “fogo no olhar”. Durante algumas horas, Barbosa conversou acerca de como o golpe foi articulado em Goiás, sobretudo sobre os artífices que, segundo ele, contribuíram para a deposição do então governador do Estado, Mauro Borges.

Confira entrevista histórica de Mauro Borges concedida ao Jornal Opção: “O nacionalista que se inspirou nas Missões”

Em 1961, quando Mauro Borges entrou no levante nascido no Rio Grande ao Sul para que João Goulart, o Jango, pudesse tomar posse como presidente da República em lugar de Jânio Quadros, que havia renunciado, Barbosa fazia oposição ao governo estadual. Afinal, era da UDN. Em 1° de abril, dia seguinte à deflagração do golpe que derrubou João Goulart, subiu à tribuna da Assembleia Legislativa de Goiás para se pronunciar contra o golpe e contra Mauro Borges, que havia apoiado o levante militar.

É comum pensar que Mauro Borges foi contra o golpe, pois acabou deposto do governo ainda em 1964. Mas não foi assim. Os motivos para a deposição do governador de Goiás foram outros. Prova disso é que, assim que tomaram o poder, os militares depuseram vários governadores, dois deles no dia do golpe: Miguel Arraes, de Pernambuco, e João de Seixas Dória, de Sergipe. Outros ficaram na mira dos militares. O governador do Rio de Janeiro, Badger da Silveira, por exemplo, foi deposto logo em seguida.

Mauro Borges apoiou o golpe, mas o fez por incoerência, ou mesmo inocência política. Tanto é que veria o quadro mudar em julho daquele mesmo ano, quando os militares começaram a articulação para depô-lo. Quando isso começou a acontecer, o deputado Barbosa mudou de lado e passou a apoiar Mauro Borges, que começava a sofrer perseguições por parte dos mesmos militares que apoiou meses antes. Mas por quê? Bom, João Goulart sofreu para conseguir tomar posse como presidente da República. Conseguiu com a ajuda de governadores e parte dos militares. Contudo, ao longo de seu governo, o presidente não tratou seus apoiadores da forma devida, sobretudo Mauro Borges. O governo de João Goulart tratou o governador de Goiás de maneira ríspida e negativa. Logo, Mauro Borges não conseguia nada junto ao governo federal. Não conseguia dar fluência ao seu governo, tido até então como progressista.

Além disso, o próprio João Goulart deu apoio aos inimigos políticos de Mauro Borges. Ele chamou, por exemplo, Alfredo Nasser para ser ministro da Justiça. Quem era Alfredo Nasser: líder da UDN, o principal partido de oposição em Goiás. Fez isso com outros cargos e também eleitoralmente. João Goulart era do PTB, partido que em Goiás apoiava Mauro Borges. Contudo, depois de certo tempo, o próprio presidente passou a incentivar seu partido a lançar candidatura própria nas eleições de 1965. Ou seja, na visão do governador, uma ingratidão.

Dessa forma, Mauro Borges, mesmo tendo apoiado João Goulart, não recebeu regalia alguma junto ao governo federal. Essa é a principal explicação para o apoio dado por Mauro Borges ao golpe militar: derrubar o presidente. Contudo, o apoio ao golpe era uma incoerência, porque quando em 1961, os militares tentaram alçar ao poder, o próprio Mauro Borges lançou um Manifesto à Nação contra os colegas militares –– Mauro Borges era coronel do Exército ––, a quem ele chamou de forças retrógradas.

Por essas ações controversas, no início, os militares deram um tratamento razoável ao governo de Goiás. Contudo, depois de certo tempo, pressões começaram a aparecer sobre ele. Inúmeras denúncias foram veiculadas acerca do perfil “comunista” do governador de Goiás, pois havia várias pessoas de esquerda compondo o governo de Goiás. E, de fato, muitas figuras de esquerda estavam em cargos de primeiro escalão. Contudo, a presença dos “comunistas” em Goiás não foi suficiente para que o então presidente militar, marechal Castello Branco, cassasse Mauro Borges.

Então, os militares mandaram para Goiânia o coronel Danilo Darcy de Sá da Cunha e Mello para comandar o 10° Batalhão de Caçadores (BC). Ele começou a fazer Inquéritos Policiais Militares (IPMs) para indiciamentos. Em um deles, ele teria indiciado 140 pessoas, das quais a maioria era ligada ao governo de Mauro Borges. E assim foi se fortalecendo a articulação contra ele. Até o presidente Castello Branco, que resistia em depô-lo, foi sendo convencido a fazê-lo.

A demora no consentimento de Castello Branco foi tanta, baseado na pressão que estava sofrendo, que certo dia, o coronel Danilo de Sá fez um manifesto lamentando que a chamada revolução não estava cumprindo com o propósito de depor governadores comunistas. Foi quando o governo federal afastou-o e colocou em seu lugar o general Riogran­dino Kruel, pois ele tinha patente superior a do coronel Mauro Borges. E foi Kruel que apertou o cerco ao governo de Mauro Borges.

