A silenciosa guerra do trânsito que mata ciclistas e sobrecarrega hospitais

Neste ano, 13 ciclistas morreram em Goiânia. Hospital de Urgências atende todos os dias condutores deste tipo de veículo que são vítimas de atropelamentos

Biclicleta e corpo do aposentado Elson Severino da Silva, atropelado e morto por um motorista que tinha bebido

Yago Sales

Manetes de freios e pedais quebrados. Quadros, rodas e pneus, guidons e raios retorcidos, despedaçados, espalhados por asfaltos, canteiros e calçadas. Giroflex de ambulâncias, viaturas de polícia. Ciclistas arrastados, fraturados. Fitas zebradas. Para-brisas trincados, latas de cervejas. São a composição de cenários trágicos, de acidentes que não foram acidentes, frutos da imperícia, desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB), falta de cuidado com a via e uma subentendida guerra de automóveis sobre bicicletas em Goiânia, que causam morte, dor e prejuízos irreparáveis.

O Jornal Opção conta o percurso interrompido de ciclistas que não chegaram ao destino em Goiânia. Neste ano, até outubro, 13 vítimas tiveram suas expectativas desconstruídas, sonhos sepultados, percursos interrompidos. Do cineasta premiado que que ia almoçar com a esposa e não desfrutou do dinheiro de um prêmio, do menino de 8 anos que encontraria amigos para jogar futebol, do homem que voltava do trabalho e deixou quatro filhos órfãos, do aposentado que não concluiu o papo com um amigo em um canteiro central.

A reportagem teve acesso aos inquéritos, conversou com especialistas, com familiares, sobreviventes, visitou as vias marcadas para sempre pelo rastro de freadas de veículos, pedaços de bicicletas e o desespero de familiares que chegaram tarde demais para o último adeus. Vítimas de viatura policial à cata de bandidos, carros em alta velocidade, e até um buraco no meio da ciclovia. Os condutores que não conseguiram escapar do flagrante – abandonando as vítimas sem socorro à própria sorte – pagaram fiança e não devem ter outra punição senão a de carregar o peso de uma morte.

A titular da Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito de Goiânia (Dict), delegada Nilda Lima de Andrade, ao fim de um expediente na semana passada, revela: “Nunca vi um condutor matar e ficar preso”. As penas brandas previstas na Legislação, no entanto, não esfriam o trabalho da delegada e de seus policiais. “A gente faz o possível para conseguir provas, juntar no inquérito e enviar para o Judiciário, mas as penas são convertidas em prestação de serviços”, lamenta.

A despeito das mortes de ciclistas, ela esclarece que um dos principais fatores é o desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB). “É preciso que cada um obedeça seu espaço. Todos têm direitos e deveres nas vias, mas a busca por espaço contribui para eventuais acidentes e, consequentemente, mortes. Obedecer a legislação evitaria tragédias.”

Enquanto até outubro a Dict investigava 14 casos em Goiânia, em todo o ano de 2015 foram 11 vítimas mortas e, em 2016, 15. “Na medida que cresce o número de adesão à bicicleta, é evidente que o número de acidentes aumente. Por isso é necessário a prevenção, a conscientização tanto dos ciclistas, que não obedecem as regras, como usar equipamentos de segurança, roupa com sinalização, quanto dos motoristas que não se sentem confortáveis com os ciclistas transitando nas vias”, ressalta a delegada.

Ela aposta que implantar mais ciclovias, ciclofaixas e criar espaços para que os ciclistas transitem contribuiria para a diminuição de acidentes.

Riscos e educação

O problema, no entanto, vai além. Uma filosofia muito pouco praticada a respeito de uma hierarquia regularizada pelo CTB, e ignorada nas ruas, é sobre a responsabilidade que os condutores de veículos maiores deveriam ter sobre os de menor porte. Ônibus, caminhões e carros de passeio teriam de cuidar pela segurança do ciclista. E, todos, pelos pedestres. Esta máxima ainda não reverbera nas ruas. Os dados do Mapa da Violência confirmam essa vulnerabilidade. Duas em cada três vítimas do trânsito no Brasil são pedestres, ciclistas ou motociclistas.

