Traduzir é criar algo novo. É partir à procura da terceira margem

“A terceira margem do rio”, conto de Guimarães Rosa, é a metáfora perfeita para o que é tradução atualmente: buscar criar outra língua, uma que esteja entre a original e aquela para qual se traduz

Tradutor norte-americano, Eric Becker: "Traduzir traz em si uma enorme responsabilidade: a de representar a obra de um autor em outra língua"| Foto: Renan Acciolly / Jornal Opção

Tradutor norte-americano, Eric Becker: “Traduzir traz em si uma enorme responsabilidade: a de representar a obra de um autor em outra língua”| Foto: Renan Acciolly / Jornal Opção

— “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”

Yago Rodrigues Alvim

Em 2012, assinava seu nome na folha de rosto do exemplar que leva J. D. Salinger na capa: “Anna Luísa do Carmo Braga”. Não sei bem quando, mas o exemplar do romance (que ganhou as revistas em 1945, e foi publicado apenas em 1951) passou de Anna para as mãos de Frederico Rocha, um amigo que o entregou, a mim. E foi justamente esta a primeira obra em inglês que comecei a ler, mesmo após anos de estudo da língua.

“If you really want to hear about it, the first thing you’ll probably want to know is where I was born, and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don’t feel like going into it, if you want to know the truth.”

Inicia-se, assim, a obra que conta a história de Holden Caulfield, um garoto de Pency Prep (Colégio Pency). Mas há outro início de livro que preciso reproduzir aqui, pois, concomitantemente a Salinger, propus-me a ler, também em sua língua de origem, uma obra do francês Albert Camus: “L’Étranger”. Seria um up dos bons — pensava — para conhecer melhor ambas as línguas e ajudar -me nos estudos, que ia além com o consumo de músicas, filmes e séries em inglês e francês.

“Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement de-main. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.”

É desse modo que Ca­mus começa a sua história — que é contada por Meursault, narrador-personagem que vai a julgamento por ter cometido um crime.

Aqui entra o motivo desta reportagem, pois o up que eu imaginava foi um pouco além. “Batata”, diria, ao exprimir a fatalidade que a coisa toda causou: “Como seria a tradução de ambos os textos”, indaguei-me e, então, “Como é o trabalho de um tradutor?”.

É aquela história, ao receber uma indicação de uma obra de um amigo, conhecido ou mesmo professor: “Leia a versão de tal editora, pois a tradução é muito melhor que da editora tal-tal-tal”. Por mais que inúmeros escritores se destaquem por suas próprias obras, muitos têm, no currículo, traduções de outros grandes títulos.

Já refletiu, caro leitor, sobre o lugar de onde surgem os livros e mais livros estrangeiros em língua portuguesa que listam nas prateleiras de todo o Brasil? Saiba que está num país em que 80% do consumo do que se lê é de tradução (estatística do teórico estadunidense Lawrence Venuti).

Nos dias que se seguiram, após o desafio franco-inglês ao qual me propus, veio à capital goiana Eric M. B. Becker, mestre em escrita criativa e tradução literária pela Queens College-City University of New York, editor da revista “Words without Borders” (WWB), que só publica literatura em tradução. Ele ganhou o prêmio PEN/Heim, de 2014, pela tradução de uma coletânea de contos do escritor moçambicano Mia Couto. (Publicamos, na edição 2139, uma entrevista com o tradutor).

Antes de passar às assertivas sobre o trabalho deste estadunidense de Minnesota, deixo os trechos dos primeiros parágrafos das obras de Salinger e Camus traduzidos para o português. Publicado pela editora do autor, “O Apanhador nos Campos de Centeio” se inicia assim, nas palavras do tradutor Álvaro Alencar:

“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles.”

Já “O Estrangeiro”, do ganhador do Nobel de Literatura Camus, na tradução de António Quadros, segue as­sim:

“Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Re­cebi um te­legrama do asilo:
‘Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Terceira Margem
Desde pequeno Becker teve contato com outras línguas. Divisa com o Canadá, Minnesota já o in­fluenciava com o francês — língua pela qual se interessou apenas na fa­culdade, onde também a abandonou; “não deu muito certo”. Di­ferentemente da língua espanhola, que aprendeu na escola e ainda o a­companha, embora entenda que não a domina tão bem quanto gostaria.

Com mais afinco, ele dedicou-se ao português; inclusive, sua visita a Goiânia se sucedeu pelo trabalho que realiza atualmente: Becker tem traduzido a obra premiada pelo Jabuti de 2012 “Naqueles Morros Depois da Chuva”, de Edival Lourenço. Mas, claro, sua história com o português começou anos antes e com Bob Dylan. Após terminar a faculdade, ele entrou em crise. “O que fazer da vida?”.

