Augusto Diniz
Augusto Diniz

Milton Nascimento emociona em show que revisita seus 56 anos de carreira

Carioca mais mineiro do Brasil veio a Goiânia no dia 27 de março com a turnê “Semente da Terra”, que traz repertório carregado de sucessos e conteúdo político

Bituca, como é chamado desde pequeno, Milton Nascimento encantou o público em show feito na capital goiana | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

Forte eu sou mas não tem jeito/Hoje eu tenho que chorar.” As 3 mil pessoas que lotaram o espaço reservado do primeiro piso do Deck Parking Sul do Flamboyant Shopping Center na terça-feira 27 de março foram arrebatadas nos primeiros versos pela passagem inesquecível de um dos mais brilhantes cantores e compositores da música popular brasileira (MPB) de todos os tempos. Foi só surgir no palco que Milton Nascimento, o carioca mais mineiro do Brasil, fez da emoção de seus versos motivo para choro, risos, arrepios e encanto.

Bituca, apelido carinhoso dos tempos de criança do artista, deixou a abertura do show para a belíssima voz de Bárbara Barcellos, que trouxe a plateia junto em um coro suave nos primeiros versos da canção “Travessia”. Acompanhada de duas fotos de Milton no palco, uma da juventude ao lado direito e outra da infância no canto oposto, a cantora deu tom ao talentoso time da turnê “Semente da Terra”.

Os irmãos violonistas Beto Lopes (violão sete cordas) e Wilson Lopes (violão e guitarra), que assina a direção musical da apresentação, o contrabaixista Alexandre Ito, o baterista Lincoln Cheib, o pianista Kiko Continentino, o flautista e saxofonista Widor Santiago e Bárbara chamavam o público na composição de Milton e o falecido parceiro Fernando Brant (1946-2015), “Travessia”, que revelou ao mundo o carioca criado em Três Pontas (MG) em seu disco de estreia – em 1967 – e no segundo lugar no Festival Internacional da Canção no mesmo ano.

Sentadas, as pessoas cantavam junto com Bárbara quando, aos 75 anos, surgiu um discreto Milton Nascimento – em pé no meio do palco – em “Vou seguindo pela vida/Me esquecendo de você/Eu não quero mais a morte/Tenho muito que viver“. Palmas seguiram fortes nos primeiros versos cantados por Bituca. “Vou querer amar de novo/E se não der não vou sofrer/Já não sonho, hoje faço/Com meu braço o meu viver.”

Ao falar pela primeira vez com o público, Bituca cita o trem de ferro, “uma coisa mecânica que atravessa a madrugada”. O cantor lembra o quanto aquele transporte é simbólico, por tudo que “atravessou a minha vida”. Era a deixa perfeita para puxar a canção “Encontros e Despedidas”, de 1985. “Coisa que gosto é poder partir sem ter planos/Melhor ainda é poder voltar quando quero“, declara Milton na música sua fase, de idas e vindas da semente da terra que é de todos os lugares.

Milton acompanhado do grande time de músicos da turnê “Semente da Terra” em Goiânia | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

Bituca guarani-kaiowá

“É um prazer estar aqui hoje em Goiânia, cidade em que estive e vivi várias coisas”, cumprimenta o carioca o público do Flamboyant In Concert. Milton aproveita o momento para explicar o nome da turnê. “Os índios (guarani-kaiowá) se trancaram no meu camarim com uma foto muito estranha.” Semente da terra é o significado de “Ava Nhey Pyru Yvy Renhoi”, nome dado pela 37 lideranças espirituais dos guarani-kaiowá durante um show em 2010 na cidade de Campo Grande (MS), fato que Bituca conta com graça: “Pintaram o meu rosto com tinta preta”.