“Trabalhamos pela redução de riscos de acidentes ministrando palestras em empresas, em escolas – de todas as faixas etárias – e com os próprios ciclistas”, informa o ferente de Educação de Trânsito da Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) de Goiânia, Horácio Ferreira. “Tentamos reforçar a importância do respeito do maior para o menor. Os veículos de maior porte zelam dos de menores porte”, concorda com a titular da Dict.

Ferreira, que também é especialista em Direito e Gestão de Trânsito, faz referência ao Art. 29 que diz: “Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.”

O problema, segundo ele, é que o ciclista não é acostumado a obedecer o CTB. “Muitos que estão em cima de bicicletas acham que estão sobre um veículo com uma condição que detêm os mecanismos de frenagem, de manobra, ou seja, se esquecem de sua fragilidade.”

Nesse sentido, os ciclistas se esquecem ou não sabem obedecer as regras. “Temos muitos ciclistas que andam em velocidade rápida, principalmente em declive, não obedecendo, inclusive, o Pare, os semáforos. Eles acham que não têm nada a ver andar na contramão. E tem. Pensam que podem mudar de direção ou de faixa sem sinalizar antecipadamente, mas precisam fazê-lo”, pontua.

Ele destaca que um dos fatores predominantes em acidentes envolvendo ciclistas tem como motivação a mudança brusca de direção. “É um risco de acidente, num piscar de olhos. E quem perde mais é o ciclista, que é o menor na colisão, mas o maior lesionado. A situação piora quando o ciclista quer disputar a velocidade, fazendo manobras arriscadas, acreditando que consegue ultrapassar, passando na frente dos outros veículos”, aponta.

Horácio diz que, por outro lado, muitos motoristas acham que o ciclista é um atrapalho no trânsito, um obstáculo, o que não é, ou deveria não ser. “Ele é um usuário da via pública que goza dos mesmos privilégios e deveres. O Código de Trânsito prevê”.

O técnico alerta, ainda, para que o ciclista e, evidentemente, os condutores obedeçam a distância de um metro e meio. “A distância de segurança ao passar por um ciclista diminui as chances de tragédias”. Segundo dados do Projeto Vida no Trânsito, pelo menos 25 mortes, em 2016, em Goiânia, tiveram como conduta de risco apontada o desrespeito à distância de segurança entre os veículos. A maioria delas envolvia o ciclista. “Por isso é importante a distância já estabelecida. A única distância de segurança estabelecida pelo CTB é ao ciclista”, diz Horácio Ferreira.