A queda do governo de Goiás, contudo, só veio em no­vembro, quando sob habeas corpus concedido pelo Supre­mo Tribunal Federal (STF), o governo federal não pôde depor Mauro Borges, mas decretou intervenção em Goiás. Deram o prazo de 45 dias para que a intervenção fosse feita. O interventor foi o coronel Carlos de Meira Mattos. Passados os 45 dias, o presidente Castello Bran­co escolheu o marechal da re­ser­va Emílio Ribas Júnior para governar o Estado, com aprovação da Assembleia Legislativa goiana. Ele ficou um ano e foi substituído por Otávio Lage (PTB), eleito em 1965, quando ganhou do candidato do PSD, Pei­xoto da Silveira. Ele governou até 1970, quando já não havia eleições, e Leonino Caia­do foi indicado para assumir o governo, seguido por Irapuan Costa Junior e Ary Valadão.

Articulação para derrubar Mauro Borges

Além dos militares, foram três civis os principais articuladores para a queda do governador Mauro Borges: o deputado federal Emival Caiado (UDN) e os deputados estaduais Ary Valadão (UDN) e Joaquim Olinto Meirelles (PSP). A UDN queria depor o governador de Goiás por causa dos militares e o PTB –– em consequência o PSP –– devido ao apoio dado por Mauro Borges à deposição de João Goulart. Com a representação dos três políticos, que iam ao Rio de Janeiro manter contato com o alto comando militar –– e entregar a eles listas de comunistas e subversivos que integravam o governo goiano –– foi criado o clima em que se projetou de modo eficaz a deposição de governador.

Olinto Meirelles diz que realmente fez um trabalho intenso junto à Justiça Federal em Goiás, com a ajuda de contatos na Polícia Federal (PF), para derrubar Mauro Borges. Além de ser líder da UDN, Meirelles foi secretário de Alfredo Nasser no Ministério da Justiça durante o governo do primeiro-ministro Tancredo Neves –– quando João Goulart assumiu em 1961, o governo era parlamentarista e o primeiro-ministro era Tancredo. Por isso, detinha muitos contatos entre os militares. Contudo, ele ressalta que articulou contra o governador por reconhecer que ele teve papel eficaz no processo que cassou o próprio Meirelles meses antes.

“Logo no início do governo militar, foi realizada uma articulação forte para me cassar. E Mauro Borges teve papel fundamental nesse processo. Por isso, articulei contra ele. Muito tempo depois, ele me convidou para almoçar em sua casa e lá me entregou uma pasta superlotada de documentos que tinha contra mim. Ele me disse: ‘Olinto, tudo o que fiz contra você na Assembleia e também o que não fiz está aqui. Todos esses documentos foram enviados para mim pelos deputados do meu partido. Eu não usei tudo, mas você pode ficar com isso”, conta.

Segundo Meirelles, um dos contatos usados para causar a queda de Mauro Borges foi o então chefe da PF, coronel Carlos Cairoli, que tinha assumido a posição por indicação dele e de Alfredo Nasser, assim como muitos outros tanto em Goiânia quanto em Brasília. “Usei esses contatos para articular a queda do Mauro. Tanto eu conhecia essas pessoas que o Cairoli tirou um amigo da prisão a meu pedido, o Jesus da Paixão Reis, que havia sido, inclusive, secretário particular do Mauro.”

Assembleia Legislativa: maurista até a intervenção

A Assembleia Legislativa era composta por 39 deputados, com maioria absoluta do PSD, partido do governador Mauro Borges, fora os partidos aliados. Dado esse cenário e tendo em mente que era necessária a aprovação dos deputados para que o governador deixasse o cargo, era certo que Mauro Borges continuaria à frente de Goiás. Porém, não foi assim que aconteceu.

Relembrando essa época, o ex-deputado Eurico Barbosa parece se entristecer ao falar: “Em certo tempo, parecia que o Mauro não ia cair. Houve certo declínio do ardor golpista, mas quando o coronel Danilo [de Sá] foi mandado para cá reacenderam-se os ânimos e a deposição foi inevitável”. O interessante é que Barbosa era da UDN, partido de oposição a Mauro Borges, até pouco depois do golpe. Ele conta que fez uma oposição construtiva ao governador durante o ano de 1963. Porém, mesmo sendo udenista, no dia 1° de abril de 1964, quando o golpe foi deflagrado, ele fez um pronunciamento violento contra o golpe e também contra Mauro Borges, que havia apoiado os militares naquele primeiro momento. Para ele, a lógica política mostrava que o governador também iria ser vítima do golpe. E foi o que disse no discurso.

