87 anos de Goiânia – Especialistas fazem radiografia dos problemas da capital

Autoridades concordam que desafios são superáveis, mas que a cidade atualmente não caminha para solucioná-los 

Goiânia vista aérea | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Goiânia completou 87 anos neste sábado, 24. A cidade alcançará o marco dos 90 anos na gestão do próximo prefeito. O Jornal Opção ouviu especialistas em diversas áreas para sondar os principais desafios que a cidade enfrentará na próxima gestão. O consenso entre as autoridades é de que os maiores problemas da capital ainda estão em tempo de serem retificados, mas que Goiânia não caminha atualmente para corrigi-los. De forma geral, a maioria das questões goianienses dependem

As possíveis soluções para questões ambientais, de tráfego, de saúde e de urbanismo devem ser encaradas como políticas de estado, e não somente como medidas de governo, e devem ser vistas como provisões que afetam diretamente a qualidade de vida dos cidadãos. Os especialistas ouvidos apontam ainda que poucos candidatos possuem em seus projetos de governo um diagnóstico claro das principais adversidades enfrentadas.

Quando comparadas às demais grandes capitais, Goiânia está em posição relativamente confortável, tendo por comparação menos transtornos do que Salvador e suas 270 favelas (aglomerados subnormais), por exemplo; ou menos cirurgias eletivas para serem realizadas na do que as 9,5 mil pessoas que aguardam na fila da saúde municipal carioca. Entretanto, os problemas devem se agravar, caso não sejam aderessados logo, e podem tornar-se crônicos e estruturais.

Urbanismo

Tadeu A­len­car Arrais é professor do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor pela Univer­sidade Federal Fluminense (UFF). Tadeu Arrais tem ido além do papel de representante da comunidade científica nos últimos debates polêmicos da Câmara de Goiânia, como foram a questão do IPTU e o projeto de desafetação de áreas públicas.

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Segundo o professor, é impossível falar em apenas um principal problema urbanístico de Goiânia atualmente. Ele afirma que, por conta da pandemia e cenário político, a cidade vive um momento ímpar de sua história, quando pela primeira vez os problemas conjunturais são menores do que os problemas estruturais na capital. “O desemprego afeta Goiânia de uma forma muito atípica, é uma questão estrutural”, diz Tadeu Arrais. “Mas não chegamos a um ápice que não seja possível de se resolver. Com investimento rápido e vontade política, podemos solucionar qualquer questão.”

Concretamente, o professor aponta como questão urgente o déficit imobiliário – não apenas a falta de imóveis, mas de condições de habitabilidade. “As favelas aumentam. Nada comparado aos assentamentos de outras capitais, mas falta regularização fundiária e investimentos do estatuto da cidade”, afirma Tadeu Arrais, que também expressa descontentamento com a solução de se criar moradias distantes do centro, sem infraestrutura, para alocar aquelas pessoas sem endereço formal.

Tadeu Arrais cita também aspectos da geografia local negligenciados pelos candidatos. “Os córregos de Goiânia estão em situação lamentável. O que dá identidade às grandes cidades não é necessariamente o que é edificado, mas também seus rios. Paris tem o rio Sena; Londres, o Tâmisa; Nova York, o Hudson. Aqui escondemos o nosso Meia-Ponte. É incrível a negligência dos candidatos com o rio, que permitiria um grande projeto para gerar turismo e empregos. Nenhum candidato fala nisso porque não têm a cabeça aberta, não pensam grande o suficiente. E o Centro? Não se fala seriamente em revitalizá-lo”.

Essas questões estão contidas no escopo da lei do Plano Diretor (Lei Complementar Nº 171, que dispõe sobre o processo de planejamento urbano do município), entretanto, o geógrafo afirma que a discussão da lei fez muito mal ao debate político em Goiânia. Segundo ele, o assunto é encarado superficialmente, como se todos os problemas da cidade fossem ser resolvidos por uma lei auto-regulada. Concordar ou discordar do Plano Diretor tem ocupado a instância do verdadeiro diagnóstico da cidade, segundo Tadeu Arrais. 

“A cidade está como está (seus problemas incluídos) também por conta do plano diretor. As vendas de áreas públicas, por exemplo, não foram feitas à revelia da lei. É preciso expandir o debate para perceber que os problemas básicos da cidade – emprego, assistência social e saúde – dependem de macropolíticas que são deixadas de lado. Estamos deixando a cidade se resolver sozinha”, diz Tadeu Arrais.

O geógrafo conclui em uma nota triste, afirmando que este é talvez o pior aniversário da cidade, que devido a pandemia, está infeliz, sem crianças e idosos ocupando os espaços públicos. Tadeu Arrais diz: “Estamos morrendo e não dá para comemorar. O futuro não passa pelo modelo dos candidatos que aí estão. Não consigo enxergar em nenhum programa de governo um diagnóstico preciso de nossos problemas ou projeto coletivo para solucioná-los. Mas a cidade vai sobreviver a tudo isso e seguir adiante”.

