Uma vida de sexo, drogas e música eletrônica

Livro-reportagem conta a história do jovem pobre que saiu do interior de São Paulo e se tornou o maior traficante de ecstasy do Brasil

Gabriel Godoy, ex-traficante de ecstasy cuja biografia está narrada na obra “Baladas Proibidas”, lançada pela editora Record, em fevereiro de 2017 | Foto: Divulgação

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Em 2001, o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens que flagravam o comércio de drogas a céu aberto no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Em meio ao trânsito natural de adultos e crianças, traficantes ofertavam seus produtos a plenos pulmões, como se estivessem numa feira: “Maconha de R$ 2! Pó de R$5!”.

As imagens, gravadas pelo repórter Tim Lopes, mostravam jovens de chinelos, bermuda e camiseta, num contraponto ao forte armamento que ostentavam. Meses depois, seriam os traficantes desse mesmo conjunto de favelas que capturariam e matariam Lopes, enquanto este produzia mais uma matéria investigativa no local. Um território, portanto, onde droga e violência são componentes indissociáveis para a afirmação do poder paralelo que governa uma população desamparada e miserável.

Há, no entanto, um outro universo no qual as substâncias ilícitas não estão condicionadas à marginalização. Muito pelo contrário. São festas VIPs em bairros nobres, boates de luxo nas quais jovens da alta sociedade ostentam roupas de grifes internacionais e acessórios que custam milhares de reais. Nessas noitadas, regadas a garrafas de champanhe e música eletrônica, um único comprimido alucinógeno pode custar R$ 150. Uma realidade bem distante do terror das favelas, mas, não se iludam, tão perigosa quanto.

É o que mostra “Baladas proibidas – A história do Rei do Ecstasy”, escrito a quatro mãos pelo ex-traficante Gabriel Godoy e pelo jornalista Bolívar Torres. O livro-reportagem reconstitui a ascensão social através do crime do próprio Gabriel, um jovem pobre do interior paulista que se tornou o maior traficante de drogas sintéticas do Brasil. O relato, em grande parte em primeira pessoa, revive os altos e baixos de uma vida, como diz o protagonista, “na corda bamba, 24 horas por dia”, da descoberta do novo mundo ao luxo, do poder à queda, dos amores à solidão, do tempo no cárcere à capacidade de construir um recomeço.

Dividida em duas partes, a narrativa principal tem início em 2007, quando Gabriel, aos 19 anos, deixa a cidade natal de Serra Negra, em São Paulo. Com apenas R$ 200 no bolso, toma um ônibus para a capital paulista, sem qualquer plano traçado. Pensa em dali seguir para o Rio de Janeiro, até que vê, ainda na rodoviária, uma placa sobre a cidade litorânea de Maresias. Lá começa a trabalhar nos restaurantes locais, onde consegue dinheiro para alugar um minúsculo chalé. O administrador, de nome Lucca, também atua como promoter numa casa noturna, e Gabriel firma com ele amizade. Certo dia, ao irem juntos numa balada, Gabriel presencia Lucca vendendo ecstasy. Apesar de fascinado com o ambiente, desperta nele o espírito empreendedor e pega droga com o amigo, faturando sobre o valor original. “Em questão de minutos, havia feito um lucro de 280 reais (…) Sentia uma energia estranha crescer a cada transação: era como se aqueles pequenos comprimidos na minha mão me transformassem no cara mais poderoso da festa. As pessoas queriam felicidade, e só eu poderia entregar a elas”, conta.

A excitação provocada pelo dinheiro rápido (“Em duas noites, faturei o valor do meu salário mensal”) faz com que abandone o emprego e embarque de vez no comércio das substâncias proibidas. Começa também a se entorpecer de forma desbragada, para aguentar o ritmo insone das raves; a rotina frenética de sexo, drogas e música eletrônica. Quando a temporada de verão em Maresias dá uma trégua, parte para Campos de Jordão, a “Europa brasileira”, agora por conta própria. Pega mil balas (como é chamado o ecstasy) direto com um fornecedor, e faz de vez o seu nome. Badalação, LSD, lança-perfume, mulheres, passe livre para as festas tops. Em seis meses, tem um ganho de R$ 50 mil. Nesse período, conhece Mel e, depois, Luara, que serão fundamentais para sua trajetória. Maresias, porém, “tinha ficado pequena demais” para ele.

