Augusto Diniz
Augusto Diniz

Programação mais difícil de acompanhar, segundo dia foi de mulheres no palco

Terça-feira (9/5) foi o dia em que seis showcases do evento foram realizados praticamente no mesmo horário, o que reduziu a cobertura a apenas um deles, o que faz parte

Miêta (MG) fez um bom show no Shiva alt-bar na terça-feira (9/5) | Foto: Fernanda Leonor

A noite da terça-feira (9/5), segunda data de showcases do 19º Festival Bananada, tinha uma programação extensa e simultânea em seis lugares diferentes de Goiânia. O jeito era escolher um deles e deixar de lado apresentações aguardadas que ficariam para uma próxima – por favor – oportunidade. E o destino escolhido foi o Shiva alt-bar, na Alameda das Rosas.

Era noite de três shows protagonizados por mulheres, na noite da PWR Records, um selo que valoriza o trabalho musical feminino. E o bar contava naquela ocasião com barraquinhas de livros, bottons feitos na hora, lambes, colagens, grafite na hora, camisetas, bolsas, mochilas e adesivos produzidos por mulheres da cidade e de outros estados.

A ideia era ver o show da Lutre, que havia acabado de lançar o disco Apego na semana anterior ao Bananada, no Cafofo Estúdio e correr para o Shiva. Mas preocupado em perder o primeiro show, da Lari Pádua (SP), o destino foi o Shiva sem parada em outro lugar. E acabou que o atraso foi tão grande que daria tempo de ver a apresentação da Lutre, que estava marcada para as 20h30.

A Lari Pádua só foi se apresentar no cantinho entre o bar e o corredor dos banheiros, num clima de show pequeno mesmo, em que o público e artistas se apertam no mesmo espaço, às 22h05 – o horário previsto na programação era o das 21 horas. A cantora trouxe seus samples e distorções gravadas em faixas gravadas no computador.

O EP Concrete (2016) mostra uma atmosfera intimista e de música desconstruída por ruídos e ecos aliados à voz suave de Lari. Mas ao vivo parecia que a voz não dialogava muito bem com os samples. O trabalho é bastante interessante, mas poderia ser pensado com todas aquelas barulheiras sendo feitas ao vivo. Aí depende de como isso seria possível.

De boné rosa e roupa preta, Lari Pádua mostrava um jeito que parecia tímido ao vivo, mas que completava o intimismo da apresentação. Ela contou com a boa exibição de imagens projetadas na parede ao fundo do palco feita pelo Coletivo Vênus, o que aconteceu nos shows seguintes também.

O ponto alto da apresentação foi a canção Lie, na qual Lari pôde mostrar a qualidade da sua voz independente de ter dado certo ou não a opção por trazer os sintetizadores gravados e não optar por fazer toda sua desconstrução harmônica ao vivo. Ela terminou o show com uma música que terminou “há duas semanas e meia”.

Lari Pádua (SP) mostrou sem som intimista e com bases desconstruídas | Foto: Fernanda Leonor

Osso? Miêta é bom demais da conta, sô!

Pouco tempo depois, às 22h50, veio a banda mineira Miêta, formada por três mulheres, Marcela Lopes (vocal e baixo), Célia Regina (guitarra e backing vocal) e Bruna Vilela (guitarra e backing vocal), e o único homem da noite no palco, Luiz Ramos (bateria). Seu som com influências que vão de Yo La Tengo a Sonic Youth e Dinosaur Jr. impressionou bastante o público. Tanto que foi o show que mais atraiu a curiosidade e interesse de quem bebia em alguma mesa ou conversava do lado de fora do bar.

A mistura de indie com grunge e rock de garagem não só deu certo ao vivo no Shiva como agradou bastante gente de outras bandas que se apresentaram ao longo da semana no Bananada e que não saíram do lugar até o final do show da Miêta. O single Room foi um dos bons momentos da apresentação.

O álbum de estreia da banda, Dive, será lançado em junho. “Comprem as ‘brusinha’ pra ajudar as ‘menininha'”, pede em tom de brincadeira Marcela. E era uma filosofia de ajuda à música independente que elas praticam. Camisetas de bandas como Lava Divers (MG) e Ventre (RJ) eram usadas pelas integrantes.

Na terceira canção teve espaço até para uma convidativa jam meio bossa misturada ao rock e com todo o charme do shoegaze. A música já divulgada mais animada da banda, Pet, foi tocada com chamado para que as minas fossem para a frente do palco dançar junto com a banda. “A música fala sobre como se livrar de relacionamentos abusivos”, explica a vocalista.

A sequência final veio com uma música mais lenta acompanhada dos gritos “Fora, Temer” e outra mais garageira. “Prestigiem as minas.” E fim de uma bela apresentação de uma banda que a gente espera que volte mais vezes a Goiânia. Porque se não voltarem eu vou ter que ir até os inferninhos de BH, como A Obra, Matriz, Autêntica, Music Hall ou Granfinos para assistir a um show da turnê do disco quando ele for lançado.

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Meia-noite em ponto veio o show final que eu consegui acompanhar no segundo dia de Bananada. Papisa, projeto solo da guitarrista, tecladista, que faz uma barulheira pra lá de intimista nos sintetizadores e tem uma bela e sutil voz Rita Oliva (SP), uniu distorções gravadas em samples com guitarra tocada por ela enquanto cantava.

Uma bola branca que, pelo nome Papisa fazer referência à carta da suma sacerdotiza, o segundo maior arcano do tarô, mais parecia uma bola de cristal, e uma tela preta transparente na frente de Rita traziam uma aura exotérica à apresentação. “Massa demais tocar com as Miêta. É o começo da nossa turnê juntas.”

E deu para ouvir bem as três músicas incluídas no EP de estreia da Papisa, lançado no ano passado. De Instinto vem parte do momento atual da cantora: “Do lado que resiste, é inútil esconder/Não tem coroa de espinho que te dê prazer/Nem bem nem mal existem, só um caminho pra escolher“.

E isso fica ainda mais claro quando Rita fala sobre a vinda dela para tocar no showcase da PWR Records no Bananada. “Saí de São Paulo de carro sem rumo certo.” A psicodelia exotérica de Papisa agradou bastante. Depois do show, um amigo comentou que esse tinha sido o melhor show que viu nas duas primeiras noite do festival.

Já era mais de meia-noite e meia quando a apresentação da Papisa acabou. Não deu tempo de ver as pirações da vocalista Gabriela Deptulski, da banda My Magical Glowing Lens (ES), um dos shows que eu mais queria ver em toda programação do Bananada. Para minha sorte, que perdi os capixabas ao vivo, eles voltam na sexta-feira (19) ao mesmo palco que deu inveja só pelos vídeos, o Complexo Estúdio & Pub, no Centro.

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