Augusto Diniz
Augusto Diniz

Intimismo e densidade emocional marcam abertura do Bananada

Roteiro na primeira noite do festival incluiu Teatro Sesc Centro com shows de João Lucas e Bruna Mendez, Rock nas apresentações de Niela e Sarah Abdala e acabou no Retetê

Bruna Mendez mostrou sua maré de emoções intensas em show de abertura do Festival Bananada | Foto: Fernanda Leonor

Já eram mais de 19 horas da segunda-feira (8/5) quando eu saí da redação do jornal e comecei a correria para acompanhar mais uma das 14 edições do Festival Bananada que eu vi de perto como público pagante, estudante de jornalismo chato ou na função de repórter. Um caminho de sete quilômetros entre o trabalho e o Teatro Sesc Centro no percurso com parada para comer e me organizar para o primeiro showcase da noite.

Quando faltavam poucos minutos para as 20 horas a entrada do Teatro Sesc Centro já mostrava que, timidamente, o Bananada começava mudar a rotina das pessoas. Era segunda feira e um público considerável saiu de casa para ver dois belos shows pra lá de intimistas e emocionalmente densos.

O primeiro a ocupar o palco do Sesc Centro foi João Lucas em seu show especial João Canta Brandão, que é fruto de um disco com dez composições de Carlos Brandão. Acompanhado dos músicos João Victor Santana na guitarra, Aderson Maia no baixo e Bruna Mendez nos samples e backing vocal.

Vocalista da roqueira Johnny Suxxx and The Fucking Boys, João abriu o show com a brega, grudenta, chamativa e dançante Balada. “Cheguei pra ficar ficar/Se encoste em mim/Lá longe é o Sol/Lá perto é o fim.”

Era a participação do Festival Vaca Amarela, que tem como homem de frente João Lucas, na programação do primeiro dia do Bananada. “Dez anos atrás eu estava tocando pela primeira vez no Bananada. Era bem cedo no primeiro dia. O festival foi muito importante nesses dez anos da minha história.”

Com jaqueta vermelha, por baixo uma roupa preta com imagens dos Sex Pistols, calça rasgada no joelho e botas pretas, João, sob uma bela iluminação que variava entre o roxo e o azul, as vezes amarelada, continuou a interpretar as boas canções do disco João Canta Brandão (2015). De “Já não sei de nada/Eu só quis ser feliz” da música De Dois até Química, a última do show, o protagonista da apresentação brinca que as gotas que escorriam no rosto não são lágrimas, mas sim suor.

O cantor que fica “louco, baratinado” e canta com olhar vidrado para interpretar da melhor forma possível as letras mais agressivas abriu mais do que bem o Festival Bananada. João Lucas brincou com Brandão, que mais uma vez não foi e deixou de participar de uma das músicas. “Ele pode”, declarou.

João Luca pediu para o público ficar e esperar a próxima atração. “Dentro de 20 minutos o show da Bruna Mendez, um dos melhores discos de 2016”, avisou a curiosos, fãs e parentes da cantora que dividiam espaço nas cadeiras com fotógrafos fora e dentro do palco. E se despediu agradecendo a parceria do Bananada com outros festivais.

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Um mar de agressões emocionais

Um telão com imagens de ondas e pessoas no mar em preto e branco no fundo do palco. Bruna Mendez na guitarra e vocal, Chrisley Hernan Ximenes no baixo do lado direito e a novidade do show, o baterista Jean Ramos, músico do Quinta Suspensa, à esquerda do teatro.

É a primeira vez que Bruna se apresenta na companhia de um baterista depois da saída de Lucas Tomé, que na mesma noite se apresentaria nas bandas de Chell e Niela na Rock. O som que faltava ao vivo foi muito bem preenchido por Jean, que se mostrava o tempo todo pra lá de concentrado e atento a cada virada e sequência. Trouxe o peso que espanca o peito casado às letras intensas da cantora.

O belíssimo show, que contou com imagens dos filmes Emak-Bakia, do americano Man Ray, e Limite, de Mario Peixoto, foi o único a contar com as projeções desde o lançamento do disco O Mesmo Mar Que Nega a Terra Cede à Sua Calma, no ano passado. E unidas ao peso sofrido da bateria contínua e agressiva, deram ainda mais qualidade à apresentação.