Vai morar em São Paulo, onde passa a viver num flat de luxo e frequentar restaurantes elegantes. As baladas, contudo, seguem lhe oferecendo oportunidade para expandir sua clientela. De distribuidor, agora conta com quatro traficantes comercializando sua droga. Chega aos números impressionantes de 1.500 comprimidos de ectasy vendidos por semana. Mais a frente conhecerá um outro negociador com quem firmará parceria: Duda, um policial civil. O fornecedor de longa data desaparece, e é apresentado a outro policial, Tiozão, que reabastece o estoque. “Agora que eu tinha mais um parceiro policial para me garantir na noite, achava que nada podia nos parar”, lembra o protagonista. Mas aí começam os problemas. Seu bando sofre uma importante baixa, e a insegurança se instala. Até que, em agosto de 2009, ele mesmo é preso em casa.
O topo é o início da queda
No prólogo, Bolívar Torres explica que a história de Gabriel chegou às suas mãos na forma de um rascunho. Que o texto final é fruto de quase nove meses de conversas regulares, cujas datas e fatos foram trocados e romanceados, a fim de se resguardar identidades, mas sempre com o interesse em preservar a autenticidade da voz original e a essência da realidade. Isso fica evidente durante a leitura, por meio da escolha de frases curtas, do ritmo ágil e, acima de tudo, da construção narrativa a partir de um discurso direto, envolvente, que transporta para a trama uma carga meio suspense, meio de aventura, deixando, ao fim de cada capítulo, um gancho para o posterior.

O jornalista ainda explora muito bem recursos que potencializam a experiência do leitor, a exemplo das descrições detalhadas sobre as sensações provenientes do consumo de drogas (incluindo overdoses), as emoções que passam a definir e a transformar o protagonista e sua relação com as pessoas que o circundam, com o poder, com a lei. O mesmo ocorre, na mão contrária, ao tratar do tempo na prisão, minuciando o funcionamento da cadeia, das gírias ao método pelo qual as facções comandam o crime.

Tais circunstâncias ganham relevo na segunda parte, que se inicia com os dias no presídio de Guarulhos. Bolívar afirma que preparou essa parte como um choque de realidade. De certa forma, o que a condição de preso evidencia é um vício que não se estabelece pela droga, mas pela vida que a droga proporciona. Mesmo dentro da cadeia, Gabriel organiza um esquema para comercializar drogas sintéticas entre os detentos, galgando ali um status privilegiado. Quando é solto, sua primeira reação é soprar aos quatro ventos que “O Rei do Ecstasy tá na pista”. Torna-se mais impulsivo, audacioso; compra máquinas para fabricar seu próprio produto. Imagina-se o dono do mundo, quando, para usar uma expressão do livro, tudo não passava de uma “brisa”, aquela que perde o efeito para a verdade dos fatos acertar em cheio.

“Baladas proibidas” pode ser lido como uma história de formação, da maneira mais oblíqua possível, na qual a relação entre poder e corrupção dita as regras de um submundo que reinam sobre as normas sociais e particulares. A “vida loka” das festas sem fim, do dinheiro que paga iates, helicópteros, uma noite com a garota da capa da revista, mas que reserva a percepção tardia de que “o topo é só o início da queda”. Um relato empolgante que desvenda, do testemunho de um ex-traficante, o universo das raves e oferece uma visão definitiva de que o comércio de drogas não se restringe às favelas, aos bandidos de pés em chinelos que anunciam seus produtos cercados pela miséria.

Bolívar Torres, jornalista que assina o livro “Baladas Proibidas”, em co-autoria com o ex-traficante Gabriel Godoy | Foto: Divulgação

Entrevista | Bolívar Torres
“Não há livros falando sobre tráfico e balada”
Em entrevista exclusiva ao Opção Cultural, o jornalista Bolívar Torres fala sobre o processo de construção do livro “Baladas proibidas”, que conta a história do ex-traficante Gabriel Godoy, conhecido como “O Rei do Ecstasy”.