Ex-deputado Eurico Barbosa: “Contra o golpe desde o início, pois os militares utilizavam de meios sórdidos” | Fernando Leite/Jornal Opção

Ex-deputado Eurico Barbosa: “Contra o golpe desde o início, pois os militares utilizavam de meios sórdidos” | Fernando Leite/Jornal Opção

Porém, em julho, quando o coronel Danilo de Sá começou sua ação para depor Mauro Borges, Barbosa mudou de lado. “Eu passei a apoiar o governador, rompi com a UDN e fui para o MDB. E fui ativo no apoio ao Mauro. Inclusive, fui o chefe do serviço de imprensa durante o último mês de governo. Lembro-me até que eu redigia as entrevistas que o governador dava para a imprensa, principalmente para o Correio da Manhã”, declara ele.

Já na base de apoio ao governo goiano, Barbosa conta que viu a bancada se esfacelar pouco antes da intervenção ser anunciada. “A bancada maurista na Assembleia foi 100% coesa até o momento em que houve a intervenção. De­pois se debandou. Um deputado do PSD aceitou, inclusive, ser o vice do governador militar Emílio Ribas Júnior. Ele se chamava Almir Turisco de Araújo. Fazen­dei­ro, ele já havia previsto, anos antes, que Jango não iria durar mui­to no governo, uma vez que a classe produtora estava contra ele. Ele disse, na época: ‘nós fazendeiros estamos armados. Ele não chega até 64’. E foi o que aconteceu. Mas o Almir não foi o único. O Eliezer Penna, também do PSD, foi secretário de Indústria e Co­mércio no governo Ribas Júnior.”

Por ser contra o golpe, e ter mudado de lado, Barbosa foi cassado em 1969. Segundo ele, nesse ano, eles resolveram “fazer um limpa” no MDB de Goiás. De fato, cassaram os senadores Pedro Ludovico e João Abraão, o então prefeito de Goiânia, Iris Rezende, e os deputados estaduais Manoel da Silva Brandão, Francisco Maranhão Japiassu e Olímpio Jayme, além do próprio Barbosa. “Cassaram muita gente. Até pessoas que aderiram ao regime. O [deputado federal] Jaime Câmara foi um deles. Enfatizo esse caso, porque ele era do João Goulart. Contudo, com a investida militar contra Mauro Borges, ele colocou seus meios de comunicação a serviço do regime. Mas foi cassado do mesmo jeito”, relata. O mesmo aconteceu com muitos dos componentes do governo de Mauro Borges.

“Comunistas do governador” foram exonerados

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O governo de Mauro Borges era multipartidário. Isto é, formado por pessoas de vários segmentos políticos. Isso porque o governador se preocupava mais com o aspecto técnico do que com as tendências políticas de seus auxiliares. Dessa forma, havia muitas pessoas de esquerda no governo. Assim, tendo apoiado o golpe, Mauro Borges acabou pressionado por exonerar e perseguir essas pessoas classificadas pelos militares como “comunistas”.

De fato, Mauro Borges precisou exonerar muitos e aconselhar outros a fugir. Alguns, inclusive, foram presos pelo próprio sistema de segurança do Estado na época, caso do assessor particular do governador, Tarzan de Castro. Os militares identificaram, ao todo, 63 servidores estaduais como supostos “comunistas”. Além dos 11 apontados nos trechos publicados ao lado, aqueles que tinham ligação direta com Mauro Borges, outros 52 nomes aparecem em um tópico do relatório escrito pelo general Riograndino Kruel, então encarregado dos Inquéritos Policiais Militares (IPMs) em Goiás, e entregue no dia 12 de novembro de 1964, isto é, 14 dias antes da queda de Mauro Borges do governo goiano. Com o nome “demais órgãos do Governo de Goiás”, a segunda lista de “comunistas” aponta os seguintes nomes:

“(1) Secretário do Interior e Justiça; acumulando com a Secretaria do Trabalho e Ação Social de julho de 1963 até junho de 1964: WISON DA PAIXÃO, direitos políticos cassados por 10 anos por atividades subversivas. (2) Secretário de Educação e Cultura: Padre RUY RODRIGUES, direitos políticos cassados por 10 anos por atividades subversivas. (3) Secretário de Administração: WALTENO CUNHA BARBOSA, direitos políticos cassados por 10 anos por atividades subversivas. (4) Secretário de Trabalho e Ação Social: ÉRIDES GUIMARÃES, (até julho de 1963), agitador, fichado pela DOPS e pelo Exército – foragiu-se após a Revolução. (5) Secretário de Saúde: JACY NETO DE CAMPOS, comunista, ex-candidato a deputado pelo PCB. Foragido. Demitido após a Revolução. (6) Superintendente das do Consórcio de Empresas Radiofônicas e Noticiosa do Estado: FERNANDO CUNHA JUNIOR. Comunista. Foragiu-se após a Revolução. (7) Diretor da Gráfica do ‘CERNE’: WASHINGTON BARBOSA: comunista. Direitos políticos cassados por 10. Nomeado pelo governador após a Revolução. (8) Diretor da Rádio Brasil Central: JOSÉ RIBAMAR LEITE. Comunista fichado no Exército. Permanece na função. (9) Diretor do Diário Oficial do ‘CERNE’: ELOYSIO RODRIGUES DA SILVA. Comunista fichado no Exército. Exonerado, a pedido, em 22 de maio de 1964.