Que diz o Código do Trânsito Brasileiro no Art. 29

O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:
I – a circulação far-se-á pelo lado direito da via, admitindo-se as exceções devidamente sinalizadas;
II – o condutor deverá guardar distância de segurança lateral e frontal entre o seu e os demais veículos, bem como em relação ao bordo da pista, considerando-se, no momento, a velocidade e as condições do local, da circulação, do veículo e as condições climáticas;
III – quando veículos, transitando por fluxos que se cruzem, se aproximarem de local não sinalizado, terá preferência de passagem:
a) no caso de apenas um fluxo ser proveniente de rodovia, aquele que estiver circulando por ela;
b) no caso de rotatória, aquele que estiver circulando por ela;
c) nos demais casos, o que vier pela direita do condutor;
IV – quando uma pista de rolamento comportar várias faixas de circulação no mesmo sentido, são as da direita destinadas ao deslocamento dos veículos mais lentos e de maior porte, quando não houver faixa especial a eles destinada, e as da esquerda, destinadas à ultrapassagem e ao deslocamento dos veículos de maior velocidade;
V – o trânsito de veículos sobre passeios, calçadas e nos acostamentos, só poderá ocorrer para que se adentre ou se saia dos imóveis ou áreas especiais de estacionamento;
VI – os veículos precedidos de batedores terão prioridade de passagem, respeitadas as demais normas de circulação;
IX – a ultrapassagem de outro veículo em movimento deverá ser feita pela esquerda, obedecida a sinalização regulamentar e as demais normas estabelecidas neste Código, exceto quando o veículo a ser ultrapassado estiver sinalizando o propósito de entrar à esquerda;
X – todo condutor deverá, antes de efetuar uma ultrapassagem, certificar-se de que:
a) nenhum condutor que venha atrás haja começado uma manobra para ultrapassá-lo;
b) quem o precede na mesma faixa de trânsito não haja indicado o propósito de ultrapassar um terceiro;
c) a faixa de trânsito que vai tomar esteja livre numa extensão suficiente para que sua manobra não ponha em perigo ou obstrua o trânsito que venha em sentido contrário;
XI – todo condutor ao efetuar a ultrapassagem deverá:
a) indicar com antecedência a manobra pretendida, acionando a luz indicadora de direção do veículo ou por meio de gesto convencional de braço;
b) afastar-se do usuário ou usuários aos quais ultrapassa, de tal forma que deixe livre uma distância lateral de segurança;
c) retomar, após a efetivação da manobra, a faixa de trânsito de origem, acionando a luz indicadora de direção do veículo ou fazendo gesto convencional de braço, adotando os cuidados necessários para não pôr em perigo ou obstruir o trânsito dos veículos que ultrapassou;
§ 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Hugo atende ciclista todos os dias

Biclicleta e corpo do aposentado Elson Severino da Silva, atropelado e morto por um motorista que tinha bebido

Isabella Cristina Alves dos Santos, 20 anos, não sabia, mas subir na garupa da amiga Ana Gabriela Lopes da Silva, uma Monark azul, naquele sábado (8 de abril deste ano) lhe tiraria a vida. Às 19h35, no cruzamento da 5ª Avenida com Avenida Vereador Germino Alves, na Vila Nova, as meninas atravessavam a faixa de pedestre quando foram atingidas por uma Ford Ranger, viatura da Rotam, conduzido pelo cabo Marcos Antônio Gonçalves. A viatura vinha pela 5ª Avenida, sentido Independência, quando no cruzamento com a Vereador Germine Alves, colidiu com a bicicleta.

A viatura atingiu a bicicleta e as jovens caíram na pista. Isabela Cristina foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros e encaminhada ao Hospital de Urgência de Goiânia (Hugo), inconsciente, enquanto Ana Gabriela foi encaminhada ao Hospital de Queimaduras, com escoriações. No dia seguinte Isabella não resistiu aos ferimentos e morreu. Ana Gabriela não quer comentar o acidente.

Segundo dados do Hugo, de janeiro a setembro deste ano, foram realizados 228 atendimentos de ciclistas. Destes, seis passaram por algum procedimento cirúrgico e pelo menos três morreram na unidade. Em 2015, foram registrados 528 atendimentos, destes, nove pacientes morreram.

“A quantidade de bicicletas é muito inferior em relação aos outros veículos de transporte, como a moto, que está em torno de 500 mil em Goiânia. Mesmo assim, tem incidência significativa. Todos os dias atendemos ciclistas no hospital”, revela o médico Ciro Ricardo, diretor-geral do Hugo.

Fraturas graves

Para Ciro Ricardo, a gravidade das fraturas explica-se muito pela força do impacto que o veículo, muitas vezes um carro ou moto, exerce sobre o ciclista e de sua velocidade. “Os veículos maiores são os maiores algozes e causam, com os impactos, grande custo social, sobretudo quanto à inatividade. Muitos dos acidentados usam a bicicleta para o trabalho”, distingue.