Em guarani-kaiowá, “Ava Nhey Pyru Yvy Renhoi” trata-se da “semente ancestral que germina na terra”. Ou simplesmente “semente da terra”. Foi quando o cantor retomou mais um fruto da parceria com Brant: “Credo”, do disco “Clube da Esquina 2”, de 1978. “Tenha fé no nosso povo que ele resiste/Tenha fé no nosso povo que ele insiste[…]/Caminhemos pela noite com a esperança/Caminhemos pela noite com a juventude.” Estava ali o recado de esperança em um momento político tão difícil vivido pelo País.

Não só o encanto da voz e obra de Milton se destacava no palco. A suavidade e potência vocal de Bárbara também se faziam notar, mesmo na sua função de segundo plano. Mas ela se torna protagonista ao recitar o texto “O presente pode não ser muito promissor, ainda mais na mão de quem hoje controla céus, seja em Brasília, na Avenida Paulista, em Washington ou no Rio”, do xamã yanomami Davi Kopenawa (traduzido no livro “A Queda do Céu”, Companhia das Letras, 2015, 768 p.).

“A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os Xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”, continua o texto recitado por Bárbara no palco.

As palavras do xamã yanomani dão lugar à canção “Idolatrada”, também composta ao lado de Brant, do consagrado disco “Minas” (1975). Em seguida, uma estendida jam abrem caminho para a forte “O Cio da Terra”, de 1977. “Amigos tive, amigos tenho e terei”, declara Bituca acompanhado de suas duas canecas personalizadas – uma delas com a capa de “Milton” (1970).

Bárbara e Bituca

Cantor fez público se emocionar, chorar, vibrar, aplaudir e cantar junto os sucessos reorganizados em versão protesto de esperança | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

“Me Deixa em Paz”, do clássico “Clube da Esquina” (1972), ressalta a composição de Monsueto e Ayrton Amorim, que foi interpretada por Milton e Alaíde Costa no disco. Ao vivo, Bituca e Bárbara revivem o dueto original em versão bastante visceral, com estrofes divididas em acusação e resposta unindo vozes no refrão. “Se você não me queria/Não devia me procurar/Não devia me iludir/Nem deixar eu me apaixonar.”

Ao final da recente “Mais Bonito Não Há” (2017), o cantor cita “Tiago (Iorc)” no microfone, com quem gravou a música, que é acompanhada com partitura no chão para cada um dos músicos no palco. “Ser amor pra quem anseia/Solidão de casa cheia/Dar a voz que incendeia/Ter um bom motivo para acreditar.”

Depois Milton faz uma viagem no tempo e volta a 1973 com a canção “Milagre dos Peixes” e traz o cunho social e político do show mais uma vez ao protagonismo da apresentação. Mais uma composição em parceria com Fernando Brant de um disco praticamente inteiro de letras censuradas pela ditadura militar. “E eu apenas sou um a mais, um a mais/A falar dessa dor, a nossa dor“, cantou Bituca ao público.

Mesmo quando não está com seu violão, o músico canta e simula com os dedos o apertar de notas e o tocar nelas com as mãos livres no palco. Sentado em um banquinho ao lado de suas duas canecas, Milton se mostra bastante à vontade num repertório político que revisita sua obra como uma ode à resistência, ao amor e à esperança de dias melhores. O figurino é o mais casual possível. O que os óculos escuros, a camisa discretamente florida, a calça jeans e os sapatos de cadarço revelam é um Bituca confortável na segurança de sua voz e no poder de emocionar das suas interpretações sinceras e apaixonadas.

O tom fica ainda mais político quando Milton repete o gesto feito em Brasília no show anterior, em 25 de março, e presta uma homenagem: “Agora eu quero dedicar a próxima música em memória de Marielle Franco (vereadora do PSOL do Rio) e Anderson Gomes (motorista da parlamentar)” – executados a tiros no dia 14 de março na capital fluminense. “Coração de Estudante” (1983), feita em parceria com Wagner Tiso, ainda mais com a carga do momento, torna aquele instante ainda mais simbólico e emocional. A canção, que se referia ao período mais duro e repressor da ditadura militar, é usada no show como um símbolo da luta e da resistência.

