Augusto Diniz
Augusto Diniz

Para comemorar 20 anos de banda, MQN volta a fazer shows fora de Goiânia

Com viagens programadas para um final de semana a cada mês até o fim do ano, grupo retoma atividade para relembrar carreira com apresentações em outras cidades

Quando o MQN (Melhor Que Nada) surgiu, em 1997, Goiânia ainda vivia o estigma de ser uma capital tradicionalmente da música sertaneja. Também por isso, o grande evento anual na cidade era a Exposição Agropecuária, ou apenas Pecuária, que fazia a cidade girar em torno da festa. Da década de 1990 para 2017, a população pulou de 922.222 habitantes (censo IBGE 1991) para 1.448.639 moradores.

Se antes, há duas décadas, a música sertaneja marcava a identidade da cidade, repetir esse discurso velho e carcomido em 2017 beira a imbecilidade de quem parou no tempo e na fala. São tantas casas noturnas, show e eventos durante a semana que é mais do que normal hoje alguém que nasceu no início dos anos 2000 crescer tendo morado a vida toda em Goiânia sem nunca ter ouvido uma canção sequer do estilo.

Antes, Fabrício Nobre, vocalista do MQN, precisou criar um festival, o Bananada, para em 1999 mandar uma banana para a Pecuária e disputar espaço com a música sertaneja. Hoje o rock rivaliza com outros estilos e opções espalhadas em alguns pontos da cidade, inclusive o sertanejo, que já não é há muito tempo a única opção. “Empreender em cultura é uma aventura delirante. Empreender em cultura em Goiás é surreal. Empreender em cultura em Goiás no mercado alternativo é para gente que tem um parafuso a menos. E eu acho que eu tenho uns seis a menos.”

Mesmo naquele cenário, o MQN chegou a ser considerado no início dos anos 2000 umas das principais bandas do stoner rock brasileiro na cena independente. Entre o EP Television In Full Colour (1998), splits, os discos Hellburst (2002), Bad Ass Rock and Roll (2005) e os compactos MQN Fuck CD Sessions, lançados até 2008, a banda formada por Fabrício, Cesar CJ (guitarra), Rodrigo Miranda (bateria) e Gustavo Vazquez (baixo) influenciaram uma geração de roqueiros como Black Drawing Chalks, Hellbenders e fizeram muitos amigos na estrada.

Alguns desses amigos são os responsáveis pela volta do MQN neste final de semana às viagens e shows fora da capital goiana para comemorar os 20 anos da banda. Um deles é o Mario Bross, da banda Wry (SP) e do Festival Circadélica, em Sorocaba (SP). O outro é o Anderson Foca, da Camarones Orquestra Guitarrística (RN) e do Festival DoSol, em Natal (RN). “Desde que a banda morreu em 2012, a gente faz um show no halloween (dia das bruxas) sempre (uma vez por ano em Goiânia). Dois amigos de fora, que são o Foca, do DoSol, e o Mario, do Wry e do Circadélica de Sorocaba, falaram ’20 anos de MQN, vocês não vão fazer uns shows pra comemorar não?’.”

O Wry tocou no Palco Spotify do Festival Bananada deste ano, em maio. E como a experiência do meio independente sempre foi a da troca de experiências ou a dobradinha do “você me leva para fazer show na sua cidade que eu te trago para a minha e você se apresenta aqui” sempre valeu em todo o mundo, Fabrício sugeriu aos dois: “Se vocês chamarem para comemorar os 20 anos eu animo e faço os shows”.

Mario e Foca compraram a ideia. Enquanto esse texto estava sendo escrito, provavelmente o MQN fazia a primeira apresentação da turnê de 20 anos do MQN em Sorocaba, no Festival Circadélica. A outra data confirmada com os amigos é o Festival DoSol, em Natal, no dia 11 de novembro deste ano. “Eu sou linguarudo demais e comecei a contar para as pessoas. E aí pintou a chance de fazer mais shows”, conta.

Foi quando o Alexandre Matias, do Centro Cultural São Paulo (CCSP), outro amigo de Fabrício, avisou o vocalista do MQN que o CCSP, na capital paulista, faria um festival. Veio mais um convite para a banda tocar no domingo 23 de julho. “Só que o MQN em uma data sozinho talvez não dê ninguém. E ele falou: ‘Faz no dia do Boogarins’. Eu respondi que ia perguntar para os meninos e ver o que eles achavam.” A reposta do guitarrista Benke Ferraz e do vocalista e guitarrista Fernando Almeida, o Dinho, do Boogarins, para Fabrício foi a de que eles “adoraram a ideia”.