“Normalmente, as vítimas chegam depois de terem suas bicicletas atingidas por automóveis. Com isso, o choque é muito mais grave, com traumatismo craniano, fratura exposta, que exige intervenção cirúrgica. Na maioria dos casos, ciclistas têm o mesmo perfil de motociclistas, idade entre 18 e 35 anos. Homens, com força física e que normalmente utilizam a bicicleta para o trabalho”, detalha Ciro Ricardo.

É o caso de Claudemir Alves da Cruz, de 28 anos. Ele ia para o trabalho, às 5h30 da manhã do dia 14 de abril deste ano. No escuro da madrugada, em alta velocidade, surge um carro não identificado e o atinge na roda traseira de sua bicicleta, na Rua Rita Caetano com a Rua Pedro Luiz Pereira, no Residencial Forte Ville. O automóvel seguia na mesma via. Pai de quatro filhos, Claudemir não teve tempo de ser atendido e morreu no local. O motorista do carro fugiu, sem prestar socorro.

Maria Francisca de Lima, de 28, dedicou-se a cuidar dos quatro filhos enquanto o marido trabalhava. Desde que sepultou Claudemir, depende de doações para comprar leite às gêmeas, de 7 meses, e a alimentar os meninos, de 6 e 2 anos. “Não sei mais o que fazer. Ele era meu alicerce. Acordava cedo, dava beijo em nós e ia trabalhar. Ligava sempre, mas agora não sei mais como é viver. A bicicleta dele ali, amassada”, diz ao telefone, antes de um dos meninos pedir leite. “É o último que tenho. Só Deus pode me devolver a esperança que um atropelamento me levou.”

24 horas depois

Era sábado, dia 15 de abril, às 8h40. Pouco mais de 24 horas depois de Claudemir ter sido atropelado, o dentista aposentado Elson Severino da Silva, de 75 anos, encontrou-se com Rubens Bueno Garcez, um amigo, na ciclovia, na Avenida Circular, no Pedro Ludovico. Os dois pararam de pedalar e conversavam amenidades. De repente, o automóvel Hyundai Veloster do tenente do Exército Lucas Guerellus subiu no meio-fio do canteiro central e colheu os dois homens.

Com o impacto, Elson foi arremessado para cima do capô e para-brisas do carro, o qual ainda em movimento desceu do canteiro central, andou alguns metros à frente, o corpo de Elson caiu na faixa de rolamento da esquerda e ficou em cima da faixa seccionada central.

Motorista tinha bebido

O condutor não aceitou fazer o teste do bafômetro, mas confessou à Polícia Civil que havia ingerido bebida alcoólica na madrugada do acidente e, com isso. Elson Severino morreu na hora. Seu amigo Rubens foi encaminhado consciente ao Hospital de Urgências de Goiânia. “Não consigo me lembrar de nada, apenas que falávamos de algo… não me lembro”, Rubens suspirou e desligou o telefone quando falava com o repórter.

Dados da Secretária Estadual de Saúde (SES) estimam que, apenas este ano, a pasta desembolsou R$ 4.255.891,08 no tratamento a acidentados, parte do recurso, cerca de R$ 153.105,35, destinado ao tratamento de ciclistas. “Essa violência no trânsito envolvendo ciclistas é preocupante tanto pelos gastos quanto pelas mortes das vítimas”, reconhece o secretário de Saúde de Goiás, Leonardo Vilela. Ele diz que mesmo que tenhas uma estimativa, é difícil definir os gastos, mas chega a quase R$ 1 milhão. “Mas o que deve ser motivo de preocupação para o Estado é o gasto social. Muitas famílias ficam sem seus mantenedores. Fora a incapacidade de o ciclista voltar ao trabalho depois de um acidente que gera prejuízos muito maiores.”