— Eu tinha fascínio pelo o que vinha de fora. Uma tia mesmo, que muito viajava, trazia sempre algo da Itália ou Noruega; um livro do país que visitava. Sempre tive aquilo com a literatura estrangeira, ainda que dormente. Na faculdade, estudei filosofia e letras. Depois, perguntei-me o que fazer e, como fã de Dylan, veio-me a ideia de fazer uma viagem. Na música “Idiot Wind”, ele canta sobre um rapaz que rouba a esposa de um cara e a leva para a Itália. Misteriosamente, o marido morre — e ela também — e ele acaba herdando tudo. Não era meu plano, mas… (risos) Foi assim que a Itália apareceu e, aos 19 anos, conheci por lá uma garota brasileira, que hoje é minha esposa. O interesse pelo português veio, portanto, de algo pessoal; afinal, seria muito chato ficar falando apenas em inglês.

A partir de 2005, as visitas de Becker ao Brasil começaram. Desta vez, fez estada na capital goiana a fim de se aprofundar culturalmente, conhecer os “Morros” de Edival. No país, ele continua até o final do ano, pois, além da obra goiana, ele tem se dedicado, juntamente com outros tradutores, à tradução de uma coletânea que reúne textos de diversas escritoras brasileiras, como Lygia Fagundes Telles, Elvira Vigna, Ana Martins Mar­ques, Alice Sant’Anna, Maria Esther Maciel e, dentre outras, Eliane Brum.

Este trabalho será publicado no próximo dia 18 de julho. Neste tempo, Becker também se dedica à tradução de uma coletânea de contos de Eric Nepomuceno — escritor também conhecido por ser o tradutor, para o português brasileiro, dos livros de Gabriel García Márquez.

A estada de Becker no Brasil faz parte de uma busca pela “Terceira Margem do Rio” — sim, a do grande Guimarães Rosa. Presente na obra “Primeiras Estórias”, de 1962, o conto inspira Becker em seu trabalho.

O conto mostra a história de um pai que embarca numa canoa e permanece no rio sem nunca voltar à margem da qual saiu ou atravessar para a outra margem. O filho, que narra a história, cresce preocupado com o pai que nunca voltou e conta suas tentativas de cuidar dele, levando comida até à margem. “O processo da criação na tradução”, conta Becker, “é que nem o processo do pai, que rema contra o corrente, e que aparentemente nem à noite descansa”.

A fim de esmiuçar o assunto, Becker remonta a como a tradução tem sido vista, desde seu início. De modo geral e primeiro, os tradutores deviam tornar a obra o mais palatável possível para o leitor e, por isso, pouco importava o quan­to apagassem da obra original. O debate, que data desde o século 15, veio se transformando; e, na contramão, surgiu a literatura de tradução ao pé da letra.

— Se você traduz ao pé da letra, que é sim uma opção, você deixa o texto muito menos natural; já se você converte tudo também para o inglês, ou qualquer outra língua, padronizando-o, você desconsidera os aspetos que fazem daquele trabalho aquela obra brasileira ou francesa. Traduzir, então, é uma procura pelo meio-termo, pela terceira margem.

Na maior parte do século 20, nos Estados Unidos, conta Becker, o que importava era a história; “se ela estivesse presente… tudo perfeito”. E a história se figurava o mais americanizada possível. Hoje, existe uma visão mais ampla, uma visão que procura não prejudicar a obra dos escritores. “Traduzir traz em si uma enorme responsabilidade, pois você representa a obra de um autor em outra língua”, pontua. Assim, o pensamento predominante é esse, de uma terceira margem — uma procura por algo que ainda não existe.

— Não é ao pé da letra e, ao mesmo tempo, não apaga as referências, a linguagem que faz daquele autor um escritor especial. Você não apaga as conquistas que ele fez.

Muitos que nunca refletiram sobre o assunto, sobre o ofício de um tradutor, equacionaria, simplesmente: obra + dicionário + domínio de escrita = obra traduzida. Uma pena, talvez, mas não é bem isso. Becker lembra que uma palavra abarca diferentes, inúmeros significados, os quais mudam ainda devido ao contexto. Além disso, ele cita outras complicações; dentre elas, a preocupação com a voz do autor/escritor da obra; se existe uma preocupação rítmica no texto original; os neologismos e outras idiossincrasias culturais que o texto pode apresentar.

Os cuidados ao traduzir continuam. É preciso lembrar que a língua muda de região para região, que as palavras abarcam associações culturais e até mesmo pessoais — a perda de alguma referência é o maior medo de Becker. Além dos aspectos linguísticos, existem os editoriais; tais como a comercialidade de uma obra (com seu interesse de público e mercadológico) e o deadline para a entrega de uma tradução. “Ao receber um texto, você precisa avaliar se terá tempo hábil para entrega, já que existe uma pressão sobre isso; o pior erro é não se dar o tempo suficiente para fazer aquilo ali, o resultado pode ser catastrófico”, afirma.

