Augusto Diniz
Augusto Diniz

Goiânia Noise deu ao chato tudo que ele queria: o direito de gritar “toca Raul”

Primeira noite do festival de música independente deixou o roqueiro fã da metamorfose ambulante mais do que feliz ao homenagear um dos ícones do rock brasileiro

Marcelo Nova, conterrâneo de Raul, gravou com ele o derradeiro disco de estúdio da carreira de Raulzito: A Panela do Diabo | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Quando o Maluco Beleza, o baiano de Salvador (BA) Raul Santos Seixas, morreu aos 44 anos, no dia 21 de agosto de 1989, uma de suas últimas parcerias era divulgada ao público. Seu parceiro na última turnê, o vocalista do Camisa de Vênus, Marcelo Nova, conterrâneo de Raul, gravou com ele o derradeiro disco de estúdio da carreira de Raulzito: A Panela do Diabo (1989).

No palco principal do 23º Goiânia Noise, Marcelo Nova e a Camisa de Vênus relembraram essa parceria e outros sucessos de Raul Seixas para um público que aguardou bastante o dia em que não seria chato gritar “toca Raul”. O soteropolitano ex-parceiro do Maluco Beleza disse à plateia, que aguardou até 1h08 de sábado (19/7), que não teve a oportunidade de tocar o disco ao vivo com Raul, que teria morrido no mesmo dia do lançamento.

Há controvérsia nessa história, já que o registro da data de lançamento de A Panela do Diabo é 19 de agosto de 1989, dois dias antes da morte de Raul. De qualquer forma, o início da madrugada de sábado marcava exatamente os 30 anos do álbum gravado pelo Maluco Beleza e Marcelo Nova. E foi uma grande festa em homenagem a Raulzito.

O público que compareceu ao Jaó Music Hall, no Setor Jaó, pôde conferir de perto Marcelo Nova e o Camisa de Vênus um repertório que mostrou o brilho da carreira de Raul e um pouco dos clássicos da banda de seu último parceiro musical. Quando o vocalista puxou os primeiros versos Rock ‘n’ Roll com apenas oito minutos de atraso do horário marcado para o show começar, uma plateia que misturava várias gerações vibrou com Marcelo Nova cantando “Alguns dizem que ele é chato/Outros dizem que é banal/Já o colocam em propaganda/Fundo de comercial/Mas o bicho ainda entorta minha coluna cervical“.

Marcelo Nova ganhou o público assim que começou a cantar e não deixou a animação cair. Emendou Cowboy Fora da Lei com Al Capone, Rock do Diabo e Rock das Aranhas. Depois foi fácil justificar a escolha de Carpinteiro do Universo, do disco homenageado naquela madrugada. A plateia, já maravilhada pela noite em que o “toca Raul” era mais do que permitido, mas comemorado, quase não se conteve quando o Camisa de Vênus começou a tocar Metamorfose Ambulante.

Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Outro hino de Raul que voltou ao gosto popular até de quem não conhece a carreira do Maluco Beleza quando o Titãs regravou também fez parte do setlist do Camisa de Vênus. Se o coro já era grande em Metamorfose Ambulante, quando Aluga-se e seu refrão “Nós não vamos pagar nada/É tudo free” foi puxado por Marcelo Nova não restava dúvida de que a banda tinha agradado o público de forma completa.

Mesmo assim, foram muitas as vezes em que a plateia puxou o coro “Bota pra fudê“, do sucesso de 1995 do Camisa de Vênus, do disco Plugado!. Mas ainda tinha mais coisa do Raul no show. E veio a sequência Muita Estrela, Pouca Constelação e Pastor João e a Igreja Invisível.

Foi com Deus Me Dê Grana que o show virou um bis com clássicos do Camisa de Vênus. Sem sair do palco Marcelo e companhia fizeram piada dessa coisa de deixar o público esperando a volta da banda para uma segunda parte da apresentação. “Esse negócio de bis é chato pra caramba. Pior que bis é homem de coque”, ironizou o vocalista.

Marcelo Nova, Robério Santana no baixo, o filho de Marcelo, Drake Nova, em uma guitarra, Leandro Dalle na outra e Célio Glouster na bateria continuaram a relembrar clássicos da banda com Hoje, My Way, Simca Chambord e fechou o show com Eu Não Matei Joana D’Arc, que teve o último refrão repetido incansáveis vezes até o fim da apresentação.

Primeira noite

Nas últimas três edições, o Goiânia Noise migrou de lugar. Em 2015, na 21ª edição, o festival teve como casa o Centro Cultural Martim Cererê. Ao completar 22 anos, as três noites de shows do evento foram transferidas para o Centro Cultural Oscar Niemeyer. Neste ano, a casa do Noise é o Jaó Music Hall, conhecido pelos grandes shows de bandas nacionais nas décadas de 1990 e início dos anos 2000.

Com um palco na frente do outro e um estúdio sonoro, além de um espaço da Harmonia Musical para que músicos se apresentem a qualquer momento, 17 atrações se apresentaram em três espaços diferentes na primeira noite do festival, realizada na sexta-feira (18). Pela primeira vez em todas as edições do festival, quase todas as bandas tocaram no horário marcado, com um atraso de apenas um minuto na antepenúltima atração, quatro minutos na penúltima e oito na que encerrou.

Infelizmente não cheguei a tempo de ver o sempre bom show da Black Lines, que faz uma linha que mescla metal com southern rock. Também perdi a apresentação da Half Bridge, banda que ainda não vi ao vivo (ao menos não me lembro). O final da participação da Canábicos (MG) pareceu interessante.