Já podaram seus momentos/Desviaram seu destino/Seu sorriso de menino/Quantas vezes se escondeu“, disparou em canto o músico, que foi respondido com palmas encorajadoras e receptivas à homenagem prestada a Marielle e Anderson. Se nas ruas gritam “Marielle. Presente” e “Anderson. Presente”, no palco o hino de indignação tomou forma nos versos “Mas renova-se a esperança/Nova aurora a cada dia/E há que se cuidar do broto/Pra que a vida nos dê/Flor, flor e fruto“.

Depois de sair do palco em passos lentos, Milton volta para cantar “Sentinela”, a cativante melodia do disco “Milton Nascimento”, de 1969. “Longe, longe, ou ouço essa voz/Que o tempo não vai levar.” “Canoa, Canoa”, de Brant e Nelson Angelo, lá do “Clube da Esquina 2”, volta ao lado indígena do show, com sua referência na letra aos avá-canoeiros, tribo – ou o pouco que sobrou dela – que habita a região do Rio Araguaia em Goiás e Tocantins. Bituca até inicia uma dancinha básica passinho para um lado passinho para o outro em um dos poucos momentos em pé no palco.

Doçura crítica

Bituca, no seu jeito discreto, soube dar intensidade às interpretações | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

De Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá, a cativante “Caçador de Mim”, de 1981, traz o público ao coro mais forte novamente no show. No solo de cordas da música, o cantor finge com os dedos que estaria ele dedilhando o violão. “Bueno”, começa Bituca a recitar um poema do alemão Bertolt Brecht.

“Hay hombres que luchan un día y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años, y son muy buenos. Pero los hay que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles (Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida: esses são os imprescindíveis).” O poema recitado é o mesmo da gravação de “Sueño Con Serpientes”, de 1980, composição do cubano Silvio Rodríguez e que conta com participação de Mercedes Sosa (1935-2009). Como no original, Bituca cantou a música em espanhol.

E voltou a falar dos laços construídos ao longo dos 75 anos de vida e 56 de carreira. “Eu nunca me canso de falar que a amizade é uma das coisas mais caras da minha vida”, diz Milton ao citar vários parceiros, cantores, compositores com os quais teve o prazer de compartilhar seu tempo e vivência. “É muita gente”, brinca. “Também estou rodeado de amigos aqui esta noite. E dedico esta música a todos vocês”, acaricia o ego dos presentes o artista antes de cantar “Nos Bailes da Vida”, de 1981, que teve pedido para a plateia acompanhar Bituca no final.

Milton vai até 1985 e resgata “Lágrimas do Sul”, parceria com Marco Antônio Guimarães, sem antes deixar de dizer “viva Naná Vasconcelos (1944-2016)”. “África, berço de meus pais/Ouço a voz de seu lamento/De multidão/Grade e escravidão/A vergonha dia a dia/E o vento do teu sul/É semente de outra história/Que já se repetiu/A aurora que esperamos/E o homem não sentiu.” Para quem estava no show e não entendeu o recado, o fim da letra é ainda mais claro. “E que chegue já, não demore, não/Hora de humanidade, de acordar/Continente e mais/A canção segue a pedir por ti.”

“Clube da Esquina Nº 2”, que na gravação original não entra a letra, só ganha versos na versão de 1994. A música traz a descrição do desafio de períodos de perturbação: “Por que se chamavam homens/Também se chamavam sonhos/E sonhos não envelhecem/Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos calmos calmos“.

Criado em Três Pontas (MG), o carioca alcançou o mundo com sua composições, amizades, parcerias e obra, que atraíram 3 mil pessoas ao show de 27 de março | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

Quase despedida

“Todo mundo me pergunta como vai ser a comemoração dos 50 anos do “Travessia”, dos 45 anos do “Clube da Esquina”, dos 55 anos de carreira.” E continua Bituca a explicar que o show pode não ter todas as músicas que cada um dos presentes queria ouvir da carreira de Milton, mas ali estão reunidas canções que representam todas as pessoas do mundo e também de Goiânia. “Estão principalmente os sonhos”, descreve o repertório da turnê “Semente da Terra”, que só volta aos palcos no dia 7 de abril em São Paulo, 19 e 20 de maio em Belo Horizonte, 26 e 27 de maio no Rio.