Passo a passo
“Traduzir é um trabalho imperfeito”, afirma Becker mas, ainda assim, é um trabalho que propicia a troca de diversos modos de se expressar através da escrita — é assim entre quem vive em qualquer país, de norte a sul e de leste a oeste; “a tradução nos dá uma nova visão de mundo, como Marcel Proust dizia, aquilo de ganhar novos olhos, estando no mesmo lugar”, complementa.

Segue, portanto, um tutorial simplificado, com base no que exerce Becker. Primeiro, a leitura da obra. E ela pode chegar de diversos modos; por vontade própria, indicação de amigo, por agentes de escritores ou pela própria editora. Como já está no ramo há algum tempo, ele já lê com um pensamento concomitante de como seria o texto no inglês — sua língua de trabalho, no caso.

Caso o interesse surja de uma vontade pessoal, após ter encontrado o texto, é preciso entrar em contato com o agente do escritor a fim de saber se já existe um trabalho de alguma editora, visto o que concerne aos direitos autorais. Se tudo estiver ok, o texto é traduzido, em um tempo estipulado, e então é publicado, validando o exemplo, na WWB.

— Eu sempre procuro entrar em contato com o escritor, pois são raras as vezes em que não surge nenhuma questão acerca do texto. Eu devolvo o rascunho da tradução a ele, enquanto uma possibilidade de tradução, dentre outras quatro. E, assim, continuo a conversa para saber se atingiu a intenção da obra. Depois, você manda para o mundo por meio de uma revista ou editora, a fim de publicá-la.

Por mais que seja um trabalho que “ganha o mundo”, Becker já adverte: “Ninguém deve entrar na tradução achando que vai ganhar a vida com isso. São pouquíssimos os que vivem dela. O trabalho literário em si é assim. São poucos os escritores que vivem de sua escrita”. Ainda assim, o sucesso vem; mas é um sucesso outro, aquele de trabalho cumprido, alcançado, muitas vezes, graças à imersão no mundo literário e pessoal do escritor.

— Defendo que a tradução é um trabalho novo, ainda que muitos não a considerem e que a vejam apenas como uma conversão. E há ainda outro extremo, aquele de quem defende que é um trabalho totalmente original. De fato, a obra não existe em outras línguas sem um tradutor. No entanto, ela é tanto do tradutor, quanto do escritor. É preciso uma narrativa, um enredo, e uma tradução vem do trabalho de ambos e não tem como não ser, uma vez que se reescreve o livro em outra língua, uma nova.

Mais um lado
O professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Johnwill Costa Faria, adentrou na área da tradução em seu mestrado e trabalha, atualmente, com uma pesquisa na faculdade, onde exerce seu ofício desde 2002 (quando já mestre pela Universidade de Brasília, a UnB).
Como citado no início do texto, 80% da leitura no Brasil é de traduções, o que mostra que temos inúmeros tradutores. Segundo Costa, existem diversas cadeiras dedicadas ao tema, ainda que por aqui seja um assunto novo.

— Os estudos da tradução vêm caminhando lentamente no Brasil desde a década de 1980 e têm ganhado mais força nos últimos 20 anos. Dentro disso, existem cursos particulares e universitários; por exemplo, o curso de Letras/Tradu­ção em Brasília ou ainda na Univer­sidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que é a única que oferece mestrado e doutorado em tradução.

Quanto ao trabalho dos tradutores que levam a literatura brasileira para o exterior, o professor comenta que é uma forma de evidenciar a cultura brasileira. “Existe ainda um complexo de inferioridade, de colonizado, onde se tende a valorizar o que vem de fora, mais até do que é próprio nosso”, diz ele, cujo projeto de pesquisa é voltado para a tradução, para a língua inglesa, da obra do goiano Ber­nardo Élis.

O conhecimento de ambas as línguas também é pontuado por ele, que ressalta a imersão, o estudo da cultura, como ferramenta para melhor lidar com as questões de linguagem. E isso implica naquela velha pergunta sobre se uma tradução é boa ou não. “Existe uma ramificação de variáveis para dizer se é uma boa ou má tradução”, diz ele.

Dentre as variáveis, lista-se: a época em que a obra foi produzida (uma vez que diversos dispositivos atuais facilitam a troca de informação e imersão; por exemplo, a internet); a atuação que a tradução implica na época, ou seja, a forma como ela atua/influencia na sociedade; a essência da obra, se ela é violada ou não na tradução, dentre outras. No entanto, o professor é cuidadoso, pois é apenas um juízo de valor — salvos os equívocos de tradução, aqueles equacionais.

Por fim, Costa lembra que o papel de um tradutor, como é o caso seu, do de Becker e de muitos outros que lutam por seus projetos, é desmistificar uma determinada cultura; o Brasil, por exemplo, não é só samba, carnaval ou futebol. E é a literatura que mostra que um país é muito mais. l

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