“(10) Diretor do Instituto Popular de Cultura do ‘CERNE’: WASSY GOMES DA SILVA. Elemento subversivo. (11) Diretor do Depar­tamento Estadual de Saneamento: RODOLFO JOSÉ DA COSTA E SILVA. Comunista. (12) Diretor da Divisão de Lotes Urbanos do ‘DES’: JUAREZ GUIMARÃES BRITO (até fins de 63). Comunista. Preso preventivamente em Recife (13) Diretor da Divisão de Lotes Urbanos do ‘DES’: CLAUDIO MENDES (até a data de sua prisão, cerca de três meses atrás): Comunista. (14) Chefe da seção do ‘DES’: JEOVÁ FERREIRA PINTO. Comunista. De­mitido em 9/10/1964. (15) Diretor presidente da Grafites de Goiás S/A – ‘GRAFISA’ e diretor comercial da ‘METAGO’ e ÁULIO MENDES DINIZ. Comunista. Demitiu-se. (16) Diretor presidente da Grafites de Goiás S/A – “GRAFISA”: LÉO QUEIROZ BARRETO. Comunista. (17) Diretor Presidente da Metais de Goiás S/A – ‘METAGO’: PAULO TEIXEIRA. Comunista. Foragiu-se. Demitiu-se. (18) Diretor Comercial e Administrativo da ‘METAGO’: LUIZ ZACARIAS PEDROSA. Permanece nas funções. Comunista. (19) Diretor financeiro, e após a revolução Presidente Financeiro da ‘METAGO’: REGINALDO ARÉ­DIO FERREIRA. Comunista. (20) Diretor da Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Goiás – ‘CASEGO’: CLOVIS FLEURY. Co­munista. Foragido.

“(21) Chefe da Assessoria de Planejamento da Secretaria de Educação: EVELINE PAPPER SINGER. Comunista. Foragida. Demitida. (22) Chefe de gabinete do Secretário de Educação e Cultura: PAULO WASCHECK. Comunista. Permanece nas funções. (23) Chefe da Assessoria Sindical da Secretaria do Trabalho e Ação Social: MARIA SALAS DIB. Comunista. Foragida. (24) Diretor do Departamento de Assistência Sindical do SEC do Trabalho e Ação Social: JOSÉ BENEDITO MONTEIRO. Co­munista. Demitiu-se. (25) Diretor do Departamento de Assistência Social: WALDEMAR CELESTINO CHAVES. Comunista. Exonerado. (26) Diretor do Serviço de Assistência do Trabalho: CIRILO LUIZ CORREIA. Comunista. Demitido pelo Art. 7° do Ato Institucional. (27) Diretor do Departamento Hospitalar da Secretaria da Saúde: HUGO ALEXANDRE – Comunista. Fo­ragiu-se. (28) Diretora do Depar­tamento da Criança da Secretaria da Saúde: ELEUSE SOARES MA­CHA­DO. Comunista. Demitida. (29) Diretor do Hospital OSVALDO CRUZ da Secretaria de Saúde: JOSÉ MAGALHÃES DA SILVEIRA. Comunista. Demitido. (30) Chefe de Gabinete de Secretário da Saúde: ROLDÃO DE OLIVEIRA. Co­munista. Demitido.

“(31) Chefe de Relações Públicas da Secretaria de Saúde: MARCELO CUPERTINO GUIMARÃES. Co­mu­nista. Foragido e demitido. (32) Chefe do Gabinete do Secretário de Administração: JOSÉ CESAR FILHO. Comunista. Demitido. (33) Secretário do Departamento de Tele-Comunicações ‘DETELGO’: OLINDINA OLÍVIA CORREIA (Linda Monteiro). Comunista. (35) Diretor Executivo da Comissão Inter-Estadual dos Vales do Araguaia e Tocantins: PAULO EMILIO FOGAÇA NETO. Comunista. Demitiu-se. (36) Secretário Geral do ‘CIVAT”: ODINY FOGAÇA FILHO. Comunista. Demitiu-se. (37) Diretor da Divisão de Pesquisas Sociais da ‘CIVAT’: GUIDO DE SOUZA ROCHA. Comunista. Demitiu-se. (38) Chefe do Serviço de Relações Públicas do Instituto de Desenvolvimento Agrário de Goiás ‘IDAGO’: ALUISIO ANTONIO DE SÁ PEIXOTO. Comunista. Permanece na função. (39) Chefe da Seção do Pessoal do ‘IDAGO’: MARIA DE NAZARETH AGUIAR. Comunista. (40) Líder do Governo da Assembléia Legislativa: WALTENO CUNHA BARBOSA. Direitos políticos cassados por dez anos.