No vocal e no triângulo, Bárbara Barcellos preenche o espaço vocal deixado pela saída de Milton da frente do palco. A cantora não só segura como encanta ao público atento à qualidade vocal da artista em “Canção do Sal”. Já no final da música, Milton volta: “Filho vir da escola/Problema maior de estudar/Que é pra não ter meu trabalho/E vida de gente levar“.

E o auge chega com a animada “Maria, Maria”, também da parceria com Brant no “Clube da Esquina 2”. Até quando canta as agruras da vida em “Quem traz na pele essa marca/Possui a estranha mania/De ter fé na vida“, Bituca consegue tirar da dor a esperança de dias melhores.

Acabou?

Milton ensaia uma saída do palco, mas logo volta, já com público mais perto, e canta “A Lua Girou”, de 1976. As duas grandes canções do show na perspectiva do público, que vibrou bastante e cantou com empolgação total, foram as que vieram em seguida. Oferecida por Bituca a um amigo que conheceu em Los Angeles, na Califórnia (Estados Unidos), com quem se encontrou depois quando se apresentou em São Francisco, no mesmo estado americano, “Canção da América” foi acompanhada da primeira à última letra por cerca de 3 mil pessoas.

Muito choraram por lembrar de parentes que se foram, amigos distantes ou pessoas que deixam saudade por situações e motivos os mais diversos. “Pois, seja o que vier/Pois, seja o que vier/Venha o que vier/Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar/Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”

A conexão total entre Milton e a plateia se manteve com “Nada Será Como Antes”, composta em parceria com Ronaldo Bastos e que já recebeu diversas regravações. O verso “Que notícias me dão dos amigos?” é cantado por Bárbara como se perguntasse a Bituca quais são as novidades em tempos inacreditavelmente complicados que insistem em ficarem cada vez mais incertos. “Sei que nada será como está/Amanhã ou depois de amanhã/Resistindo na boca da noite um gosto de sol“, respondia a estrela da noite. E o fim veio com a bela “Caxangá”: “Quem não é sincero sai da brincadeira correndo/Pois pode se queimar“.

Aqueles que tiveram o prazer de ver de perto mais de 1 hora e 40 minutos do Bituca ao vivo saíram com a certeza de que 56 anos de carreira é pouco para o artista | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

Elis estava certa

Já na saída, uma pessoa encantada com a apresentação de Milton comenta: “A Elis Regina (1945-1982) tinha mesmo razão, ele é muito bom”. A definição ainda passa longe da qualidade de um músico que consegue ser brilhante até quando recorre à colinha da letra na beira do palco ou passa quase que todo o show sentado. A sutileza das interpretações de Bituca aos 56 anos de sua obra é tão fantástica que 75 anos parecem pouco para o mineiro que nasceu em outro estado. Volte sempre, Milton! E que a semente da terra do Bituca tenha criado raízes que o obriguem a vir sempre a Goiânia!

Quem mais vem este ano

Além de Milton Nascimento, o Flamboyant In Concert trará a Goiânia em 2018 os shows de Frejat com participação do maestro João Carlos Martins e Cordas (24/4), Diogo Nogueira com a convidada Alcione (29/5), Paula Toller e participação de Paulo Miklos (26/6), Fábio Jr. com presença de Fiuk (28/8), Biquini Cavadão e Humberto Gessinger (25/9) e Roupa Nova (30/10).

Confira as regras da troca de ingressos (clique aqui), que é feita com notas fiscais de compras feitas no mês da apresentação em lojas do shopping (veja a lista dos participantes).

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