Meio Ambiente

O diretor de Extensão da UFG e coordenador do Programa UFG Sustentável, Emiliano Lôbo de Godoi, afirma que a questão ambiental é uma temática interdisciplinar que deve ser pauta de diversas secretarias e não se resolve em curto prazo. O assunto, que está organicamente ligado à saúde pública e à qualidade de vida da população depende de uma vontade do poder público e não possui uma resposta única e milagrosa.

O acadêmico enumera os principais problemas na área. A drenagem urbana, que se tornou uma dificuldade porque grande parte de Goiânia se encontra impermeabilizada. Este fator faz com que o lençol freático não seja reabastecido, causando problemas relacionados à seca e às inundações na capital. “Cada vez menos volume de água é necessário para causar enchentes com o escorrimento superficial que vai para os mananciais”, diz Emiliano Lobo de Godoi. 

Professor Emiliano Godoi afirma que a questão
ambiental não possui soluções simplistasa curto prazo
| Fernando Leite/Jornal Opção

O problema também está permeado pelo Plano Diretor da cidade, mas, segundo Emiliano Lobo Godoi, a lei apresenta problemas: “O Plano Diretor precisa harmonizar de forma mais adequada os possíveis usos do solo que existem. A lei ampliou o conflito entre usos comercial e habitacional ao prever adensamento urbano incompatível com a realidade da cidade.”

O tratamento de resíduos sólidos é outra temática urgente cujas soluções se encontram diluídas em diversas áreas. “É necessário consolidar a coleta seletiva de lixo e estabelecer o olhar sobre o ciclo de vida de produtos para gerar menos resíduos e favorecer políticas públicas que estabeleçam sua reutilização”, afirma Emiliano Lobo de Godoi. São estratégias como o fortalecimento das cooperativas de catadores de lixo e incentivos fiscais para empresas que promovem a redução de resíduos com embalagens, por exemplo.

Em levantamento feito pelo Jornal Opção, verificou-se que, em dez anos, a coleta seletiva de Goiânia atingiu apenas um terço de sua meta. A cidade reaproveita apenas 5% do total de lixo produzido, ou 1600 toneladas por mês. O principal obstáculo para se atingir a meta de 15% de resíduos sólidos reciclados é a participação popular, que não foi entusiástica o suficiente – metade de toda a reciclagem é feita por cooperativas de catadores, e essa proporção vem crescendo nos últimos anos – e não por empresas privadas ou pelo poder público. 

Sobre as propostas de candidatos para lidar com problemas ambientais em Goiânia, Emiliano Lobo de Godoi afirma que o eleitor deve estar atento e ver com bons olhos os projetos de políticas públicas que fortalecem áreas verdes da cidade, favorecem a mobilidade urbana favorecendo pedestres, bicicletas e modais alternativos.

Transporte

O professor do Instituto Federal de Goiás (IFG) e especialista em Transportes, Marcos Rothen, avaliou a qualidade do transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia. Segundo o professor, o principal problema no transporte urbano é a falta de atrativos para que a população utiliza o transporte coletivo. 

Marcos Rothen diz que propostas para tansporte
negligenciam soluções imediatas | Foto: Reprodução

“Nosso serviço de ônibus utiliza modelos de veículos muito antigos, sem conforto, sem ar-condicionado, enfim, nada que atraia as pessoas. Não há sequer informações a respeito de linhas ou horários. Quando se compara a qualquer outra cidade grande, não temos nenhum atrativo”, diz Marcos Rothen. 

A responsabilidade é do prefeito da cidade, que tem de assumir o dever e obrigação para fazer funcionar o transporte público, segundo o Artigo 30 da Constituição Federal de 1988. “Os candidatos falam em união entre estado e regiões metropolitanas, mas este dever compete ao prefeito”, afirma Marcos Rothen.

As propostas de candidatos a prefeito são grandiloquentes, megalomaníacas e ignoram as soluções simples e realistas de que a capital necessita, segundo Marcos Rothen. “Falam em novos viadutos e BRTs, se entusiasmam com o bilhete único, mas isso levaria muitos anos e não se elucida como se pagaria por isso. Precisamos melhorar o transporte público hoje com planejamento operacional das linhas de ônibus”. São problemas como o bunching (ônibus em comboio, oferta excessiva de veículos) em algumas linhas e “buracos” (falta de veículos por longo tempo) em outras linhas, que poderiam ser resolvidos de forma simples com lógica e tecnologia da informação. 

Em pesquisa publicada pelo IFG, o professor diagnosticou que a principal deficiência do transporte coletivo é a falta de informações para os passageiros sobre os horários e os itinerários das linhas de ônibus, bem como as deficiências de manutenção das vias e dos terminais são pontos que pesaram negativamente na avaliação da qualidade do serviço de transporte coletivo oferecido na região.

Segundo a pesquisa Avaliação da qualidade do transporte coletivo de passageiros oferecido na Região Metropolitana de Goiânia, “O investimento feito em tecnologia de ponta não foi estendido à formação dos operadores da Rede Metropolitana de Transporte Coletivo de Goiânia”, destaca a professor Marcos Rothen.

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