“(41) Presidente do Tribunal de Justiça do Estado e do Tribunal Regional Eleitoral: FREDERICO MEDEIROS. Direitos políticos cassados por dez anos. (42) Chefe de gabinete do Presidente do Tribunal de Justiça: JESUS DE AQUINO JAYME. Comunista. Permanece na função. (43) Desembargadores: MAXIMINIANO DA MATA TEIXEIRA. Comunista. (44) Juiz da 4ª Vara Criminal: SEBASTIÃO NAVES. Comunista. Aposentado pelo governador. (45) Juiz de direito de Alexânia: SEBASTIÃO L. REZENDE. Comunista fichado pelo DOPS de Goiás. (46) Diretor do Colégio Estadual de Cristalina: IRAJÁ PIMENTEL. Comunista. (47) Diretor do Colégio Estadual de Goiás: JOSÉ POVOA MENDES. Comunista. (48) Chefes de Secção de ‘DES’: JOÃO RODOLFO RIBEIRO GONÇALVES, MAURO NETO. (49) Engenheiro da ‘CIVAT’: JOÃO CESAR PIEROBOM. Comunista. (50) Engenheiro da ‘CIVAT’: ERTON DE CARVALHO. Comunista. (51) Socióloga do ‘CIVAT’: MARIA DO CARMO BRITO. Comunista. (52) Diretor do Escritório Comercial da ‘METAGO’ no Rio: Coronel R/1 OSCAR GONÇALVES BASTOS. Comunista fichado.”

“O Mauro me disse que não poderia me tirar da cadeia”

Líder estudantil, com participação ativa nas Ligas Camponesas e ligado ao governo de Mauro Borges, Tarzan de Castro é um dos principais nomes quando se fala em ditadura militar em Goiás. Ele, que participou da campanha que levou Mauro Borges ao Palácio das Esmeraldas, diz que foi preso e que o próprio governador dizia não poder soltá-lo, pois estava sendo pressionado. Isto é, sua prisão havia sido pedida.

Ele conta que recebeu avisos de Mauro Borges por meio de duas pessoas: do irmão do governador, Paulo Borges, e de seu próprio irmão Erlan de Castro. “O Mauro dizia que não poderia me soltar porque os militares exigiam minha prisão. Se ele me soltasse seria o atestado de que ele estava colaborando com subversão e comunismo. Mas dizia também que se, porventura, ele fosse deposto, me soltaria antes. É claro, que isso não foi possível, pois em pouco tempo, os militares me tiraram do Cepaigo, onde eu estava preso, e me levaram para o 10° BC, onde fui torturado para denunciar o Mauro. Eles diziam: ‘larga de ser bobo, rapaz. O governador sabe que você está preso, não fez nada para te defender e você não o entrega’. Mas eu não disse”.

Segundo Castro, eles queriam apenas que eu dissesse que ele era o líder dos Campos de Guerrilha e que havia tráfico de urânio para a China, por meio da Polônia. “Naquela época, a China estava fazendo os primeiros ensaios nucleares. Então, eles inventaram uma história fantasiosa para jogar no colo do Mauro. E queriam que eu confessasse isso”, relata. O ex-líder estudantil diz ainda que estavam com ele na prisão: João Batista Zacariotti e os poloneses Simão Kossobudski e Paulo Gutko (leia a matéria “Espiões poloneses em Goiás”).

Após esses episódios, todos foram levados para Brasília, encaminhados ao Batalhão de Guarda Presidencial. Castro conta que quando desceu do camburão, teve a oportunidade de relatar as torturas que sofreu em Goiás. “Durante uma coletiva que fizeram para mostrar que não havia tido tortura, eu consegui colocar um pedaço de papel em que tinha escrito tudo o que queria falar, no bolso de um jornalista do jornal ‘Correio da Manhã’. E eles publicaram. A denúncia foi, inclusive, usada pelo doutor Pedro Ludovico no Senado para defender Mauro Borges”, diz.

Meios de sair do País

“Todos os presos foram soltos. Eu não”, declara Tarzan de Castro. Porém, depois de aproximadamente um ano preso, ele foi solto. Então, articulou meios para fugir do país. Passou por vários lugares antes de conseguir ir para a França. Um dos lugares em que ficou por um tempo foi em Recife, onde conseguiu, por meio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma carteira de identidade falsa com o nome de Rui Ferreira Campos Duarte. Ele conta: “Naquela época, poucos tinham carteira de identidade. Então, pegava-se uma identidade emprestada, trocava-se a foto e pronto. Usei o nome de Rui durante o tempo em que fiquei em Recife, mas usei vários outros nomes. O PCB arrumava a documentação para que a gente pudesse fugir.”