“Mas fazer só no CCSP é meio careta. Temos que fazer em um bar também. Foi quando o Dago Donato, do Breve, já falou.” Essa conversa virou o terceiro show do primeiro final de semana de turnê de 20 anos, com apresentações hoje no Circadélica, domingo (23/7) no CCSP e segunda (24) no Breve, também em São Paulo. “Tem sido assim. Um cara de Uberlândia já ligou. O Pedrinho Pacheco, que era do Vamoz, falou que se a gente vai tocar em Natal tem que passar por Recife (PE)”, descreve.

Depois vieram convites para o MQN se apresentar em Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF). Foi quando a banda decidiu: “Vamos viajar um final de semana por mês até o final do ano para comemorar”. Há ainda outros convites para tocar em cidades do interior de São Paulo, além do tradicional halloween da banda em Goiânia.

Fabrício define que, depois de 20 anos de banda, mesmo que algum tempo parado, o MQN nunca teve um problema para dar um tempo. Tanto é que Gustavo, CJ e Miranda continuaram tocando e formaram o Dogteeth com o vocalista Brunno Veiga, do Overfuzz. “A gente continua amigo, nos encontramos semanalmente. Inclusive eu e o CJ temos um negócio juntos. O Rodrigo (Miranda) é padrinho da minha filha mais velha, o Cesar (CJ) é padrinho da minha filha mais nova. Eu e o Gustavo fazemos um monte de coisa juntos com estúdio e o Bananada.”

Em 2012, chegou a um ponto que, de tanto negar convites para fazer mais shows, eles decidiram parar de tocar com o MQN. “Na verdade, a banda meio que morreu por preguiça minha de tocar o negócio da banda. Se eu não tivesse ficado com tanta preguiça de ter uma banda, a gente não teria parado nunca”, assume Fabrício. Além do cansaço de manter o MQN ativo, o baterista chegou a morar seis meses nos Estados Unidos. “Não fazia sentido tocar com outra pessoa”, diz.

A fase mais ativa do MQN foi entre 2001 e 2008, ano do lançamento do último compacto. “A gente tem um público muito legal aqui e nas cidades que a gente tocou muitas vezes – Natal, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília – eu acho que tem gente que tem saudade de ver. É lógico que nós não vamos lotar uma casa para 200 pessoas. Mas se as casas forem do tamanho do Complexo, daqui (Rock) ou da Casa do Mancha (SP), casa para cem pessoas, não vai ser um fiasco”, brinca.

Público

Para Fabrício, ainda há bandas no meio independente que conseguem atrair bons públicos aos seus shows. “Está difícil, tem muita opção. As festas ocuparam muito o espaço, o cover voltou a ocupar o espaço, mas ainda rola.” E confessa: “Na verdade eu é que estou cansado de fazer show, entendeu?”.

E volta a defender que existem grupos de Goiânia que são atrativos, como Hellbendes, que “não toca para menos de 150 pessoas”, Carne Doce e Boogarins, que conseguem cada uma tocar sempre para um público de 200 pagantes ou acima disso, Shotgun Wives e Chell na casa das cem pessoas e Bruna Mendez com 80 ou mais a cada apresentação.

O vocalista do MQN admite que está surfando na onda do Boogarins neste final de semana em São Paulo no CCSP e no Breve, agendas da banda que Fabrício agencia no Brasil e América do Sul. “É uma venda casada de shows.  A gente está tirando uma super casquinha, mas é com o consentimento e alegria dos espaços que estão convidando. O diretor do CCSP e os donos do Breve estão amando o MQN estar junto. E o Boogarins está adorando, a gente nunca tocou junto. E a gente está adorando tocar com eles, porque eles são legais para caralho e vai estar cheio.”

Sem pegar a estrada com o MQN desde 2011, quando a banda ainda fez mais shows, Fabrício diz que está pronto para encarar as viagens que virão. “A minha bota de shows está limpinha, está pronta para fazer a confusão.” Antes de começar a entrevista, o guitarrista CJ disse que quem falaria seria o Fabrício. “No MQN é assim, quem faltou ao ensaio dá entrevista”, tira onda com o vocalista, que não teria ido aos últimos dois ensaios.

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