Para ele, muitos dos atendimentos são a vítimas que caíram, após manobras perigosas. “É sempre bom dar destaque à importância da educação no trânsito a estes ciclistas, para que evitem lesões em impactos”, recomenda. “É necessário reconhecer que temos avançado muito em Goiânia, com apoio ao Detran, com campanhas, fomentação de políticas de enfrentamento à violência nas vias públicas. Temos visto ciclovias assegurando a vida das pessoas.”

Ciclovia que não chegou na rua Dom Celso Pereira de Almeida, no afastado bairro Jardim São José. Antes de perder a voz, em soluços, conseguiu pronunciar pronome possessivo e o nome do filho: “Meu João”. Milena Fernandes Alves recebia a visita da criança, que morava com avó, naquele sábado, 19 de agosto. João Pedro Fernandes Passos, de 8 anos, apaixonado por futebol, encontraria amigos para jogarem futebol no campinho de terra às 17h25, a poucas quadras da casa da mãe. “Volto logo, ele disse que ia voltar logo. Encontrei meu filho no último suspiro, apertou minha mão.”

O menino ia pela beira da rua quando teve a bicicleta atingida pelo professor Cláudio Célio Ramos da Silva, 45, que embriagado conduzia um Jeep Ranegade vermelho. O garoto foi arremessado a alguns metros, chegou a ser socorrido por uma equipe do Samu, mas não resistiu. O professor foi autuado em flagrante por embriaguez. A perícia criminal constatou, ainda no local, que a bicicleta estava sem freios.

ACIDENTES DE TRÂNSITO entre  Janeiro a Setembro

Reprodução

 

 

Disputa por espaço causa acidentes

Casal em ciclovia na Avenida Universitária: descuido na falta de equipamentos de proteção, como capacete

Educadora de trânsito do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), Regina Lucia Siqueira afirma que a falta de conhecimento no trânsito é o que mais mata os condutores de bicicleta. “Os ciclistas têm que andar no mesmo sentido dos veículos, parar para adentrar uma via, dar preferência ao pedestre. A disputa de espaço é muito comum e muito grave. O desrespeito à sinalização é outro fator”, assinala.

Ela registra que os ciclistas costumam ser muito afoitos, por ser a bicicleta de propulsão humana, eles passam o cruzamento sem ter noção de sua velocidade. E, por ser um veículo menor, é difícil de ser enxergado por caminhões e ônibus. Além do mais, a vestimenta mais clara ajuda, mas é preciso tomar cuidado para não ficar no ponto cego. “O ciclista precisa estar à direita, perto do meio fio.”

Regina Lucia reconhece, contudo, que a falta de espaço deixa o ciclista mais vulnerável. “As ciclovias são insuficientes e as ciclofaixas usadas apenas no final de semana, muito para o lazer, pela família. Tivemos alguma evolução nos últimos anos, mas precisamos de mais ciclovias. Muito mais.”

O designer gráfico Edson Melo, um dos fundadores do grupo de ciclistas GO Ciclo, critica a falta de fiscalização e punição aos motoristas que não respeitam as ciclofaixas. “Elas foram uma invenção da administração passada, só pra inglês ver. Inclusive aqueles canteiros do setor Pedro Ludovico.”

Melo, no entanto, se preocupa com os novos ciclistas que surgiram nos últimos anos. Ao contrário dos bicicleteiros, que não costumam usar equipamentos de proteção, que pedalam em bicicletas mais simples, esses “novos ciclistas” usam luvas e capacetes. “O problema é que estes são até mais vulneráveis. Usam os apetrechos e acham que estão prontos para enfrentar este trânsito de Goiânia. Não estamos na Europa, onde há respeito ao ciclista”, lembra.

A falta de respeito às faixas compartilhadas é um problema que Melo enxerga como grande empecilho para que haja mais adesão ao ciclismo na capital. “Os carros ficam estacionados nas ciclorrotas. Deveria ter algo que obrigasse a ser como o Eixo Anhanguera, que multasse”, observa.