O trio Sã, que tem se apresentado bastante nos últimos meses, veio para o Noise dois dias de lançar o simples e bom videoclipe da música Translação. Com um show que mistura teatro, filosofia, piração e muito rock sessentista e setentista, a banda liderada por Danilo Xidan na guitarra e vocal atraiu a atenção de quem chegou cedo.

A mineira Uganga deixou, mais uma vez, a boa impressão, apesar de um som muito difícil de entender no palco 1 durante os primeiros shows, para quem viu. Seu som rápido e agressivo misturado ao metal, rap e New York hardcore liderado pelo vocalista Manu Joker impressionou quem não conhecia. Coube até um cover de Troops of Doom, da também mineira Sepultura, entre o repertório que mostrou um pouco dos cinco discos da carreira do grupo.

Mais um trio se apresentou na primeira noite do Goiânia Noise. Lillian Lessa (baixo e vocal), Pedro Ivo Salvador (guitarra e vocal) e Thiago Alef (bateria) mostraram uma boa base instrumental de hard rock nas músicas da banda Necro, de Maceió (AL).

Bob Malmström | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Uma boa surpresa da noite foi a banda finlandesa de hardcore Bob Malmström. O quarteto formado por Carl Johan Langenskiöld no baixo, Olof Palmén na guitarra, Wilhelm Wahlroos na bateria e o engravatado Carolus Aminoff no vocal se auto-intitula de reis do borgarcore, que pode ser porcamente traduzido como hardcore burguês. Com músicas agressivas, rápidas e cantadas em finlandês, o grupo prega uma mudança para uma vida melhor, que o mais importante seria falar sobre como é vida é boa se você pensar a coisa certa. Independente da mensagem, ao vivo as canções são berradas na velocidade de um soco mais do que certeiro.

Apesar de no material impresso com a programação estar escrito Mice Möb, foi a banda do mesmo vocalista, Lineker Lancellote, o quarteto que se apresentou ontem foi a Two Wolves. De Senador Canedo, o grupo mostrou seu bom indie rock, que já rendeu execução de algumas músicas em rádios de Goiânia. Lineker agradeceu a oportunidade de estar pelo segundo ano seguindo na programação do Noise: “Se não tivesse isso aqui a cena teria morrido”. E lembrou de pedir paciência aos fãs do metal, que aguardavam as bandas Project46 e Ineffable Act, para terem um pouco de paciência com uma banda um pouco mais calma como a Two Wolves.

Papo de Jacaré?

Jukebox From Hell veio em seguida e mostrou a força de um som influenciado pelo pop rock da década de 1980. Os mais atentos perceberam que o vocalista Carlinhos Santos, com toda sua pose e gritinhos no palco, é o mesmo que em 1997 fez sucesso com a música Papo de Jacaré, à frente da PO Box. Como tinha muita gente doida para ver o Camisa de Vênus homenagear Raul Seixas naquela noite, a banda foi muito bem recebida pelo público.

Quando a Jukebox From Hell encerrou seu show no palco 1, o palco 2 se tornou uma grande festa rock brega com uma das melhores apresentações do Rollin’ Chamas nos últimos dois anos, com direito a participação de um dançarino vestido com roupa de couro de sadomasoquismo.

Rollin Chamas | Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Parte do público parecia nunca ter visto o grupo liderado por Fal ao vivo em nenhuma de suas formações com diferentes bateristas, churrasqueiros e backing vocals, nem quando há o tradicional sorteio de frango assado. Inclusive quando os fãs criaram o grupo cuecas em chamas, que via as apresentações usando cuecas samba canção. De Adalgisa a É o Sal, o Rollin’ Chamas divertiu muito a plateia e fez daqueles 30 minutos uma grande folia rock com o clássico coro de Hey Jude, dos Beatles. Com uma grande farra no palco, o grupo se despediu ao som de Kd o Jererê?.

Ineffable Act e Project46 fizeram dois shows pesados, do jeito que os fãs queriam, com muito metal, nos quais parte do público se divertiu nas rodas e com dois paredões da morte, quando o público se divide em dois muros que vão de encontro ao outro e se chocam no meio da plateia.

Programação

O 23º Goiânia Noise continua neste sábado e no domingo (20) no Jaó Music Hall com muitos shows. Confira a programação abaixo.

Sábado – 19/08

Palco 1
16:30 Templates (GO)
17:30 Revolted (GO)
18:30 La Morsa (GO)
19:30 Suco Elétrico (RS)
20:30 Las Diferencias (ARG)
21:30 Monstros do Ula Ula (RJ)
22:30 Cólera (SP)
01:00 Pato Fu (MG)

Palco 2
17:00 Ok Johnny (GO)
18:00 The Baudelaires (PA)
19:00 Desastre (GO)
20:00 Señores (GO)
21:00 Nenê Altro (SP)
22:00 Mechanics (GO)
23:00 Tati Bassi (SP)
23:50 Odair José (GO)

Estúdio Noise: 19h Shallrise * 20h Almost Down * 21h Old Place * 22h Caffeine Lullabies * 23h The Galo Power

Domingo – 20/08

Palco 1
17:00 Acéfalos (GO)
18:00 DogMan (GO)
19:00 Os Gringos (MG)
20:00 Stoned Jesus (UKR)
21:00 Sheena Ye (GO)
22:20 Raimundos (DF)

Palco 2
17:30 Light River Company (GO)
18:30 Red Mess (PR)
19:30 The Dirty Coal Train (POR)
20:30 Rocca Vegas (CE)
21:30 Relespública (PR) + Edgard Scandurra (SP)

Estúdio Noise: 19h Chef Wong’s * 20h Rural Killers * 21h Armum * 22h Woolloongabbas

Mais informações (clique aqui).

Veja fotos da primeira noite de festival:

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