O show foi aberto com a suave Agradecer, que tudo tem a ver com as imagens dos filmes utilizadas na performance ao vivo. “Desde que te vi inteira/Nesse corpo de chorar/O peso da carne deixa de dar conta.” Na sequência, igual acontece no disco, veio Esses Seus Olhos Têm Força de Terra: “Esses seus olhos têm força de terra/Que disfarça essa cor/De quando escorre toda água/E isso quase não se vê“.

Ao falar com o público, Bruna diz que vai só dar uma pausa para respirar porque está “desde as 6 horas da manhã tentando” fazer tudo sair o mais perfeito possível durante o show. Depois da apresentação, a cantora comentou que se sentiu incomodada com parte dos fotógrafos que sentaram na frente dela, no meio do palco, e pareciam parte do espetáculo. A artista confessou que em alguns momentos chegou a perder a concentração com máquinas na cara dela durante a apresentação.

Ela continuou com Todo Choro É Canto, que fala da maré tranquila que toma conta da vida quando se encontra um amor tranquilo. “Todo choro é canto de gratidão/De um corpo que esperar desaguar/Tudo que é bonito/E ocupar todo espaço.” O casamento estético da apresentação com a qualidade dos músicos, a voz calma e encantadora de Bruna aliadas a um espaço bem ambientado, iluminado e um som de qualidade fizeram o show ser ainda melhor.

Da letra da música que deu título ao álbum, Brisa, veio o momento transformado em letra de quem se perde na maré alta da incerteza: “Em todo canto que finda o olhar/Dói o que não vê
Mas sente pouco no que toca/O mesmo mar que nega a terra cede à sua calma“.

A guitarra chorosa de Branquinha botou o público em balanços lentos e ritmados de cabeça e canto baixo acompanhando Bruna nos versos “Não sofra não, branquinha/Porque não posso te esclarecer as mãos/E os olhos são um lago/Que carregam o mar/E é de saber: Ele vai transbordar“.

A cada nota o sofrimento e o intimismo aumentavam com a repetições das imagens da maré no telão e a luz roxa que dava cor ao palco. Nesse momento, a bateria seca marcou a profundidade de Sorte em um corpo que se entrega à experiência de quem acha que o sofá merece a pessoa amada com um sorriso refletido no espelho de casa. “Azul/Fico entre o céu e o mar que oscila/Corpo que pede terra/Cria só raiz e ancora no vazio/Que é pensar em não te ter em mim.”

Para a cantora, que brinca com o público, essa é a música que ela mais “dá o truque” na hora de executar no palco. E ela reclama de comparações de gente que nunca ouviu seu trabalho: “Postaram essa música (Tô Aqui, mas que ele chama de Travessia no show) numa página até famosa, o Brasileiríssimos, aí uma menina disse ‘nossa! Ela copiou a Mallu Magalhães'”. Bruna, em seguida, ri da história em tom de ironia.

Chame de Tô Aqui, nome dado à canção no disco, ou Travessia, como ela chamou a canção na apresentação, trata-se de uma das melhores músicas do disco. E que veio seguida de Calor, Sol e Sal, a queridinha do público. Ela até virou trilha sonora de corredor das Lojas Renner sem autorização da artista. E a plateia, que incluía a mãe de Bruna, cantou junto, principalmente o refrão.

A charmosa Vento Bom deu lugar a Pra Ela, do EP homônimo (2014), acompanhada com palmas e coro. “Essa não estava nos planos”, revela Bruna. E brinca com a disposição da mãe: “Hoje é segunda e tem uma programação enorme. Vocês vão, né? A minha mãe vai”.

Bruna fecha o impecável show no Teatro Sesc Centro com Licença, música gravada no ano passado em parceria com Vitor Brauer (Lupe de Lupe), Braz Torres (Hellbenders), Ricardo Machado (Carne Doce) e João Victor Santana (Carne Doce) no Pulso, uma incubadora de músicos que tem vida no Red Bull Station, em São Paulo. Licença entrou de vez no repertório da cantora. “Agora eu peguei pra mim e vou tocar ela sempre”, brinca antes de encerrar o show com a canção.