Diretor da União de Ciclistas do Brasil (UCB), Guilherme Tampieri tem forte militância pelo uso da bicicleta em nível nacional. Um grande crítico das políticas atuais voltadas para o ciclista, ele é taxativo ao dizer que o Brasil não é nenhuma exceção à regra mundial quando quis estimular o uso da bicicleta.

Para evitar o insucesso dessa política, afirma, ou se reduz as velocidades, o caminho mais correto no país, que os automóveis circulem numa velocidade compatível à vida, isso a 20, 30 Km/h, ou, numa marginal, tenha uma estrutura segregada, com boa estrutura, piso, sinalização, fácil acesso, fácil saída. “São essas duas as saídas, sobretudo de diminuição das velocidades, com um redesenho urbano, especialmente em torno de escolas, de hospitais”, ensina Tampieri.

Ele afirma que o governo brasileiro não tem feito “praticamente nada” para estimular o uso da bicicleta, além do que foi feito na Política de Mobilidade Urbana, em 2012. “Talvez o grande marco. Depois foi feito uma cartilha, para que respeitem os ciclistas, mas é tudo muito fraco ainda.” Para ele, é preciso estimular o debate entre sociedade civil organizada e os governos para que se criem políticas eficazes voltadas para o uso da bicicleta.

“Tem que debater até porque cada cidade tem sua particularidade e não é apenas obrigar todos os municípios a usar uma cartilha. E deixar bem claro que, quando um ciclista morre, na verdade é um assassinato, nenhuma morte no trânsito precisa ser inaceitável”, afirma.

 

O cineasta que fazia da “magrela” um ato político

Nathalia Mendes

Duas vidas costuradas à mão, tecendo vestes que ornaram a paz, o amor e, num acaso, a despedida. Violeta Naya, 28 anos, antes de estilista, é protagonista duma peça, cujo papel de costureira não a permite deixar que a memória se descosture. Este ano, sua vida se entrelaçou de uma inseparável emoção de amor selado e uma despedida. Esquecer é descosturar, desfazer. Por isso sua mais nova exposição, num desfile de verdades, é a memória de um João estampado em sua força.

É sobre João Henrique de Almeida Pacheco, 26 anos, que ela deixou-se levar quando o conheceu pelo Tinder, mas que morreu depois de dois meses internado no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) após se assustar com um motociclista que desrespeitou o sinal vermelho. Para piorar, João tentou se desviar de um buraco em uma ciclovia, caiu e bateu a cabeça.

Antes das últimas pedalas, é preciso contar: pouco tempo depois de os dois se conhecerem pelo aplicativo, passariam a morar juntos. Numa cerimônia carregada da simbologia da Folia de Reis, cerca de dois anos e meio depois do primeiro contato virtual, dia 6 de janeiro, João despontava debaixo de uma chuva de estalos. A música “Partículas de Amor”, de Lucas Santtana, era a trilha sonora para seguir para o altar e esperar Violeta.

Lá vinha Violeta, vestido branco, tatuagens, rastafári trançado até a cintura, brincos de argolas enormes, no sítio Santa Tereza, da avó dela, em Inhumas, sob o som da canção “Foguete”, cantarolado por Maria Bethânia. Às 16 horas, dali a pouco o entardecer encobertaria os noivos e os 300 convidados, encantados com as bandeirolas.

João, sorriso alargado, com seu cabelo black power, brinco de argolinha, óculos redondos e bigode reto. Ele recolhe Violeta pelas mãos. Violeta no gingado de Bethânia e João nos estalos de dedos de Santtana. Brindaram com cachaça mutamba e se beijaram. Era Folia de Reis, o mais original, como o casal que se casava dois anos e meio depois de se encontrar no Tinder. Um contraponto aos amores líquidos descritos pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman.