O que lhe motivou a contar a história de Gabriel?

É uma história que prende a atenção. Desde o começo, você quer saber para onde aquilo vai ir. Pesou também o fato de ser um tema pouco ou nada explorado no meio editorial: o tráfico de drogas sintéticas, onde não tem tiro, nem guerra. Não há livros falando sobre tráfico e música eletrônica, tráfico e balada. No máximo, essas culturas são associadas a drogas, mas sem falar sobre tráfico, digamos, organizado, com pessoas que dedicam a vida a isso. A história do Gabriel mostra bem como esse submundo funciona, com muitos detalhes e desdobramentos.

Você conta que recebeu o rascunho da história das mãos de uma agente literária. Como foi trabalhar esse material? Chegou a ter encontros com o Gabriel durante esse processo?

O rascunho foi completamente transformado. Aquilo não era bem uma narrativa, apenas um relato, que só virou de fato uma história depois de muitas horas de entrevistas. Mas, apesar de ser muito bruto, o rascunho tinha uma voz autêntica, forte. Quando li, percebi que a história tinha que ser escrita na primeira pessoa, emulando aquela voz.

No prólogo, você conta que precisou “romancear alguns fatos”. Sendo jornalista e também escritor, como foi transitar entre a realidade e a ficção, sem que um universo acabasse por contaminar demais o outro?

O objetivo é que os elementos ficcionais não alterassem a essência do relato de Gabriel, ou seja, aquilo que ele diz ter vivido. E acho que conseguimos. De qualquer forma, por ser baseado num testemunho, o relato já é uma interpretação por si só.

Em algum momento chegou a pensar que, ao contar a história de um ex-traficante, poderia fazer uma apologia a esse mundo? Teve a preocupação em não fazer de Gabriel, o protagonista do livro, um mártir ou um herói?

O Gabriel se converteu e hoje está longe desse mundo. Porém, quando me relatava o que tinha vivido, às vezes se enchia de orgulho dos seus feitos, o que é um pouco contraditório, mas compreensível. Coube a mim chamar a atenção dele e tentar encontrar um tom mais equilibrado, que não fosse nem uma glorificação daquele estilo de vida nem um alarme moralista, do tipo “crianças, não façam isso”. O cara viveu o que viveu, e o objetivo era retratar tudo de maneira bem crua, tentando entender suas razões, mas sem condescendência. No livro, o personagem relata o efeito prazeroso das drogas (me interessava muito tentar traduzir essas sensações), e é muito apegado à sua fama de rei do ecstasy nas baladas. Por outro lado, também mostramos as consequências dessas escolhas: overdose, prisões em celas superlotadas, alienação social e o vazio existencial da ressaca, que sempre acaba cobrando a conta cedo ou tarde.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor

Bolívar Torres e Gabriel Godoy, “Baladas Proibidas: A história do rei do ecstasy”. Rio de Janeiro: Record, 2017. 210 páginas | Foto: Divulgação

Trecho do livro:

“Mais uma vez, eu ia me infiltrando no mundo da alta sociedade. Estava vendo de perto a vida íntima daquelas pessoas que torravam dinheiro loucamente, sem se preocupar com o amanhã. Eram as drogas que haviam me colocado ali, em contato direto com a elite do país. Filhos de empresários, herdeiros de vida fácil, alguns ainda na faculdade, outros formados em direito, medicina… Eu sequer havia terminado o colégio. Tínhamos origens e histórias de vida opostas, e eu sabia que, na teoria, não era para estarmos juntos, na mesma sala, dividindo os mesmos papos, os mesmos produtos de luxo, a mesma vida despreocupada. A verdade é que, se não dependessem de mim para conseguir bala, aquela galera não me daria bem boa-noite – muito menos me chamaria para uma festa particular”.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Victor Gustavo

Literatura nacional se tornou isso? A história de um traficante de ecstasy?
Que lixo