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Suavidade e boas viagens

Não deu tempo de chegar à Rock antes do final do primeiro show, da novata Chell. Mas pelo setlist jogado no chão perto do palco deu para notar um repertório com as músicas do EP de estreia (2017) e um cover de Baba Baby, maior sucesso da carreira de Kelly Key, composta em parceria com Andinho e lançada em 2001.

Foi o suficiente para acompanhar o show inteiro da nova etapa da carreira de Niela, que há muito tempo não se apresenta mais com a banda Gloom. Na estreia ao vivo de sua fase solo, a cantora trouxe ao palco da Rock os dois singles já lançados, a calminha Então e a mais animada Me Deixa Entrar, covers e a participação dos músicos Adriano Zago (teclado, escaleta e sintetizadores), Lucas Tomé (bateria), que também tocou no show anterior, e Bruno Prudente (baixo).

Com uma banda de qualidade, que reúne ótimos músicos, Niela deu um pouco da graça do trabalho que estar por vir e foi produzido no Estúdio Do Amor, no Rio de Janeiro, por Gabriel Mayall, o Gabriel Bubu do Los Hermanos. Até um cover um pouco mais acelerado de Te Faço Um Cafuné (2016) de Mariana Aydar, composta por Zezum, que tocava triângulo com Dominguinhos, Niela fez.

Ficou a impressão de que poder vir boa coisa, mas prefiro aguardar um show de lançamento para ver no que vai dar. A primeira impressão é boa. “Gente, agora chegou a última canção e a gente ainda tem a Sarah Abdala. E hoje é segunda-feira”, se despediu do bom público Niela. Menos fofolk do que Chell, as músicas de Niela parecem dialogar mais com a chamada nova MPB e o pop rock.

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A despedida da primeira noite do Bananada veio com todo o intimismo de Sarah Abdala, goiana que mora no Rio e fazia o show de lançamento da turnê Oeste (2017), seu segundo disco. A primeira canção veio do primeiro disco, Futuro Imaginário (2014). Velho Filme, em parceria com Dado Villa-Lobos (Legião Urbana), começou a mostrar a sonoridade recheada de sintetizadores e uma voz suave de Sarah.

Artista da Rock It!, selo de Dado Villa-Lobos, Sarah tocou pela primeira vez a música Mira ao vivo, que abre o novo disco. A força dos versos “Tente abraçar meu mundo/Mesmo que não caiba não” atraíram a atenção de quem resistiu até o início do show, já às 22h50, na Rock. Em seguida veio uma canção do final do álbum. Caminhando mostra um lado mais calmo da cantora, que toca guitarra enquanto cria um clima intimista com sua voz e efeitos que se assemelham a ecos e repetições.

Água Fresca e Cavalgada mantiveram o disco Oeste em evidência na apresentação. Duas belas canções um pouco prejudicadas pela falta de clareza na voz que saía para o público. Problema que o Fabrício Nobre, proprietário da Rock, já disse que deve ser resolvido com o isolamento acústico de algumas das paredes do local.

Do Teu Olhar, do primeiro disco, dialoga mais com o blues e trazem uma atmosfera mais roqueira ao show. Já Vista Desde la Ventana traz novamente a apresentação para uma calmaria que dá destaque aos ecos no vocal agradável de Sarah.

“Não teria lugar melhor para começar essa turnê do que aqui, do que no Bananada. Foi o primeiro festival que eu fui. Faz muito sentido tocar esse disco aqui”, agradece o convite Sarah. Ainda deu tempo de tocar a suave Amanheceu, a guitarra repetitiva e marcante de Pulsa e fechar o show com a intimista Rua. Acompanharam Sarah na primeira amostra ao vivo do álbum Oeste Tai Fonseca (sintetizadores e violão) e Rogério Sobreira (teclado).

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Festa que invadiu a madrugada

Já era início da madrugada de terça-feira (9) e o DJ Raul Majadas ainda animava quem foi ao Retetê, um bar aconchegante e com cara de esquenta de balada no Setor Marista. A enorme programação da segunda só mostrava que o Bananada, evento que chegou a sua 19ª edição este ano, ainda tinha muito a mostrar. Só restou ir para casa e tentar descansar o máximo possível para encarar a maior quantidade de shows que fosse possível no dia seguinte.

Raul Majadas fechou a primeira noite do Bananada no Retetê | Foto: Fernanda Leonor

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