RG falso era um dos instrumentos que perseguidos usavam para fugir dos militares, sobretudo para outros países | Reprodução/Fernando Leite/Jornal Opção

RG falso era um dos instrumentos que perseguidos usavam para fugir dos militares, sobretudo para outros países | Reprodução/Fernando Leite/Jornal Opção

Espiões poloneses em Goiás

Um famoso factoide usado para a derrubada do governador Mauro Borges foi o caso dos espiões poloneses em Goiás. Segundo os militares na época, havia espiões poloneses que faziam parte de uma rede de agentes internacionais que operavam em território goiano. E esses espiões estariam trabalhando em prol do governo de Mauro Borges. Em relatório, o então comandante dos Inquéritos Policiais Militares (IPMs), Riograndino Kruel aponta: “do depoimento de diversas testemunhas, surgiram fortes indícios da existência de uma rede de agentes internacionais, operando em território goiano, integrada por brasileiros e estrangeiros orientada por elementos das representações diplomáticas de países da cortina de ferro”.

Ex-subchefe de gabinete de Mauro Borges, Hugo Brockes: “Os militares acreditavam em qualquer coisa naquela época”

Ex-subchefe de gabinete de Mauro Borges, Hugo Brockes: “Os militares acreditavam em qualquer coisa naquela época”

Os referidos países eram mais especificamente: Polônia, Iugoslávia, Rússia e China. Fora esses, havia indícios, segundo os militares, de atuação do governo de Mauro Borges também com Cuba e Peru. Mas o alvo principal das investigações realizadas pelos IPMs eram os poloneses. Isso porque um polonês, que estava em Goiás já há algum tempo, confessou ser agente internacional de um plano articulado entre o governo goiano e o governo polonês para intervir no estado.

Era Pawel Gutko, conforme registrado pelos militares, mais chamado de Paulo Gutko. Em depoimento, ele disse ser espião internacional. Porém, Gutko tinha certos problemas mentais, logo havia inventado toda a história, como conta Hugo Brockes, ex-subchefe de gabinete de Mauro Borges e um dos primeiros a serem exonerados após a deflagração do golpe, em abril de 1964. Ele conta que agosto de 1964, os militares prenderam uma pessoa que era conhecida tanto dele quanto de Paulo Gutko. No momento em que estavam prendendo essa pessoa, o Paulo viu e correu para abraçá-la. Resultado: levaram-no junto.

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Chegando ao quartel, perguntaram a Gutko quem ele era e a resposta veio de imediato: “Jean Fouché, espião francês”. Como era de se esperar, os militares comemoraram bastante. Afinal, haviam prendido um espião. A situação de Gutko, porém, era delicada. Tendo passado a infância fugindo da Segunda Guerra Mundial, ficou neurótico de guerra. Não obstante, no início daquele ano, ele ainda passou por outro trauma: o polonês trabalhava em uma grande empresa em São Paulo. Certo dia estava vindo de Santos com três amigos quando sofreram um acidente e apenas ele sobreviveu. Ele precisou voltar para Goiânia para ser submetido a tratamento psiquiátrico. E foi nesse contexto que os militares o prenderam.

Descrito como uma pessoa culta, que falava seis idiomas, Gutko criou um plano extremamente complexo e arquitetado para explicar o porquê era espião. “Segundo ele, a embaixada da Polônia estava planejando intervir no Brasil para proteger as famílias polonesas de uma revolução comunista chinesa que estava se armando aqui”, conta Brockes. Amigo de longa data de Gutko, Brockes relata que, em meio ao seu plano, ele acabou o envolvendo, sendo um dos responsáveis por sua prisão.

“Ele inventou que eu havia recebido, em frente ao Grand Hotel, na Av. Goiás, US$ 20 milhões das mãos do João Batista Zacariotti. O dinheiro era para auxiliar na proteção das famílias polonesas. Me prenderam em casa e vasculharam do teto ao quintal para tentar encontrar o dinheiro, que obviamente não acharam. Queiram que eu confessasse esse esquema, mas era algo inconfessável, porque era uma fantasia. Logo, eu era torturado para confessar algo que não existia. E piorou depois”, narra Brockes.

A piora ocorreu quando os militares fizeram um fuzilamento simulado com Gutko. Segundo Brockes, perguntaram a ele o que queria para sua última refeição, porque iria ser fuzilado no dia seguinte. Colocaram uma venda nos seus olhos e o levaram para o estande de tiro. O pelotão disparou com armas de festim e Gutko, imediatamente, caiu pensando que estava morto, e os militares tiveram uma grande dificuldade para convencê-lo de que ainda estava vivo. “Após esse episódio, ele piorou bastante. Chegava a escovar os dentes com as próprias fezes”, conta.

Após a piora de Gutko, os militares voltaram a interrogá-lo. Mas dessa vez ele acabou dizendo algumas informações verdadeiras. Brockes afirma: “Ele era meu amigo. Então, sabia de alguns detalhes sobre minha atuação na esquerda. Sob tortura, ele disse que eu fazia parte das ligas camponesas e que tinha tido treinamento de guerrilha no Araguaia. E esse fato era, em partes, verdade. Eu realmente tive treinamento de guerrilha em 1961, mas no Mato Grosso. E descobriram que isso era, realmente, verdade quando prenderam um conhecido meu que havia participado das ligas camponesas no mesmo acampamento que eu e ele contou tudo, inclusive os apelidos das pessoas que estavam lá. Um deles era o Caburé, que desapareceu junto com o José Porfírio. Esse apelido foi colocado por nós. Assim, se o treinamento de guerrilha era verdadeiro, todo o esquema de conspiração polonesa era verdade também”, relembra.