“A gente queria celebrar um ritual de amor, oposto ao casamento capitalista, milionário. Queríamos colocar nossa energia”, lembra Violeta. Ela, um nome reconhecido na cidade por causa do trato com roupas femininas, decidiu brincar com o pano. Desenhou várias roupas, costurou e presenteou o namorado. Era o talento de Violeta costurado para ele.

Dias antes, ela recolheu as vestes e percebeu que muitas delas se parecem muito com as roupas de Jorge Amado, escritor baiano muito lido por João. Não apenas isso ela encontrou por acaso. Um livro do escritor moçambicano Mia Couto, lido pela metade por ele: “Mulheres de Cinzas”.

“Vou lê-lo depois”, Violeta diz e silencia. O livro trata de um tema árduo: a luta, no século XIX, de Portugal para “livrar” o sul de Moçambique da ditadura do africano Ngungunyane. Esse era o sonho de João: livrar-se e aos outros de ditaduras. E criticava o “golpe contemporâneo”, as injustiças, as coisas desprezadas, e brigava pelas minorias.

Para entender a cidade

Abismado com o mundo e impulsionado pelo pensamento social e político, armou-se, além do cinema, de uma bicicleta. Queria integrar-se à cidade que adotou para estudar, trabalhar, viver com a mulher. “A bicicleta para ele era um ato de entender a cidade, um ato político. Muito além de meio de transporte”, afiança Violeta. Os dois carregaram o lema de cuidar da cidade e decidiram que cada um teria a sua “magrela”. E passeavam, iam aos eventos culturais, visitavam os amigos, faziam compras, sempre montados.

Quando não estava lendo, roteirizando, filmando ou editando, João pedalava em ideias. Uma delas, surgiu o filme “Família S2”. A obra foi inscrita no Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica). Quando soube que foi selecionado, os olhos dele brilharam.

Quando recebeu o Prêmio de Melhor Montagem e Edição com o Curta, se surpreendeu. Era um João em consonância ao talento nato que nutria desde que estudou Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG). “Mas ele se consolidava era como comunicador social”, pontua Violeta. No palco do Cine Teatro São Joaquim, na histórica cidade de Goiás, aparece estampando o sorriso. Era uma conquista inestimável.

Quinta-feira, 24 de agosto. Ele seguia na ciclovia na Rua 10, cruzamento com Rua 233, no Centro de Goiânia, quando um motociclista furou o sinal vermelho e o assustou. Um buraco adiante o derrubou. Ele bateu duas vezes com a cabeça no chão, como mostram imagens do Posto Terra. O acidente não permitiu que ele recebesse o dinheiro do prêmio e desse andamento a outro filme. “Ele estava muito confiante, acreditando que estava no caminho certo. Ele ficou muito feliz pelo prêmio, que poderia financiar outro.”

Algo começava a se descosturar, mas Violeta não deixou. Segurou nas mãos do João. João passou por cirurgia, chegou a sair da Unidade de Terapia Intensiva. Entre as visitas ao hospital, diagnósticos, Violeta acompanhava as adaptações em casa para receber João.

“Depois dos 21 dias na UTI, ele apresentava consciência, mas não conseguia falar por causa da traqueostomia. Ele piscava. Comunicava por piscadas. Apertava a mãos, desenvolvia a comunicação. Colocamos a rampa, arrumamos o banheiro. A Home Care, tudo o esperava. Sabíamos que ele teria de passar por um processo de reabilitação”, conta Violeta.

Dia 28 de setembro João morreu, engrossando a estatística de atendimento e morte após se acidentar sobre uma bicicleta em Goiânia. Mas sua aura persiste. “Vivo num desequilíbrio constante. Deixo muito claro aos amigos: tem dia que não vou falar com as pessoas, tem dia que vou falar. É difícil lidar com a memória”, diz a namorada-viúva.

A bicicleta de João, intocável, passou por perícia no Ateliê Anunciação. Violeta não consegue pedalar mais.

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