O relatório do general Kruel também mostra que o próprio Mauro Borges tentou alertar os militares acerca da condição mental de Gutko. Kruel relata: “Para provar a ‘loucura’ de PAWEL, o Governador fez juntar a seu depoimento, fotocópias de receitas e declarações de ex-companheiros de trabalho do seu acusador. Todavia, os contatos do Encarregado deste IPM com PAWEL GUTKO, e, mais que isso, a verificação que pode fazer da veracidade dos fatos, narrados por ele, parecem destruir a tese da loucura levantada pelo Governador.” Segundo Kruel, foi o Dr. Simão Kossobudski, outro polonês apontado como parte da rede de agentes internacionais, “tido como comunista pelos poloneses”, quem teria induzido Paulo “a fazer-se de louco”.

Kossobudski era médico e, à época, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). O ex-deputado Eurico Barbosa classifica o médico como uma pessoa alegre e que nunca se envolveu em assuntos políticos. Segundo ele, quando era advogado em Morrinhos, atuava no município de Buriti Alegre. Lá conheceu Kossobudski. “Era um homem alegre, que nunca mexeu com política. Por isso, nunca aceitei o golpe. Não aceitei porque vi a maneira sórdida com que eles derrubaram o Mauro. Para eles forjarem provas contra ele, os militares fizeram muitas falsidades. Uma delas foi o caso dos poloneses.”

“Não houve ditadura militar no Brasil”

Um dos grandes atores na articulação da queda do governador Mauro Borges, o ex-deputado estadual Joaquim Olinto Meirelles diz não concordar com o termo ditadura militar. Ele diz: “Acho interessante que as pessoas falam sobre ditadura militar. Eu não admitia que a entrada dos militares no poder com a derrubada do Jango fosse uma ditadura. O Jango era um político que apareceu. Não tinha projetos e nunca foi um administrador. Ele já havia denunciado que os esquerdistas queriam se perpetuar no poder. Os militares então deram o golpe para impedir que o golpe da esquerda acontecesse. Houve um golpe, mas não uma ditadura.”

Ex-deputado Olinto Meirelles: “Mauro Borges não era uma pessoa ruim, mas política é assim e há adversários”

Ex-deputado Olinto Meirelles: “Mauro Borges não era uma pessoa ruim, mas política é assim e há adversários”

Meirelles era, durante seu mandato como deputado estadual, líder da UDN na Assembleia Legislativa e presidente regional do partido em Goiás. Isto é, pertencia ao principal braço civil de apoio à ditadura. Considerava-se lacerdista –– adepto das ideias do também udenista Carlos Lacerda, tido como o líder civil da ditadura militar ––, logo combatia o governo de Mauro Borges. “Nossa briga na Assembleia era para mostrar os erros do governo Mauro. E ele achou que, para facilitar sua vida, ele teria que ter o apoio da Assembleia, mas eu era um empecilho. Foi quando ele iniciou um processo de denúncias contra mim para conseguir a cassação do meu mandato.”

O que de fato ocorreu. Embora líder da UDN, Meirelles foi vítima de seu passado. Ele havia sido presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e como tal viajou bastante para encontrar outros líderes estudantis, inclusive, em países considerados comunistas, como Cuba –– como demonstrado na foto acima ––, China e Rússia. Segundo consta, um dos documentos usados para cassar seu mandato, foi uma foto em que aparecem juntos Meirelles e Mao Tsé-Tung, então líder chinês.

Meirelles narra: “Antes de ser deputado, fui presidente da UNE e como tal viajei para muitos lugares. Fui convidado, por exemplo, para ir à China, à Rússia, à Itália, à França, a Israel, entre muitos outros países para encontrar com lideranças estudantis. Em um desses episódios, em 1960, cheguei a Moscou por volta das 23 horas. Naquela época, o rock dos Estados Unidos estava em alta. Quando cheguei ao hotel e estava fazendo a ficha, ouvi uma música que fazia muito sucesso na época. Estranhei, afinal estava na Rússia socialista. Perguntei ao recepcionista onde estava tocando a música e ele apontou para baixo. Eu, então, desci para ver o que estava acontecendo. Chegando lá embaixo, na primeira mesa, estavam sentados o presidente eleito do Brasil, Jânio Quadros, e o então editor-chefe do ‘Jornal Última Hora’, Samuel Wainer, conversando. Conversamos brevemente e eu voltei ao saguão para terminar a ficha”, declara.

Caso José Porfírio

Mesmo sendo direita, por conta das investidas recíprocas entre ele e o governo Mauro Borges, Olinto Meirelles acabou preso ainda durante o ano de 1964. Ele conta que um dia, por volta das 5 horas tocaram a campainha de sua casa. Achou estranho, mas foi atender. Eram três oficiais do Exército, vindos de Brasília. Eles disseram que queriam fazer uma vistoria na casa. Sem muita alternativa, Meirelles permitiu. Foi ao quarto para acordar sua mulher e tirá-la do quarto para que os homens fizessem a vistoria. Abriram o guarda-roupa e mexeram em tudo, tiraram os colchões das camas e do berço das crianças, inclusive jogando uma delas –– Elzimar –– de encontro à parede, que estava no mesmo quarto que o outro filho de Olinto, o hoje também deputado estadual Claudio Meirelles (PR), criança na época.

No centro da foto, José Porfírio, que desapareceu logo no início da ditadura: líder camponês, era acusado de ser comunista | Reprodução/Internet

No centro da foto, José Porfírio, que desapareceu logo no início da ditadura: líder camponês, era acusado de ser comunista | Reprodução/Internet

Nesse momento, Meirelles se revoltou e os militares não gostaram. Disseram: “Você irá para Brasília conosco”. O udenista respondeu que iria, mas que precisava primeiro passar em seu escritório de advocacia para deixar ordens aos funcionários. Já por volta das 11 horas, os três oficiais levaram o advogado para o 10º BC. Chegando lá, logo na entrada, a primeira figura que Meirelles viu foi José Porfírio. Ele estava sentado sozinho em uma cadeira com o rosto apoiado nas mãos, pensativo.

–– O que está fazendo aqui? –– perguntou Meirelles.

–– Fui preso e me mandaram ficar aqui, respondeu Porfírio.

Meirelles, então, aconselhou: “Zé, os oficiais disseram que querem conversar comigo lá no refeitório. Aproveita esse momento e sai daqui”. Hoje, o ex-deputado relembra que deu esse conselho porque ele, embora estivesse preso, não tinha problema algum com os militares. O mesmo não poderia ser dito de Porfírio. Nas décadas de 1940 e 1950, arrastava-se no norte de Goiás um conflito armado entre posseiros e fazendeiros na luta por terras. José Porfírio era o líder dos posseiros e havia ganhado muita relevância, sobretudo no meio esquerdista –– membros do PCB e líderes estudantis ajudaram na luta dos posseiros contra os latifundiários da região.

Em grande parte, devido a esse auxílio de membros de partidos de esquerda, José Porfírio conseguiu se eleger deputado estadual no início da década de 1960, quando o assunto das terras já havia sido resolvido. Quando assumiu o governo, Mauro Borges prometeu interromper o derramamento de sangue e concedeu direito legal sobre as terras para os posseiros, o que, claro, não agradou nem latifundiários nem os militares que se envolveram nessa luta. E era esse José Porfírio que havia sido preso ali no 10° BC naquele dia.

Os oficiais, então, levaram Meirelles para o refeitório, lhe deram seis folhas de papel almaço e disseram: ‘o almoço será servido ao meio-dia. Até lá você vai relacionar os nomes de todos os comunistas de Goiás’. Segundo o udenista, ao meio-dia os militares voltaram e ele entregou as folhas em branco. “Disseram que eu não queria colaborar, mas não era isso. Eu, de fato, não conhecia nenhum comunista. Havia pessoas de esquerda, claro, mas não necessariamente comunistas. Então, falaram que eu seria levado para Brasília. Almoçamos, pegaram o Zé Porfírio, que ainda estava lá e não tinha almoçado, nos colocaram em um camburão da Secretaria de Segurança Pública e rumaram para Brasília. Mas eles não foram conosco. Apenas um fardado foi na direção comigo e com o Zé”, conta Meirelles.

Chegando a Brasília, levaram os dois para o Batalhão da Guarda Presidencial. Havia muitos policiais federais lá e militares. Acontece que Meirelles havia sido secretário do ministro da Justiça, Alfredo Nasser, durante o governo João Goulart. Logo, ele conhecia muitas pessoas e, assim que desceu do camburão, encontrou um dos chefes da Polícia Federal, o coronel Carlos Cairoli, que o cumprimentou e perguntou o porquê de estar ali. Quanto a José Porfírio, tiraram-no do camburão e o encaminharam a um fusca que estava a uns 20 metros de distância.

“Eu perguntei para onde eles iriam levá-lo”, relata Meirelles. “Pediram para eu não me preocupar com ele, mas me preocupar comigo. Eu insisti e eles disseram para eu esperar para ver o que iria acontecer. Esperei. Pegaram o Zé e o deitaram no chão do fusca entre o banco traseiro e dianteiro. Então, entraram três policiais e colocaram os pés sobre ele. Eu fiquei revoltado. Disse que era inadmissível fazerem isso com um deputado, mas o coronel meu amigo me disse para não me meter no assunto. O fusca saiu e nunca mais se ouviu falar em Zé Porfírio. Fui a última pessoa a vê-lo. Fiquei 17 dias preso, mas nem sequer tocaram em mim”, relata.

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